Tim Miller e David Fincher trazem uma “caixa de areia” revigorante para fãs de ficção científica e terror em Love, Death and Robots, proporcionando espaços excitantes para histórias variadas, deslumbrantemente retratadas por estilos diferentes de animação.

Love, Death and Robots é a mais nova série antológica que chega à Netflix, procurando conquistar a admiração de um público que recebeu de braços abertos a proposta da, hoje venerada, Black Mirror. Miller é mais conhecido por ser o diretor de Deadpool, um filme marcado por sua inventividade e por seu trabalho visual memorável (que fez uma produção consideravelmente barata parecer um grande blockbuster). Fincher, por sua vez, já é considerado um dos diretores mais respeitados de Hollywood, mas geralmente pouco reconhecido (pelo público) por sua utilização muito bem orquestrada de elementos digitais que complementam cenas corriqueiras em seus filmes.

O projeto de ambos os diretores não só proporciona a oportunidade de conferirmos certas histórias muito melhor aproveitadas em um formato mais limitado, como também oferece um vislumbre do que a cinema e a televisão ainda poderão apresentar em um futuro próximo, no que diz respeito à animação como um meio de se contar histórias mais maduras do que o gênero está acostumado a trabalhar.


E embora a crítica mais tradicional poderia encarar a nova produção como um capricho direcionado a um público mais nichado, não é preciso refletir muito para apontar uma parcela considerável de espectadores que se sentirão impactados por Love, Death and Robots. Fãs de videogames, animações, ficção científica, fantasia e terror, essa hora é de vocês. Considerando a falta de unidade que a série traz como um todo (que provavelmente será o principal motivo de sua depreciação em algumas análises), acho mais produtivo dedicar algumas palavras para cada episódio por si só.

A Vantagem de Sonnie: Não é difícil imaginar por quê este episódio foi selecionado para abrir a temporada. A ideia é chamativa, construindo uma versão mais bruta da típica dinâmica de batalhas de monstros comandados remotamente por humanos, e proporcionando um ótimo exemplo do que a animação envolvida na série como um todo, é capaz de apresentar. A estrutura do curta também é perfeita para torná-lo memorável, sem a necessidade de grandes desenvolvimentos, mas sucintamente construíndo um universo envolvente.

Os Três Robôs: A primeira colaboração com o escritor John Scalzi (um autor de ficção científica essencial para qualquer fã moderno), o segundo episódio já traz um tom mais descontraído, com três robôs visualmente distintos que contemplam o fim da humanidade sem grandes cerimônias. É um curta que se vende na ideia de poder analisar nossa sociedade vista por um futuro imparcial, e embora não chegue a tirar grandes conclusões dessa análise (ao menos, nada que já não tenha sido trabalhado antes), proporciona uma boa demonstração da versatilidade temática e tonal que Love, Death and Robots procura ostentar.

A Testemunha: O primeiro dos episódios que trazem uma abordagem mais subjetiva para o espectador, A Testemunha acompanha uma perseguição de ritmo frenético com estilizações visuais mais referenciais do que em outros episódios. Os movimentos de câmera e a montagem do episódio trazem semelhanças com produções asiáticas de ação, enquanto ilustram uma trama mais aberta a interpretação que procura se sustentar no choque de sua reviravolta. A atmosfera e ritmo do episódio são os destaques, mas a narrativa não vai muito além do “truque” intencionado.

Proteção contra Alienígenas: Contrastando o último episódio, o design deste curta já traz uma abordagem mais palatável (tal qual Os Três Robôs), e uma trama empolgante que reimagina o velho clichê dos fazendeiros que estão sempre tentando proteger suas terras de invasores e animais selvagens. Saem os tratores, entram robôs gigantes que servem para defender estas fazendas de invasores alienígenas recorrentes. O roteiro consegue estabelecer muito bem seus principais personagens com pouco tempo de preparação, e proporciona momentos de clímax que costumam permear filmes e séries semelhantes sem ficar devendo nada a estas comparações. Os momentos finais do episódio são apenas mais um exemplo do quão estimulantes podem ser estes curtas, atiçando a imaginação do espectador ao construir universos interessantes com poucas palavras.

