True Detective pode nunca voltar a ser o fenômeno que se tornou durante a primeira temporada, mas esta nova história estrelada por Mahershala Ali demonstra ter o potencial para, pelo menos, fazer jus ao padrão de qualidade da HBO.

A nova temporada da série criada por Nic Pizzolatto claramente procura retomar os aspectos mais eficientes do primeiro ano. O formato narrativo não-linear está de volta e, desta vez, temos três linhas temporais para intercalar ao longo de oito episódios. A trama acompanha o desaparecimento de duas crianças em uma cidade de interior dos EUA, e a investigação do detetive Wayne Hays (Ali), um veterano da guerra do Vietnã com aptidão para rastreamento.

Os dois primeiros episódios introduzem muito bem o protagonista, apresentando a sua versão mais jovem como um personagem intrigante, porém simpático, com um senso moral fácil de ser acompanhado. A versão de dez anos depois já parece mais frustrada, igualmente intrigante, porém não tão acessível ao espectador. Muitos dos mistérios que a série está construindo devem estar espalhados por esta fase intermediária da história. Já a versão mais velha de Hays, com sua perda de memória mais intensa, com certeza deve deixar os espectadores muito mais interessados em tentar descobrir as peças faltantes deste abrangente quebra-cabeça.


É fácil perceber que o formato não-linear é um caminho muito mais envolvente para explorar a escrita de Pizzolatto, em True Detective. O primeiro episódio consegue estabelecer o mistério principal com objetividade, enquanto acompanhamos as diferentes versões do protagonista lidando com o mesmo caso sob perspectivas completamente diferentes. Perto destas intrigas internas muito bem transmitidas por Ali, em uma interpretação condizente com seus melhores trabalhos, o caso policial acaba, até mesmo, ficando de lado.

A perda de memória do personagem é um recurso perfeito para que o roteirista possa omitir informações cruciais para a progressão das linhas temporais anteriores, e embora pareça que será utilizada como uma forma de instigar o espectador, também pode se tornar cansativa ao longo da temporada, caso o roteiro se apoie muito nestas distrações do protagonista.

Se na segunda temporada, True Detective tentou abordar um suspense político mais abrangente, a nova trama parece ter percebido que histórias mais focadas e universalmente compreensíveis provocam uma identificação maior com o espectador. O caso de duas crianças sequestradas é, com certeza, muito mais fácil de se progredir sem tornar a história confusa ou muito complexa, e ainda causa uma reação emocional muito mais pessoal no espectador. A dinâmica entre os policiais parceiros continua sendo um grande foco por aqui, mesmo que a nova dupla não pareça ser tão envolvente em suas discussões quanto Rust e Martin eram com suas reflexões existenciais.

Ali será, evidentemente, o grande destaque da temporada. O passado militar do personagem contribui para um contexto mais frutífero para este terceiro ano, em que os EUA estão passando pelas consequências da guerra do VIetnã. Muitos soldados retornavam para casa afetados pelo serviço militar traumatizante. Havia um sentimento de insegurança e uma luta pela responsabilização do governo americano. Estes aspectos devem proporcionar um ambiente contrastante interessante com linhas temporais mais atuais da temporada, ainda que estes dois primeiros episódios tenham preferido ressaltar mais os contrastes relativos à sensibilidade racial entre as épocas, do que o humor geral do país.

O suspense deve se tornar mais frenético nos próximos episódios, com a pequena cidade gradualmente tornando-se mais insegura, e tensões surgindo paralelamente. O romance de Hays com a personagem de Carmen Ejogo também deve ganhar mais destaque para preencher as lacunas que elucidarão o estado mental atual do protagonista. Ainda assim, com base nestes primeiros episódios, acho difícil que a temporada alcance um ritmo envolvente o suficiente para que conquiste o mesmo engajamento do público que o primeiro ano conquistou.

Em parte, esta falta de engajamento também é uma consequência de não termos Cary Fukunaga atrás das câmeras proporcionando momentos de deslumbre e desconforto em suas sequências mais espalhafatosas da primeira temporada. Talvez as principais diferenças a serem observadas, o novo ano adota uma fotografia mais melancólica do que desconcertante, e o roteiro parece menos interessado em filosofar, e mais focado em (des)construir a perspectiva de seu protagonista.

Serão apenas mais seis episódios, o quê deixa pouco espaço para “gordura” e redundância durante a investigação. Com base neste começo, tanto fãs antigos de True Detective, quanto novos espectadores podem achar a nova fase da produção mais atraente do que muitas outras séries de mistério que preenchem a televisão atual. Se Pizzolatto conseguirá manter este nível de relevância em seu roteiro, só o tempo dirá.