Nightflyers é uma produção com grandes aspirações, que apresenta frutíferas propostas em sua primeira temporada, mas é completamente sabotada por uma execução pouco inspirada, e um roteiro demasiadamente confuso.

A nova série do canal Syfy, baseada em um pequena história do escritor George R.R. Martin, traz temas capazes de instigar qualquer espectador interessado pelo gênero de ficção científica. Inteligência artificial, vida extraterrestre, viagens interestelares, poderes telepáticos… Nightflyers tem de tudo e mais um pouco, produzindo novas reviravoltas e expansões desenfreadas de sua mitologia com um ritmo absurdamente inconsistente.

E como se já não bastasse tentar atrair o interesse do público através destes vários elementos de ficção científica, a série ainda procura abordar sua história com uma atmosfera de terror e suspense que, em teoria, tornaria esta, uma série essencial para uma grande parcela do público. Não há muito segredo por trás da estratégia empregada por Nightflyers, mas nem mesmo a proposta mais original ou mais atraente seria capaz de sobreviver em meio à pobre (e, às vezes, entediante) atmosfera construída pela direção da série.

>> CONTINUA APÓS PUBLICIDADE

São vários, os momentos de tensão em Nightflyers que poderiam ter o seu impacto amplificado com a devida construção da antecipação. Visuais mais chocantes ou transgressores chegam a servir seus propósitos, às vezes, mas sem a preparação necessária (onde o espectador deveria estar emocionalmente envolvido com a situação), tais elementos soam gratuitos. É evidente, o entusiasmo do roteiro com os gêneros que estão a sua disposição para serem explorados, mas a maneira como a série trabalha os principais aspectos destes gêneros é pouco original, e raramente bem estruturada o suficiente para guiar o espectador por cada etapa da história.

A começar pelo primeiro episódio, que deveria apresentar os personagens principais a serem seguidos pelo espectador, além de estabelecer as dinâmicas essenciais entre a tripulação da nave. Embora tenhamos, sim, uma boa carga de exposição para contextualizar a época e o funcionamento desta missão, dificilmente o espectador estará genuinamente envolvido com qualquer destes supostos protagonistas, uma vez que a série prefere guardar peças fundamentais da construção de cada personagem para tentar revelá-las com maior impacto em episódios futuros.

Nightflyers é uma série obcecada por reviravoltas mirabolantes e grandes revelações. Embora os primeiros episódios tragam a sensação de que esta é uma série muito mais “sofisticada” do que realmente se propõe a ser, o roteiro só vai se tornando mais abarrotado conforme nos aproximamos da conclusão, revirando a trajetória destes personagens com pouca organicidade, e apresentando novos tópicos mirabolantes que poderiam nutrir histórias individuais por conta própria, sem muita dificuldades.

O maior problema das viradas de Nightflyers, no entanto, não está necessariamente na quantidade exacerbada, mas sim na falta de preparação e da devida construção para estes desenvolvimentos. A trama principal, onde os protagonistas precisam chegar até a localização de um povo alienígena (chamado de Volcryn) para tentar estabelecer comunicação, já é, por si só, mal exposta e confusa. São muitas informações que nem sempre são consistentemente estabelecidas para o espectador conseguir desenvolver o engajamento apropriado com esta jornada, o quê já deixa o terreno instável para qualquer grande mudança na dinâmica dos personagens.

Quando estas grandes mudanças chegam, então (e são várias), é difícil sentir qualquer organicidade ou fluidez na narrativa, com as reviravoltas soando pouco acreditáveis, ou convenientes demais ao roteiro. Muitas destas parecem ser apresentadas apenas para provocar algum conflito impactante em um determinado momento da história, mas suas consequências dificilmente são trabalhadas com relevância nos episódios seguintes, sempre dando espaço ao novo desenvolvimento mirabolante que deve avançar a trama.

Outro problema que surge desta desta bagunçada execução de Nightflyers, o senso de urgência da série (essencial para a construção de uma atmosfera de suspense adequada) é, também, inconsistente, justamente pela alterações de foco da narrativa que procuram retratar uma maior abrangência deste cenário, mas acabam tornando algumas tramas dispersivas e sacrificando o ritmo da história (além de qualquer interesse conquistado no espectador).

O quinto episódio, focado na personagem Loomie (Maya Eshet) tentando encontrar uma maneira de prender a vilanesca Cynthia (Josette Simon) dentro do computador da nave (No melhor jeito Matrix de baixo orçamento), é um ponto de virada intenso para esta narrativa, e boa parte do que roteiro constrói neste episódio (principalmente no que diz respeito à relevância de cada personagem) poderia ter sido estabelecido com maior propriedade anteriormente, o que tornaria a progressão mais fluída e envolvente.

NIghtflyers também procura aproveitar seus temas e ambientes mirabolantes para refletir sobre questões humanas comuns ao gênero de ficção científica. Os dilemas de Karl (Eoin Macken) envolvendo a percepção da realidade e a relevância das memórias poderiam, sutilmente, remeter ao clássico filme “Solaris”, de Andrei Tarkovsky, bem como parte da atmosfera de insegurança que a série procura estabelecer. No entanto, a enorme dispersão deste roteiro, que tenta equilibrar tantas tramas e temas sem a estrutura adequada para tal, acaba impedindo que qualquer interpretação mais profunda possa surgir no espectador, cuja atenção nem sempre é bem direcionada ou conservada.

Quando finalmente chegamos na reta final, e o objetivo inicial está prestes a ser alcançado, não é como se o espectador estivesse ansioso para saber as respostas certeiras para perguntas persistentes, por que é difícil saber quais são, realmente, as perguntas que a série está interessada em responder. Cynthia fica com o papel de grande antagonista da história, mas seu comportamento é superficial demais para que imponha qualquer ameaça eficiente, e alguns dos personagens encontram conclusões que não condizem com suas evoluções até aqui. Para exemplificar melhor, basta reparar na maneira pouco marcante como a relação entre Roy (David Ajala) e Mel (Jodie Turner-Smith) é construída durante a série, e o quão significativa ela deveria ser para o espectador, durante o episódio final.

O único sentimento que tenho após esta primeira temporada de Nightflyers é frustração. Havia um grande potencial perceptível em uma produção como esta, consciente de seu público-alvo e disposta a trabalhar com complexidades além do que se costuma permitir na televisão. No entanto, ideias boas nunca são suficientes. É necessário saber como contar uma boa história, e como envolver o espectador em meio aos aspectos que já são atraentes por si só. Uma segunda temporada seria essencial para tentar redimir os erros desta primeira, e quem sabe trazer algum sentimento de completude à esta enorme trama. Se estarei esperando por ela, já é uma outra história…

NIghtflyers
COMPARTILHE: