A Netflix não perdeu tempo ao tentar vender Amigos da Faculdade como mais uma série ideal para o público que adora acompanhar a rotina de um grupo de amigos atrapalhados (e em Nova York, ainda por cima). No entanto, esta segunda temporada continua apresentando os mesmos equívocos da primeira, apesar do elenco competente.

Amigos da Faculdade é uma série que busca expressar todas as frustrações e realizações de uma crise de meia-idade. Os personagens se recusam a crescer, sempre buscando recriar o adrenalina e a descontração da época da faculdade. Sempre que estão juntos, acabam fazendo algo irresponsável ou imaturo, o que normalmente poderia compor uma proposta perfeitamente válida para uma série de comédia. New Girl, Happy Endings e How i Met Your Mother também trazem situações semelhantes, mesmo seus personagens não sendo tão velhos quanto por aqui.

Eis o problema da série, em geral: Os protagonistas de Amigos da Faculdade são personagens detestáveis. Suas frustrações podem ser familiares para um público com a mesma faixa etária, mas suas atitudes dificilmente são aceitáveis para o espectador, apesar da série se esforçar para contextualizar as decisões e impulsos como se não devessem ser julgadas por quem as vê de fora. Ethan (Keegan-MIchael Key) foi o personagem central de boa parte da primeira temporada, e sua falta de escrúpulos, constantemente justificada por uma noção romântica delirante, tornava difícil torcer pelo sucesso do personagem.


O mesmo poderia ser dito sobre o resto do elenco, com exceção de Marianne (Jae Suh Park) e Max(Fred Savage). Os outros amigos que compõem o quadrado amoroso da série acabam ganhando uma simpatia maior nesta nova temporada, agora que estão sofrendo as consequências do primeiro ano, mas suas constantes desilusões e a falta de alívios cômicos mais eficientes torna difícil acompanhá-los sem condená-los.

Não é incomum vermos protagonistas odiáveis em comédias (britânicos adoram). Na verdade, muitos argumentariam que quanto mais falho for o personagem, melhor para a história, já que acompanhar um personagem impulsivo ou irresponsável sempre gerará situações cômicas impagáveis. No entanto, é preciso criar algum tipo de possível redenção para o protagonista em questão. Algo que nós, como espectadores, possamos compreender e torcer para que, quem sabe um dia, o personagem possa evoluir. Mesmo em séries, que sempre querem manter seus personagens em um estado constante, esta ponta de esperança é o que faz o público acompanhar por anos, por exemplo, um romance clichê entre protagonistas que estão sempre perto de ficar juntos, mas não ficam.

Esta segunda temporada soube, pelo menos, manter-se condizente com a trama da primeira. Teria sido fácil reinventar a dinâmica da série (talvez, até recomendável) logo de cara, assumindo novas formações de casais ou introduzindo novos personagens discordantes. E apesar de podermos esperar algumas mudanças bem impactantes para o terceiro ano, esta temporada seguiu um ritmo orgânico para que os personagem se restabelecessem. LIsa (Colbie Smulders) redescobrindo sua identidade e seus interesses poderia ter sido um tópico explorado com mais entusiasmo, assim como Max consegue proporcionar alguns dos momentos mais engraçados com sua tentativa de se tornar um escritor de verdade.

Quem fica para trás, novamente, é Marianne. A personagem parecia ser apenas um tapa-buraco durante a primeira temporada, e embora este novo ano consiga, pelo menos, lhe proporcionar algumas cenas cômicas que merecem destaque, assumindo-a ainda mais como o membro mais excêntrico e espontâneo do grupo, a construção da personagem continua sendo bem superficial, quando comparada com a dos outros protagonistas. Ainda assim, Marianne deve ser a favorita de muitos espectadores da série.

A trama desta nova temporada se mostra previsível nos primeiros episódios, mas acaba sendo mais interessante de acompanhar quando, na reta final, Lisa descobre que está grávida (sempre digo, e repito, bebês são minas de ouro para séries de comèdia). E o pai ainda por cima, é Ethan, que finalmente parecia confortável com a ideia de assumir um relacionamento com Sam (Annie Parisse). E como nós, espectadores, podemos torcer pelo sucesso do casal, se nem mesmo o grupo de amigos consegue passar uma noite concordando com a ideia dos personagens ficarem juntos?

Sam, por sua vez, foi a mais afetada por todas as “pulações-de-cerca” da última temporada (Como a própria personagem diz, são as mulheres que costumam ficar com a pior parte). Assim como várias outras situações da série, a atitude absurda de seu marido, que resolveu avisar toda a sua lista de contatos sobre a traição, fica entre ser engraçada e ser apenas infeliz. Comédia é tom, é conseguir colocar uma tragédia sob uma perspectiva de deboche, sátira ou descompromisso. E se Amigos da Faculdade quer ser engraçada e emocionante ao mesmo tempo, é preciso saber manter um equilíbrio e um ritmo indispensáveis. Não se pode deixar o espectador parar de rir para que ele se pergunte se, na verdade, não está só com dó dos personagens, ou (pior ainda) com repulsa por conta seus comportamentos.

A série se dedica muito à contextualizar a fase de vida em que seus personagens se encontram. Tal proposta é evidenciada na própria entrada dos episódios, sempre mostrando diferentes mesas de jantar características de diferentes fases da vida. Os hábitos e cenários destes personagens também são trabalhados para evidenciar os contrastes entre a realidade e as aspirações do grupo principal, mas talvez o que falte na série seja, justamente, elevar este contraste, e deixar as “escapadas” ainda mais absurdas (Algo que a primeira temporada fez melhor que esta, com o episódio da vinícola, ou com Ethan tentando criar um novo livro com os amigos usando drogas)

Uma temporada menos excêntrica acaba deixando a série um tanto mais monótona. Ao menos, os personagens já estão mais familiares ao espectador, e suas ligeiras evoluções mantém a trama caminhando sem redundância. Vamos torcer para que a terceira temporada, então, aproveite este novo status estabelecido do grupo e revire tudo de cabeça pra baixo, sem receios ou reflexões depressivas extensas sobre a meia-idade. Amigos da Faculdade não precisa ser Friends ou How i Met Your Mother (e nem deveria mesmo), mas precisa compreender quem é o público cativo da série, e como transmitir sua perspectiva com mais envolvimento e descontração.