Uma produção nacional de encher os olhos, Coisa Mais Linda tem seus altos e baixos enquanto procura preencher um espaço produtivo na ficção brasileira, mas com roupagem de série americana.

Não é segredo nenhum que Coisa Mais Linda é uma série da Netflix pensada para ser consumida fora do Brasil. A produção busca evidenciar os aspectos mais reconhecíveis da nossa cultura lá fora, colocando a ascensão da bossa nova como pano de fundo para estas histórias sobre mulheres cativantes que querem, acima de tudo, viver. Mas embora eu não seja (nem longe, com a minha idade) a melhor referência para discutir a fidelidade da época retratada pela série, também não posso deixar de notar que muito deste retrato soa como uma perspectiva exterior que edita e maquia uma parte considerável deste universo. A própria entrada da série, com “Garota de Ipanema” cantada em inglês, é uma perfeita ilustração deste ponto.

É justo dizer que Coisa Mais Linda não se apresenta como uma série que procura discutir o surgimento da bossa nova em si, ou enaltecer os aspectos culturais que permeiam o cenário da série como um prato principal. Ao invés disso, a série deixa claro, desde o início, que seu interesse está nas personagens características desta época, e nas forças ou fraquezas destas personagens em suas trajetórias para se provarem independentes.


Por mais que a abordagem já tenha sido vista diversas vezes em outras produções internacionais (algumas com mais complexidade do que outras), é preciso reconhecer que Coisa Mais Linda não trabalha suas personagens com gratuidade, ou apoia-se de forma exagerada na transgressão de suas personalidades por si só. Ao invés disso, a série proporciona um espaço perfeitamente palatável para o espectador, com as atrizes entregando interpretações onde o charme se mostra tão envolvente quanto a desilusão de suas personagens.

Maria Luiza (com z) (Maria Casadevall) é a personagem central por aqui, guiando a história com sua impetuosidade e gerando os rebuliços que agitam este universo. Recentemente divorciada (abandonada por seu marido, na verdade), Malu decide seguir seus impulsos e abrir um clube de bossa nova no Rio de Janeiro, ao lado de sua nova amiga, Adélia (Patricia Dejesus). A atitude chama a atenção de Thereza (Mel Lisboa) e Lígia (fernanda Vasconcellos), mulheres igualmente insatisfeitas com a necessidade de precisarem se conformar com o que a sociedade espera delas, em 1959. Todas tem seus próprios núcleos narrativos, com nenhum deles deixando de ser relevante para os principais tópicos discutidos pela série.

Assistir este primeira temporada de Coisa Mais LInda é uma experiência um tanto irregular. O primeiro episódio tem uma execução consideravelmente diferente dos próximos, com o roteiro impondo certas falas e interações que transbordam artificialidade, e uma estrutura muito mais adequada aos padrões americanos. A plasticidade de alguns diálogos é um problema comum em produções nacionais abrangentes, fortemente influenciadas pela língua inglesa, que dificultam o trabalho da direção de tornar as cenas mais envolventes para o público. Para os espectadores internacionais, este é um problema que dificilmente será notado. Para o espectador brasileiro, no entanto, cria um distanciamento prejudicial para qualquer proposta.

Seguindo com a maratona, fiquei feliz ao perceber que essa “plasticidade” foi se esvaindo conforme a série parece encontrar uma maneira mais orgânica (e particular) de progredir suas tramas. Mesmo que ainda sejam perfeitamente condizentes com a proposta de exportação, os episódios da segunda metade da temporada capitalizam muito bem em cima da construção destas personagens, e reviram boa parte de suas trajetórias com desenvolvimentos mais excitantes e, principalmente, atitudes mais interessantes de se acompanhar.

A curta temporada é um tanto prejudicada por sua duração. Justamente quando as histórias atingem seus momentos mais envolventes, o último episódio chega de forma apressada, alterando várias circunstâncias e solucionando problemas (como a aceitação do pai de Malu) com pouco aprofundamento. Coisa Mais Linda poderia, sim, ter os típicos dez episódios de uma temporada da Netflix, e creio que as histórias só se beneficiaram desse aumento.

De primeira, Coisa Mais Linda pode soar um tanto “direta” demais (tal qual o texto que a personagem de Thaila Ayala escreve para a revista), e pouco preocupada com a complexidade de seu contexto. Por mais acessíveis que possam ser essas histórias, fiquei com a sensação de estar assistindo à uma abordagem um tanto “enfeitada” em certos momentos.

Essa sensação, porém, foi completamente evaporada pelo final da temporada, que pode soar um tanto artificial para alguns espectadores, como se a cena fosse escrita apenas para gerar o impacto necessário de um gancho narrativo. Para mim, no entanto, a conclusão revigora boa parte do que a série se propôs a fazer, até aqui. Se antes eu estava questionando o quanto estas personagens pareciam estar transgredindo o que soava como um ambiente controlado, com o final, me vi impactado pelo quanto estes avanços e resoluções foram tragicamente invalidados, negados, por um mero impulso. Uma reação ignorante e violenta, que em uma única cena, colocou toda a trajetória sobre uma nova luz.

Coisa Mais Linda é uma série brasileira feita “para gringo ver”, e isso acaba sendo muito prejudicial para sua relevância como um retrato nacional. O público brasileiro não vai perceber, mas os americanos dificilmente deixarão de notar as semelhanças entre esta série e a premiada produção da Amazon, “The Marvelous Ms. Maisel”. As semelhanças são tão gritantes, que chegam a ser incômodas em certos momentos da série, com a comédia stand-up sendo trocada pelo clube de bossa nova, e deixando intacta boa parte da construção de Midge em Maria Luiza (com direito as apresentações impulsivas em cima do palco).

No entanto, a produção nacional não pende para execuções mais cômicas e excêntricas, como é o caso em “Ms Maisel”. A maior diferença (e a mais elogiável, também), deve ser o foco que a série brasileira coloca no papel de Maria Luiza como mãe, além de mulher, o que só engrandece a personagem em meio às circunstâncias ainda mais difíceis.

Coisa Mais Linda tem uma fotografia competente, com alguns momentos de destaque em seus enquadramentos de uma atmosfera precisamente construída para atrair os olhos de um público mais acostumado com produções internacionais. Suas tramas e personagens, com certeza devem agradar uma parte considerável do público, e garantir uma repercussão válida para a série. Torço para que tal repercussão seja o suficiente para que possamos ver uma segunda temporada ainda mais ousada, que faça jus ao final deste primeiro ano, e que desafie o seu retrato da época com ainda mais relevância.