Raio Negro pode não ser a série mais chamativa do Arrowverse de Greg Berlanti, mas não deveria ser esquecida em meio ao acervo da CW, aproveitando os melhores aspectos de suas séries-irmãs enquanto constrói uma expressão própria digna de nota.

Esta segunda temporada de Raio Negro soube avançar boa parte de seus núcleos dramáticos, já plenamente estabelecidos durante o primeiro ano, demonstrando uma eficiente integração entre as relações pessoais de seus protagonistas, e a trama geral que abrange a temporada. Uma decisão acertada, Raio Negro (Cress WIlliams) divide ainda mais o tempo de tela com suas duas filhas, Anissa (Nafessa Williams) e Jennifer (China Anne McClain) , proporcionando os típicos dilemas de super-heróis que embora não soem nem um pouco originais ou revigorantes, pelo menos são distribuídos em uma dinâmica menos engessante.

O núcleo familiar continua sendo a linha narrativa principal que movimenta a série, mantendo os personagens vulneráveis e identificáveis e proporcionando um espaço mais produtivo para as intenções da produção de construir histórias representativas. Lynn (Christine Adams) pode ser a única personagem desta família sem poderes, mas nunca é esquecida pelo roteiro, liderando as sub-tramas envolvendo as “crianças das câmaras” com, ao menos, relevância para a trama geral. E de quebra, a atriz ainda possui oportunidades destacáveis em alguns breves ápices dramáticos que só engrandecem a construção deste personagens e de suas relações.


Com a primeira temporada deixando claros, os caminhos que seriam seguidos pela série, aproximando Jennifer e Anissa do mundo de vigilantes de seu pai, este segundo ano não se dispôs a apressar estes desenvolvimentos. Todos os dezesseis episódios progrediram, de forma compassada, o auto-descobrimento de Jennifer, enquanto apresentavam novos questionamentos para Alissa e sua visão contrastante dos métodos e ideologias de seu pai. Ambas as linhas possuem altos e baixos no que diz respeito à empolgação, mas nunca deixam de ser consistentes na construção das personagens.

Jennifer passa por diversos momentos comuns à adolescência, incluindo cenas que trazem a tão almejada representatividade e o serviço social que a série busca prestar. A mais marcante, talvez, seja a sequência de sonho em que a jovem vê seu ex-namorado violento invadindo sua casa em um momento de alegria. Toda a sua trajetória com Khalil (Jordan Calloway) é produtiva para as intenções do roteiro, mas também acaba arrastando o ritmo da série na metade da temporada.

Alissa, por sua vez, fica com o cargo de dividir com seu pai, os debates morais que sempre afligem qualquer super-herói em séries como esta. Ao menos, essa divisão torna Raio Negro, uma série mais distinta das outras produções de Berlanti, com a filha tendo uma visão menos constrita do que o pai, e questionando se não deveria usar seus poderes de forma mais eficiente para ajudar sua comunidade (roubando dinheiro da máfia e entregando para a igreja, por exemplo). AInda que estes conflitos ideológicos não tenham gerado nenhuma grande repercussão para a temporada, não deixam de ser uma maneira eficiente de distinguir os personagens e evoluir suas dinâmicas entre si.

A contagem de episódios, embora seja menor do que nas outras séries da CW, continua trazendo os mesmos velhos empecilhos que sempre são apontados pelos fãs. A divisão da temporada em arcos (chamados de “livros” por aqui) ajuda a manter o consumo da série mais dinâmico, mas não é como se estes arcos fossem tão distintos entre si. Em geral, apresentam alguns focos temáticos característicos de cada “livro”, mas, ainda assim, precisam se adequar à estrutura padrão da série e manter cada episódio auto-suficiente, enquanto a trama geral é avançada ao fundo. No entanto, em um ápice da temporada, quando um personagem morre tragicamente, o ritmo volta a acelerar, mantendo uma boa sequência de episódios até a conclusão.

Ainda em relação à primeira temporada, fiquei surpreso de ver certos ganchos narrativos sendo menos explorados do que poderia se imaginar, como a substituição de Jefferson como diretor da escola, e sua relação com Henderson agora que este descobriu a identidade de Raio Negro. Ambas as tramas seriam, costumeiramente, utilizadas para “encher linguiça”, mas a temporada acaba abordando-as apenas corriqueiramente.

Os aspectos políticos e sociais que definiram a série na primeira temporada, no entanto, continuam bem presentes e, até mesmo, melhor integrados como parte do universo da série. Seja com os sermões da igreja, ou com o papel da polícia, não temos a sensação de gratuidade que incomoda uma parte do público casual, com as circunstâncias deste ambiente sempre servindo a construção de escala e urgência da trama geral.

E embora o desenvolvimento dos protagonistas seja digno de nota para uma típica de série de super-heróis da tv aberta americana, o que realmente merece destaque nesta produção, é o foco na evolução do vilão, Tobias Whale (Marvin “Krondon” Jones III). O antagonista entrou nesta temporada sofrendo a morte de sua querida capanga, e lidando com a resistência de Khalil como seu novo braço direito, proporcionando momentos interessantes para seu estabelecimento como um personagem frio e impiedoso.

Com vários capangas passando ao seu redor durante a série (e a, aparentemente inevitável, reciclagem destes capangas) sua ameaça continua crescendo a cada episódio, ao mesmo tempo em que podemos acompanhar os dramas internos do personagem. Gostaria de ver onde os fãs encaixariam Tobias em um “ranking” de vilões do Arrowverse, uma vez que o antagonista poderia ser uma ameaça mais envolvente (além de identificável) do que boa parte dos inimigos de Oliver Queen e Barry Allen. O foco no vilão, por aqui, é plenamente justificável, e mantém Raio Negro divertida de acompanhar.

Esta segunda temporada serviu como uma ponte para as principais tramas, estabelecendo o novo “grupo” de super-heróis com eficiência enquanto constrói as próximas ameaças que devem marcar o terceiro ano. Markovia (um país fictício da DC Comics) pode ser um aspecto interessante de se explorar, justamente por conta do contraste de suas características com o ambiente da série, até então.

Ainda assim, é difícil vender Raio Negro para quem já está cansado de séries de super-heróis. Caso tivesse vindo anos atrás, seria tão digna de destaque quanto foram as primeiras temporadas de Arrow, enquanto hoje em dia, costuma ser lembrada apenas por sua representatividade. Sua maior qualidade, no entanto, está justamente no fato de poder ser consumida de forma independente das outras produções que a cercam, sendo narrativamente recompensadora por si só. Com um pouco mais de entusiasmo e audácia na evolução de seus protagonistas, pode se tornar uma série ainda mais relevante para as “reinvenções” do arrowverse que estão por vir.