Está com saudades de Game of Thrones? A mais nova produção coreana da Netflix, Kingdom, pode servir muito bem para aplacar a sua ansiedade pela nova temporada, mas este está longe de ser o seu único proveito.

Antes de mais nada, é válido ressaltar que o cinema coreano vem trazendo algumas das melhores surpresas dos últimos anos (E o Caio Lopes, crítico de cinema aqui do site, seria o primeiro a concordar). Várias produções coreanas estão conseguindo produzir tramas com um apelo abrangente, enquanto apresentam uma qualidade técnica digna do reconhecimento mundial, pela indústria. Kingdom se encaixa perfeitamente nestes critérios, construindo um eficiente mundo de zumbis em meio à uma fotografia deslumbrante capaz de manter qualquer espectador mesmerizado.

A trama de Kingdom acompanha Lee Chang (Ji-Hoon Ju), um jovem príncipe na Coreia do século 15. FIlho bastardo de um rei à beira da morte por conta de uma doença misteriosa, Chang precisa lidar com as maquinações dos nobres e da rainha inescrupulosa, que almejam tirar-lhe o direito ao trono, e conspiram para acusá-lo de traição. Com o evidente alto orçamento da série, só esta premissa já seria suficiente para atrair os fãs de histórias épicas e dramas de realeza, mas a nova produção da Netflix ainda expande o seu alcance, incluindo um dos elementos mais atraentes da nossa geração: Zumbis.


Quem costuma conferir toda e qualquer produção de zumbis que chega à televisão, provavelmente terá um sentimento de frescor com a nova série. Os mortos-vivos são utilizados como um evento catalisador para agravar a crise política do reino, e embora sua estética não seja das mais mirabolantes ou excitantes, o conceito está longe de ser apenas um aspecto gratuito da trama. Começando pela dinâmica onde os zumbis só aparecem de noite, deixando o dia para os desenvolvimentos desta guerra em ascensão, e proporcionando um clima de tensão mais manejável onde o alívio por se sobreviver à noite é notavelmente gratificante, tanto para os personagens, quanto para o espectador.

Com seis episódios, Kingdom foi claramente produzida para ser consumida em maratona, e cumpre muito bem esta função. Como se fosse um filme de quase seis horas, a série desenvolve seus arcos principais com um ritmo engajante, deixando pouco espaço para sub-tramas irrelevantes ou interações redundantes entre os personagens. Os objetivos estão sempre em evidência, e os obstáculos da trama não ficam sendo adiados para corresponder às necessidades do formato episódico (O primeiro episódio pode parecer um tanto lento para o espectador que estiver apenas esperando os zumbis aparecerem, mas a paciência logo será recompensada).

A violência e os choques visuais típicos do gênero podem não ser dos mais empolgantes. Aqueles que esperam ver grandes sequências de carnificina não vão ficar, necessariamente, desapontados, mas podem considerá-las um tanto genéricas. Dentro da trama, no entanto, o que importa é o medo dos personagens e a sensação de insegurança que vai crescendo cada vez mais. Mesmo sem o impacto visual de outras produções de terror mais focadas neste aspecto, A série é capaz de manter o espectador ansioso, construindo muito bem a tensão necessária para manter os zumbis, relevantes.

Kingdom mantém o modelo do “grupo de personagens” que precisa sobreviver junto à infestação. Além do príncipe, também acompanhamos o seu fiel escudeiro, além de um misterioso plebeu dotado de habilidades exemplares, e uma enfermeira que possui o conhecimento para produzir a cura necessária (esta última, interpretada por Donna bae, de Sense8). O trabalho do elenco como um todo não chega a ser tão memorável, mas fica acima da média, quando comparado com várias outras produções internacionais da Netflix (americanas também, nem preciso dizer).

No entanto, a dinâmica de grupo traz uma sensação mais estimulante nesta abordagem. Ao invés de termos um grupo de pessoas “comuns”, acompanhamos personagens de época, cujas funções são menos recorrentes em séries do gênero. Toda esta ambientação épica é o que torna a série tão relevante dentro do cenário televisivo atual, e o estabelecimento deste universo durante a primeira temporada (contextualizando o espaço e a história do reino, as dinâmicas entre os oponentes e aliados do príncipe, e preparando o terreno para escalas ainda maiores de conflito) traz potencial para que esta possa ser uma produção digna de angariar uma base de fãs aficionados.

Visualmente, Kingdom é simplesmente deslumbrante. Longos planos abertos exibem o orçamento da série, com ricas composições de cena e figurinos que não deixam a desejar. Séries e filmes de época sempre precisam de uma atenção (e dinheiro) especial em suas caracterizações e locações. Por aqui, esta atenção é enaltecida, com vários planos gerais que sobrevoam as diferentes cidades e campos deste reino (provavelmente, com ajuda de computação gráfica), e um bom uso orgânico de cenários recorrentes. Mesmo em cenas noturnas, a fotografia preza os contrastes e os focos de iluminação (geralmente produzidos por chamas), não deixando que nenhuma sequência caia no perigo de se tornar indiscernível.

Não demora muito para perceber como a série está muito mais interessada em construir suas críticas sociais, do que na ação em si. Na hora em que a infestação começa a crescer descontroladamente, os nobres são os primeiros a tentarem se safar, deixando os plebeus para trás. Na corte, então, as maquinações da rainha e de seu pai conselheiro também trazem algumas representações sobre política e corrupção em tempos de crise, onde muitos espectadores acabarão traçando alguns paralelos interessantes com o mundo atual.

Talvez minha única grande ressalva com Kingdom seja o fato da série encerrar sua primeira temporada sem qualquer conclusão satisfatória para os seus arcos. Uma segunda temporada já está garantida (que deve entrar em produção ainda neste primeiro semestre de 2019), e o último episódio se encerra com um gancho perfeitamente satisfatório para deixar os espectadores ansiosos pela continuação da trama. O aumento de escala que citei anteriormente também me deixa animado pelo futuro da série.

Me deixa um tanto apreensivo, porém, que o alto orçamento da série possa exigir uma audiência quase inalcançável para esta se manter produtiva (Marco Polo que o diga). Mas, por enquanto, Kingdom se mostra mais uma ótima surpresa dentro do catálogo internacional da Netflix, e aos espectadores que gostarem da série (e estiverem entediados com as produções americanas). recomendo que procurem explorar mais as produções da Coreia, uma vez que suas narrativas soam mais adequadas às expectativas do público ocidental do que, por exemplo, produções chinesas e japonesas. É bem possível que se surpreendam, e se divirtam, ainda mais.