Longe de ser tão polêmica quanto sua premissa chamativa poderia sugerir, Areia Movediça é uma obra digna de admiração que acaba de se infiltrar silenciosamente no acervo da Netflix.

O resultado final desta história é tão impactante quanto a qualidade técnica da série, e deveria servir de exemplo para tantas outras produções que buscam construir um suspense envolvente. Areia Movediça tem um roteiro afiado, com personagens complexos que nunca estão isentos de culpa, ou de inocência em meio às circunstâncias, e sua narrativa é ilustrada de forma gratificante por uma direção que preza a atenção do espectador, e semeia detalhes edificantes em suas composições visuais com notável sutileza.

Areia Movediça acompanha a história de Maja, uma jovem sueca acusada de participar de um atentado em sua escola, onde ela e seu namorado entraram em uma sala de aula armados e supostamente assassinaram, juntos, um professor e seus colegas de classe. Maja não tem uma memória completamente clara da situação, enquanto a mídia do país já a condena sem hesitar, e a promotoria consegue, sem muitos esforços, manter Maja presa e isolada durante o processo de julgamento. A série se divide em duas linhas narrativas, uma acompanhando Maja durante o processo, retratando o seu estado atual e seu discernimento da situação, e outra ilustrando a trajetória de Maja (Hanna Ardéhn) e Sebastian (Felix Sandman) desde o começo do namoro, até o trágico evento.


Fica clara, a intenção da série de contrastar o estado da personagem em ambos os períodos, e a atriz Hanna Ardéhn consegue transpor perfeitamente a progressão desta alteração de forma cadenciada, além de captar a atenção do espectador em todos os seus momentos de choque ou confusão. O resto do elenco tem seus momentos, mas é Ardéhn que deveria receber um reconhecimento inestimável por seu trabalho nesta produção.

A série já conseguiu se provar muito mais eficiente do que diversas comparações, logo em sua cena de abertura. Um plano sequência passeia pelo momento do crime, sem nunca revelar a ação, apenas expondo os sangrentos resultados desta violência e construindo a situação catalisadora da trama de forma controlada, ao invés de apelar para o choque imediato e para a representação irresponsável de tamanha tragédia. O melhor exemplo de uma execução errada deste tipo de proposta é, com certeza, 13 Reasons Why, e assistindo Areia Movediça, o espectador pode perceber claramente como uma produção deve tratar seus tópicos sensíveis de forma produtiva, ou invés de torná-los um mero objeto de comoção.

A ideia por aqui, não é necessariamente justificar a trajetória de Maja e Sebastian, ou “sensibilizar” o espectador. Nem tão pouco, a série dedica todos os seus esforços para simplesmente contextualizar a tragédia, como muitos poderiam esperar da produção. Ao invés disso, a série está utilizando este evento perturbador para falar sobre tópicos ainda mais abrangentes e desconcertantes, facilmente reconhecíveis à qualquer ser humano. Areia Movediça é uma série sobre desamparo, e sobre a nossa incapacidade de amparar.

O espectador logo é levado a crer que Sebastian cairá, cada vez mais fundo, em seu poço de superficialidade e em seus gritos por ajuda disfarçados de desprezo. Ao mesmo tempo, acompanhamos uma evolução orgânica da relação entre o jovem perturbado e Maja, que eventualmente se vê na posição aparentemente irrevogável de “cuidadora” de seu namorado.

Seus próprios amigos à encaram como a responsável pelo bem estar psicológico de Sebastian, o que soa completamente absurdo quando apontado objetivamente, mas que também compõe a realidade de diversas relações do mundo atual, onde aqueles que se dispõem a olhar para o abismo de forma altruísta, não percebem que é impossível ajudar outra pessoa sem, antes, ajudar a si próprio. E num mundo divisivo como o nosso atual, esta é uma situação que vai se tornando cada vez mais destrutiva.

Areia Movediça progride sua trama como um suspense perfeitamente competente, aprofundando perspectivas de forma gratificante e permitindo o devido espaço para as reflexões e compreensões do espectador em meio ao mistério principal. Pequenos detalhes espalhados por cenas diversas ajudam a enriquecer a trama para o público, ou simplesmente adicionam uma maior camada de tensão para a cena com notável eficiência.

Cito dois exemplos destes detalhes: A caneca ensanguentada que vemos durante o plano inicial pode ser vista, sem cerimônias, na mão do professor durante o segundo episódio, proporcionando a trágica ligação. Este tipo de composição sutil enriquece a trama sem perder tempo, ou “mastigar” os desenvolvimentos de forma excessiva.

Outro exemplo que me chamou a atenção por sua sutileza, é uma cena em que Maja confronta o traficante que está vendendo drogas pesadas para Sebastian, e sem nenhuma repercussão direta para a cena, um carro de polícia passa atrás dos dois enquanto ela grita sobre drogas no meio da rua. Não é para gerar drama, e sim para o espectador se pegar mais tenso durante a cena, ao notar o carro de polícia. Este tipo de orquestramento é algo que só torna a produção ainda mais memorável, pois mantém o espectador engajado, e com uma observação tão relevante quanto qualquer revelação objetiva que as cenas possam trazer. Torna-se, então, uma experiência muito mais envolvente, e além de mais recompensadora.

Em meio à um roteiro tão bem calculado e uma direção notavelmente competente, a trilha e a fotografia da série cumprem seu papel atmosférico sem excessos, mantendo o tom deprimente da trama, mas com uma consistência que ajuda a manter o espectador no ritmo adequado para a narrativa. É raro ver uma série tão lenta quanto Areia Movediça ser, ao mesmo tempo, tão dinâmica. Dificilmente, o espectador se pegará entediado com algum episódio, e quando finalmente chegamos a grande conclusão, é inevitável esperar pelo resultado do julgamento tão ansiosamente quanto os personagens esperam..

Areia Movediça quer questionar a frieza divisiva da nossa sociedade, com direito à alguns diálogos abordando a polêmica de imigração que assola a Europa. No entanto, mais do que isso, a série quer estudar as consequências dessa frieza, e se perguntar se somos capazes de ajudar o próximo, sem antes empurrar alguém para dentro do abismo, ou achar que o nosso lugar é, inevitavelmente, dentro dele. De quem é a culpa? Tribunal nenhum seria capaz de responder essa pergunta além da porta da cadeia. Deixem essa questão para quem, no momento do desamparo, olha para si mesmo, e consegue se enxergar.