Um dos artistas mais relevantes destes últimos anos, Donald Glover demonstra com esta segunda temporada de Atlanta que ainda possui muito o que dizer, e o mais importante, sabe muito bem como dizer.

A primeira temporada de Atlanta pegou o público (e principalmente, a crítica) de surpresa. Ninguém esperava que o ator mais conhecido por seu papel na finada série Community poderia surgir com uma produção tão distinta e tão pungente para os tempos atuais, ainda que muitos já estivessem cientes da carreira musical de Glover, e de suas características expressivas. E com a primeira leva de episódios sendo reconhecida como uma das melhores séries de seu ano, a expectativa para uma eventual segunda temporada era grande, e muitos se questionavam se Glover possuía material o suficiente para manter seus discursos, relevantes.

As dúvidas acabaram, e a segunda temporada de Atlanta não só reproduz a pertinência da primeira, como eleva seu impacto e evolui suas execuções, produzindo episódios que, por si só, já podem ser considerados memoráveis em meio ao cenário de absurdos construído pela série. Atlanta é uma ótima representação da expressão “é engraçado por que é verdade”, que os americanos costumam dizer em shows de comédia.


A série apresenta absurdos e incoerências que pegam qualquer espectador de surpresa, mas gera sua comédia desconcertante tratando estes desenvolvimentos como corriqueiros ou mundanos, mantendo uma suspensão de realidade que poucas obras conseguem equilibrar tão bem, sem perder a palpabilidade, ou sem acabar dispersando suas propostas em meio à subjetividade artística que tanto incomoda vários espectadores mais descompromissados. O roteiro de Atlanta sabe como dialogar com seu público de forma objetiva, e ainda assim, deixar espaços produtivos para que diversas interpretações possam ser discutidas ao longo dos episódios. Tal abragência, aliada à um conteúdo rico, é definitivamente digna de nota.

Eis que precisamos reconhecer, também, o contexto político em que a série está inserida. Nos EUA, as diferentes perspectivas e referências da chamada “cultura negra” tem ganhado cada vez mais espaço na mídia, e enquanto muitos consideram esta expansão exacerbada, Atlanta comprova que há muito o que se explorar, e se refletir sobre, em produções que trazem visões disruptivas do que costuma-se ver na televisão. Para compreender melhor esta visão, o espectador não precisa ir muito além do impactante videoclipe de Glover (sob seu pseudônimo “Childish Gambino”), “This is America”, que serve como um ótimo complemento para muitas das reflexões propostas em Atlanta.

Há um experimentalismo revigorante nesta série, que já podia ser percebido durante a primeira temporada, mas que recebe ainda mais atenção neste segundo ano, principalmente no que diz respeito às típicas estruturas narrativas que regem a televisão americana. Os episódios, embora sigam uma singela trajetória definida, poderiam ser consumidos aleatoriamente, e seu conteúdo permaneceria pouco alterado. Alinhados da forma que estão, no entanto, compõem quase que um estudo sobre o cenário criado pela série, desta vez enriquecido por circunstâncias mais atenuantes. “It´s robbin season”.

Estas liberdades com a estrutura narrativa permitem que a série produza episódios contidos que aproveitam o contexto já estabelecido pela produção como um todo, e exploram tramas individuais que poderiam ser desenvolvidas como longa-metragens próprios em uma outra ocasião.

A diferença, no entanto, é que por conta de estarmos lidando com uma série, estas tramas não precisam introduzir seus personagens e circunstâncias de acordo com os padrões narrativos, e se vêem livres para retratar ideias independentes e formatos variados como bem entendem. Várias séries costumam aproveitar esta proposta por um ou dois episódios, e estes costumam ser encarados como os típicos “fillers” de temporadas alongadas. Em Atlanta, no entanto, estes episódios podem ser considerados pratos principais, como é o caso do desconcertante “Teddy Perkins”.

Fãs do suspense “Corra!” de Jordan Peele com certeza irão sentir uma certa familiaridade com a abordagem deste episódio (além de termos Lakeith Stanfield em ambas as obras). “Teddy Perkins” cria uma dinâmica própria que aproveita os contextos da série, mas que diverge do tom comum de outros episódios, e justifica tal divergência adotando a perspectiva de seu protagonista (muito mais descontraído que o personagem de Glover). É um ótimo exemplo do equilíbrio narrativo que citei anteriormente, com a trama mantendo-se objetiva em meio aos aspectos surrealistas, sem deixar-se cair na “farsa” ou no ridículo.

Os méritos do episódio, no entanto, vão além de seus conceitos intrigantes, com o próprio Donald Glover assumindo o papel do assustador Teddy Perkins (debaixo de uma pesada maquiagem), e mantendo diálogos inquietantes com Lakeith Stanfield, que nem mesmo sabia desta real identidade do ator com quem contracenava. O resultado é um suspense orgânico e cativante, que chama atenção para discussões engajantes sobre os questionamentos de identidade e compreensão social que a série tanto aborda, como um todo. Cada episódio desta série poderia gerar um texto por si só, mas “Teddy Perkins” é um perfeito exemplo de como Atlanta está completamente disposta a alterar suas linguagens visuais e narrativas de acordo com suas propostas distintas ao longo da temporada.

E em meio ao surrealismo sutil (onde ainda caberia uma discussão interessante sobre como Atlanta se aproxima de obras de realismo mágico, mas com algumas características e abordagens bem peculiares) ainda temos um trabalho espantoso de um elenco que só vem ganhando cada vez mais prestígio, fora da série. A dinâmica entre os personagens é envolvente por conta de sua naturalidade, mas onde cada interação e ação possui uma intenção e um efeito edificante para suas construções. Glover pode ganhar destaque por ser o protagonista, mas Zazie Beetz, Brian Tyree Henry e Lakeith Stanfield merecem todo o reconhecimento que ainda vão receber, em premiações futuras (pode anotar).

Atlanta é, com certeza, uma das séries mais bem escritas da televisão atual. A direção de cada episódio, também, é muito mais inspirada e substancial que a grande maioria das produções que costumam chamar a atenção do público, e seu elenco só engrandece todos estes méritos. Atlanta é uma série com voz, e embora essa voz não fale muito alto, ela se assegura de que cada palavra seja compreendida e retida pelo espectador. Uma terceira temporada já está encomendada, e considerando tudo que ouvimos até agora, durante os dois primeiros anos, tudo que eu sei, é que quero escutar qualquer coisa que a série ainda tenha a dizer.