Sugador de Almas: Um episódio que se distancia da ficção científica comum à série, Sugador de Almas é uma execução empolgante de uma trama que, mais uma vez, resolve explorar a mitologia por trás da figura do Drácula. Irrestrito com suas representações de violência e “gore”, o curta deve agradar vários fãs mais atraídos pelo gênero de terror, enquanto constrói uma dinâmica envolvente entre seus personagens principais. O uso de animação 2D também parece melhor encaixado por aqui, sendo mais condizente com a falta de realismo da trama.

Quando o Iogurte Assumiu o Controle: O mais curto de todos os episódios, o curta é apenas a ilustração de um conceito cômico que serve para aliviar a tensão da série (mais uma vez, trazendo uma diversidade tonal para uma possível maratona). O design é claramente mais descontraído, e a trama brinca com a ideia de uma inteligência superior lidando com a humanidade em toda a sua ganância e falta de visão. Para tornar tudo mais engraçado, a inteligência superior é o Iogurte.

Para Além da Fenda de Áquila: Novamente pendendo para uma proposta menos objetiva, este episódio deve se destacar para vários espectadores por sua ambição temática, mas o que realmente me fez ficar deslumbrado foi o trabalho visual desta animação, tanto no que diz respeito ao realismo almejado pelo design dos personagens, quanto pela iluminação que os cerca. Normalmente, iluminação é um dos fatores mais importantes (se não o mais importante) quando se discute o realismo de imagens virtuais. Considerando a movimentação sublime destes personagens em ambientes fantásticos, é mesmerizante observar o quanto esta tecnologia já consegue alcançar tal patamar em certos enquadramentos mais fechados, durante o episódio.

Boa Caçada: Definitivamente um dos meus episódios favoritos, Boa Caçada mescla animação 2D para seus personagens com ambientes e detalhes 3D, com ótima integração. A trama ainda se dispõe a construir uma ponte entre um conceito de fantasia com a ficção científica que permeia Love, Death and Robots. E de quebra, temos um universo construído em cima do bom e velho “steampunk”, um sub-gênero empolgante que ainda precisa de mais grandes exemplos no cinema e na televisão. A construção dos personagens, por mais simplista que possa ser, é eficiente e memorável, conseguindo traçar desenvolvimentos marcantes enquanto evolui o mundo ao seu redor com entusiasmo e abrangência, trabalhando conceitos de objetificação e progresso. Um ponto alto da temporada.

O Lixão: Menos ambicioso, este episódio trata sua trama com uma interessante suspensão de descrença progressiva que diferencia o curta dos demais. Seu design também não busca o foto-realismo, preferindo focar em uma abordagem mais descontraída e cartunesca. Mais uma vez, a estrutura narrativa do curta é um dos seus pontos mais fortes, proporcionando uma história que pode ser menos estimulante (no que diz respeito às construções de universos), mas ainda assim, marcante, justamente por sua intimidade.

Metamorfos: Mais um episódio que se baseia completamente em uma proposta chamativa: Lobisomens militarizados. Considerando as várias histórias sobre militares que surgem na mídia americana, o episódio tem momentos empolgantes de sobra e a direção de suas cenas de ação é envolvente, mas sinto que faltou o tempo necessário para nos aprofundarmos nos dilemas do protagonista que passa a questionar seu papel como soldado, e principalmente, na interpretação de sua peculiar perspectiva sobre o mundo ao seu redor.

Ajudinha: 127 horas… no espaço. É difícil não comparar esta trama com o filme estrelado por James Franco. Bem mais contido do que vários dos outros episódios, a narrativa tem seus momentos de tensão, mas nada tão memorável quando comparado com os anteriores. VIsualmente, o realismo volta a ser um foco muito bem retratado por aqui, aproveitando esta atmosfera mais intimista para destacar as emoções da protagonista.

