O universo de Star Trek continua a sua ressurgência com esta segunda temporada de Star Trek: DIscovery, que já começa suas tramas pós-guerra Klingon sem medo de interferir com as histórias originais da franquia, e coloca Spock como o centro das atenções.

Na primeira temporada de Star Trek: Discovery, a base de fãs da franquia se dividiu. Haviam aqueles que enxergavam a nova série como uma atualização válida dos princípios do criador Gene Roddenberry, com um potencial excitante para a exploração deste universo e de sua mitologia. Outros consideraram a produção destoante demais dos modelos mais estabelecidos de como as séries de Star Trek costumam ser apresentadas e desenvolvidas, principalmente no que diz respeito ao foco da jornada da USS Discovery na guerra que passou a assolar o espaço.

Eis que, então, a guerra acabou, e a Discovery se vê diante de um mistério intrigante, digno do que ambos os lados da base de fãs esperam ver de uma série moderna da franquia. Burnham (Sonequa Martin-Green) continua sendo uma protagonista cativante. Seus impulsos e sua disciplina continuam entrando em choque de formas divertidas de se acompanhar, e com boa parte das tramas da primeira temporada encerradas (até o seu interesse amoroso já não está mais no quadro), a atenção se volta para a relação entre Burnham e seu meio-irmão vulcano: Spock.


Com a icônica USS Enterprise dando as caras neste primeiro episódio, tanto os espectadores, quanto os próprios personagens, ficaram apreensivos com a ideia de ver Spock andando por estes corredores da nova série. Se o personagem será bem (ou fielmente) retratado, é uma pergunta que só poderá ser respondida nos episódios que ainda estão por vir. Mas sua relevância dentro da temporada já pode ser considerada inquestionável, com o Burnham determinada a descobrir quais questões estão atormentando seu meio-irmão (que com certeza estão relacionadas aos misteriosos pontos que surgiram pela galáxia, e com a estranha visão que a protagonista teve no clímax do episódio).

É curioso notar, neste primeiro episódio da nova temporada, como Star Trek Discovery está navegando entre as convenções e moldes da franquia para tentar construir tramas que sejam relevantes tanto para fãs antigos, quanto para um novo público casual. A velha norma de se ter um capitão estabelecido na cadeira de comando foi jogada para o alto depois que Lorca saiu da série, e embora Saru (Doug Jones) esteja “dividindo” o posto com o capitão PIke (Anson Mount) (outro personagem bem conhecido na franquia), é difícil pensar que esta situação seja permanente.

Muitos ainda se perguntam se Burnham irá, eventualmente, assumir o posto de capitã, mas considerando as trajetórias da personagem até agora, não sei se este seria o melhor caminho para a série. Ainda temos muito o que aproveitar com Burnham seguindo seu caminho desgarrado, encontrando novos elementos e personagens que nem sempre poderiam gerar interações tão imprevisíveis caso a personagem se tornasse capitã. Os trailers mais recentes mostram que podemos esperar pelo retorno da capitã Georgiou (MIchelle Yeoh), além de, é claro, a introdução de um novo ator interpretando Spock (Ethan Peck). Mas, ao menos por enquanto, o foco da narrativa continua majoritariamente sobre Burnham, e suas indagações pessoais.

E falando em novos personagens, TIg Notaro faz sua estreia no universo de Star Trek neste primeiro episódio, interpretando a engenheira-chefe Jet Reno. A personagem pode ser uma boa adição para a tripulação da DIscovery, com sua personalidade inquieta e seu intelecto claramente produtivo, preparando o terreno para novas tramas científicas (que se forem tão intrigantes quanto a ideia da rede de micélios, ficarei satisfeito em acompanhar).

A estreia da segunda temporada também serviu para me lembrar do quanto eu me sinto envolvido pela trilha sonora desta série. As passagens e temas épicos que complementam sequências de ação e os típicos discursos de personagens, são notavelmente eficientes, e elevam a trama para uma escala mais cinematográfica do que poderia se esperar. Torço apenas, para que tais temas não sejam usados excessivamente.

Assim como na primeira temporada, cada episódio será lançado semanalmente, abrindo espaço para as discussões e teorias dos fãs na internet. A estratégia só funcionará com todo o seu potencial se, é claro, o público estiver disposto a acompanhar Star Trek: Discovery com o mesmo engajamento do passado, o que não parece ser um fator totalmente garantido, ainda. No entanto, a segunda temporada parece ter tomado as decisões corretas para agradar sua ampla base de fãs, e ainda assim soar divertida e descompromissada para quem encontrá-la por acaso no acervo da Netflix. Em meio ao cenário do gênero de ficção-científica na TV, continua sendo uma das melhores e mais competentes produções.