Idris Elba está de volta à TV com Se Joga, Charlie, a mais nova produção da Netflix que traz o ator em uma posição confortável, mas ignora diversas convenções narrativas de seriados em favor de uma abordagem mais cinematográfica com resultados mistos.

Elba já deixou de ser apenas mais um ator há um bom tempo. O público geral está cada vez mais familiarizado com seus personagens, e o futuro de sua carreira ainda reserva destaques ainda maiores (com o spin-off de Velozes e Furiosos, “Hobbs e Shaw”, chegando aos cinemas em agosto). No entanto, muitos não sabem que os maiores impactos de Idris Elba vieram muitos anos atrás, justamente na televisão. Se você nunca chegou a conferir a série “The Wire”, da HBO, pare tudo que está fazendo e vá conferir esta que é, com certeza, uma das melhores obras televisivas de todos os tempos, e que traz Idris Elba em um papel realmente difícil de esquecer.

Em seguida, procure a série britânica “Luther”, onde o ator pôde ostentar suas características britânicas naturais como o conturbado investigador que com certeza deve apaziguar os fãs saudosos da série “Sherlock”. Eis que, então, Idris Elba retoma sua carreira televisiva com uma produção completamente diferentes destas que o fizeram ganhar a fama, interpretando um DJ cujos (curtos) dias de glória já ficaram para trás, há muito tempo. Em meio às suas negações, Charlie acaba retomando a relação com seu velho amigo de infância, David (JJ Felid), que agora é casado com uma DJ de sucesso, e tem uma filha difícil de ser controlada pelas várias babás que já foram dispensadas.


Neste contexto, seguimos com uma trama que já foi repetida diversas vezes, tanto no cinema quanto na televisão. A jovem Gabrielle, uma típica personagem infantil mais astuta e desbocada do que se esperaria, constantemente demonstra estar frustrada com a falta de atenção de seus famosos pais, e desconta esta frustração atormentando as babás que deveriam mantê-la controlada. Contraditoriamente, Charlie acaba se tornando a nova babá (ou “manny”, uma mistura de “man” com “nanny”) por conta da sua proximidade inesperada com a criança, e acompanhamos as costumeiras situações cômicas que este par inusitado pode gerar.

Na primeira metade da temporada, há poucas distinções que poderiam ser feitas entre Se Joga, Charlie e as várias outras obras que abordam a mesma ideia da “babá peculiar”. Gabrielle dificulta o trabalho do DJ antiquado, enquanto o casamento de seus pais passa por dificuldades, o que eventualmente faz com que a garota se afeiçoe ainda mais por seu simpático “manny”. Em parte, o ritmo e o envolvimento dos primeiros episódios acaba sendo denegrido pelo drama dos pais, quando o espectador estaria mais interessado em acompanhar as encrencas enfrentadas por Charlie.

O foco dividido, no entanto, tem sua coerência melhor esclarecida quando compreendemos que a temporada de Se Joga, Charlie segue uma estrutura acessível típica de filmes. Seguindo a trajetória do protagonista, temos todos os pontos principais desta estrutura divididos ao longo dos episódios, com as partes cômicas mais chamativas até a metade da temporada, seguidas por uma decaída e culminando em um clímax dramático. E tanto os benefícios quanto as desvantagens desta abordagem cinematográfica podem ser percebidos por aqui.

Talvez a maior desvantagem de se estruturar uma série dessa forma seja sempre a falta de consistência entre os episódios. Diferente do comum, onde cada episódio de uma série precisa apresentar os principais elementos e temas desta, de forma reconhecível para o espectador casual (uma regra vinda da época em que a Netflix ainda era um sonho distante), temos, inicialmente, um foco maior na relação entre Charlie e Gabrielle que acaba sendo ofuscado na segunda metade da temporada, em função das novas empreitadas de Charlie.

O núcleo dramático dos pais, por sua vez, tem seus efeitos e funções mais destacados nesta segunda metade, compondo uma trama que deve ser melhor aproveitada em uma grande maratona (não tão grande assim, com apenas oito episódios de meia hora), do que consumindo episódios separadamente. Sendo assim, o engajamento do espectador é depositado na trajetória de Charlie, e em sua transformação ao longo da série, que embora conte com a atuação cativante de Idris Elba, não soa tão desafiadora ou (consequentemente) recompensadora quanto poderia ser.

Se Joga, Charlie também traz uma ambientação um tanto genérica do glamouroso mundo dos DJs e “raves” que ajuda a manter uma certa descontração na trama, mas também pode entediar o espectador pela sua falta de excentricidade, não tão glamourosa assim, servindo apenas como um pano de fundo casual.

Nas atuações, Idris Elba continua apresentando o charme e a presença que o tornaram um ator tão cobiçado na hollywood atual. No entanto, muitas cenas são roubadas pela performance da jovem Frankie Hervey, que nunca se deixa ofuscar pela imponência do ator, e consegue colocar sua personagem em pé de igualdade durante os diálogos ariscos da primeira metade da temporada. Tanto que, quando a trama parte para a decaída da trajetória, sua falta é sentida na dinâmica dos episódios.

A narrativa clássica empregada na série poderia, sim, compor uma experiência mais memorável para os espectadores que encarassem a temporada como “um grande filme”, mas a conclusão deste primeiro ano de Se Joga, Charlie deve deixar um sentimento de frustração em boa parte de seu público. Com resoluções pouco impactantes, o último episódio coloca seus personagens em caminhos bem definidos que poderiam encerrar a série por aqui, mas não trazem a sensação de uma transformação marcante para seus personagens, ou como estes encaram os dilemas deste primeiro ano.

Evidentemente, a intenção seria manter as portas abertas para uma eventual segunda temporada que retomaria os mesmos obstáculos vistos por aqui. Charlie ainda tem muito o que encarar sobre suas atitudes e prioridades. O mesmo pode ser dito da jovem Gabrielle, que deve enfrentar dificuldades ainda mais trabalhosas no estado em que a temporada se encerra. Se Joga, Charlie é uma série leve, fácil de ser assistida. Sem grandes conflitos emocionais e um humor sutil e controlado, a produção deve agradar seus espectadores sem muitos problemas, ainda que nunca deixe de ser apenas funcional. Resta torcer para que a lotada agenda de Idris Elba permita que estes personagens possam retomar suas narrativas em um possível segundo ano.