Noite de Pescaria: Mais um episódio da leva de tramas subjetivas. Noite de Pescaria também faz um bom uso da mescla entre elementos 2D e 3D, por conta do surrealismo de seus tópicos. Paralelos poderiam ser traçados entre esta trama e a lenda de Ícaro, que em sua tentativa de deixar Creta voando com as asas de cera criadas por seu pai, acaba se aproximando fatalmente do sol. Insolência e arrogância são temas que sempre podem gerar uma aproximação produtiva com o espectador, mas por aqui, não vão muito além de uma abordagem superficial.Pelo menos, os momentos finais são visualmente chamativos.

13, Número da Sorte: Uma trama simples, direta e focada na relação entre uma jovem piloto e sua nave, antes marcada por má sorte. Os visuais do episódio são empolgantes, com cenas de ação bem coordenadas e uma atuação destacável da protagonista, que fica responsável por transpor toda a emoção pretendida pelo roteiro. Uma boa mistura entre as grandes proporções de um universo estimulante, e o drama pessoal que dita o episódio, ainda que sua proposta não soe tão chamativa quanto várias das outras.

Zima Blue: Talvez o episódio mais “intelectual” de toda a temporada, a trama lida diretamente com a perspectiva de um artista sobre o universo ao seu redor, contada por uma visão exterior de admiração. Os resultados são mistos. Embora tenha conceitos interessantes, sua grande reviravolta tem pouco impacto justamente por conta da distância que o episódio adota durante a sua maior parte, impedindo que o espectador possa acompanhar a reflexão por trás da evolução que a trama busca ilustrar.

Ponto Cego: E mais uma vez contrastando diretamente o episódio anterior, Ponto Cego não se importa tanto com a filosofia de sua trama quanto se importa com a diversão e o entusiasmo de sua situação. A ação do episódio é o grande foco, proporcionando uma narrativa envolvente que embora não gere os mesmos ápices climáticos do quarto episódio, nunca deixa de ser excitante de acompanhar por conta da sua utilização eficiente de arquétipos.

Era do Gelo: O episódio pode soar simplista em sua execução, mas traz uma observação interessante sobre a nossa percepção como sociedade, nossa interpretação, e um exercício chamativo de escalas e proporções. O único episódio com atores, Topher Grace e Mary Elizabeth Winstead já deveriam atrair o espectador por si só, mas a trama chamativa deve dar conta do recado. Afinal, quem não gostaria de observar a evolução de uma sociedade em sua geladeira?

HIstórias Alternativas: Assim como o episódio do iogurte, temos um momento de descontração no meio da temporada, onde o humor ganha destaque acima de qualquer intelectualidade. O episódio adota o formato de uma espécie de demonstração comercial, retratando uma tecnologia que qualquer um gostaria de experimentar, onde poderíamos observar as repercussões da história em diferentes circunstâncias. Justamente por conta da infinidade de possibilidades, o episódio decide abraçar o absurdo, e diverte sem provocar.

A Guerra Secreta: Embora vários episódios possam remeter à jogos de videogame, tanto pela animação, quanto pelas tramas e execuções, A Guerra Secreta é o que mais proporciona esta comparação. O enredo não tem tanto aprofundamento em seus personagens, preferindo destacar as dinâmicas sobrenaturais de seu universo e evidenciar as mirabolantes cenas de ação. Mais um ótimo retrato do que a tecnologia já é capaz de proporcionar. Jogadores da série “Metro”, no entanto, não devem se sentir muito impressionados com a proposta.

Love, Death and Robots não só merece ser assistida por todos que estiverem buscando novas histórias de gênero, como também representa uma excelente oportunidade para novas abordagens que nem sempre possuem todos os requisitos para serem encaminhadas ao cinema ou a televisão, mas que, ainda assim, possuem algum valor apreciável. Que venha mais uma temporada, e que mais projetos como este possam ver a luz do dia nas mãos de autores criativos.