Todos aqueles que reclamam da saturação atual de super-heróis na televisão, precisam olhar para o lado e encontrar as várias produções sobre zumbis que pouco acrescentam ao gênero. Dentro deste cenário, Black Summer, nova série da Netflix, faz pouco além de executar sua proposta de forma genérica e cansativa.

A série foi anunciada como uma história que precede outra produção conhecida dos fãs de zumbis, Z Nation. E embora o raso universo apresentado por esta primeira temporada possa ser perfeitamente assimilado por quem conhece a série-mãe, há poucas ligações palpáveis entre ambas as produções, com Black Summer se passando algumas semanas após o apocalipse que mergulhou o mundo no caos dos Zumbis.

A maior diferença entre as séries é, com certeza, o tom da narrativa. Os produtores claramente se interessaram por tentar uma proposta mais voltada para o drama e para a tensão, ao invés de manterem o tom morbidamente cômico de Z Nation, que por sua vez, sempre foi vendida como uma alternativa descomprometida para séries como The Walking Dead. Esta era, justamente, a distinção de Z Nation, que justificava a existência da série em meio à saturação do gênero. Voltar atrás, e tentar construir este universo de forma semelhante à tantas outras histórias sobre zumbis, precisaria de uma inventividade que, infelizmente, não pode ser vista em parte alguma de Black Summer.


Genérica ao ponto de ser incômoda para qualquer espectador conhecido do gênero, Black Summer traz clichês executados de forma pragmática, e tenta cativar o espectador com uma estrutura menos tradicional em seus episódios. Em parte, a série soa como um laboratório de sequências, testando diferentes tipos de abordagens conhecidas. Um dos episódios se dedica a acompanhar, exclusivamente, as andanças e fugas de um único personagem com seus momentos contemplativos. Outro episódio, procura conter a tensão dentro de um único ambiente. E o piloto da série estabelece diferentes personagens, alternando a perspectiva através de introduções relativamente contidas.

O resultado deste laboratório, no entanto, é bem menos interessante de se acompanhar do que a proposta pode prometer, visto que os roteiristas estão claramente empolgados em simplesmente poder trabalhar com este tom mais sério, mas tem pouco a apresentar dentro dele que já não tenha sido visto muitas vezes antes, em outras obras. Black Summer parece acreditar que está construindo algo revolucionário para o gênero, ao abordar suas narrativas com mais peso dramático, e embora este poderia ser o caso para quem nunca acompanhou nenhuma outra história de zumbis além de Z Nation, a realidade do público é bem diferente.

Uma parte distinguível desta experiência, os títulos que aparecem antes de cada sequência procuram dar um maior peso para estas situações, mas são tão gratuitos quanto simplesmente dar um nome para cada cena de um roteiro comum, ao invés de trazerem capítulos propriamente ditos..

Os personagens de Black Summer, embora tenham um ou outro momento mais engajante, são majoritariamente rasos, introduzidos na trama de forma “seca”, sem grandes exposições de passado ou um maior contexto. A ideia da série é retratar um cenário amplo, repleto de personagens pequenos e grandes, que providenciem um visão abrangente deste caos (uma espécie de representação da sociedade, como um todo). O típico estudo sobre instintos humanos fica em evidência durante boa parte da temporada, mas a falta de aprofundamento em personagens específicos impede que tal empreitada seja, sequer, relevante para o espectador.

Embora tenhamos diversas perspectivas sobre este universo, o protagonismo fica por conta de Rose (Jaime King), cujo desenvolvimento é, de longe, o mais capaz de manter a atenção do público. Entendo que a proposta da série era intercalar perspectivas para proporcionar uma obra mais ampla do que, por exemplo, um filme conseguiria, mas a verdade é que não basta apenas colocar vários personagens em cena para conseguir produzir um universo orgânico e envolvente. Se Rose tivesse tido mais destaque do que teve, seria bem possível que o resultado de Black Summer fosse mais memorável.

Tal qual os personagens, escolhas estilísticas e aplicações de técnicas também soam gratuitas em meio à estrutura desconjuntada da série. Em muitos momentos, percebe-se que a intenção é evoluir a tensão da trama através de câmeras balançantes (para emular uma espécie de naturalidade) e planos-sequências que servem para prolongar a antecipação do espectador. No entanto, o único plano sequência que, talvez, realmente mereça atenção pela sua eficiência, é durante o primeiro episódio, onde acompanhamos a família de Rose, e temos um vislumbre interessante do estado atual deste universo através de uma apresentação bem compassada.

Outra escolha que também achei interessante, um determinado episódio acompanha personagens dentro de uma van enquanto estes passam por um terreno perigoso, onde várias pessoas tentam intercepta-los, com toda a ação sendo vista de dentro para fora do carro, produzindo uma sequência excitante de armadilhas e reações assustadas dos personagens. Uma ou outra brincadeira com a iluminação de certas cenas também impede sequências de caírem na monotonia, mas nada tão marcante quanto poderiam, caso houvesse um trabalho mais elaborado na atmosfera da série.

A fotografia de Black Summer adota o tom depressivo de tons azuis e cinzas que formam um ambiente pouco estimulante, e que novamente, seria difícil de distinguir de diversas outras produções. Junte este ambiente com o ritmo lento de várias cenas, onde vemos pouco além dos personagens andando atentos ou cansados, e o tédio se instala rapidamente.

Uma ação majoritariamente competente consegue quebrar este tédio em vários momentos eficientes, e a proposta “séria” de Black Summer tem seus ápices com este uso calculado das cenas de ação. O último episódio traz a maior sequência de violência da temporada, em um grande ápice com os personagens sobreviventes atirando contra uma horda de zumbis, e caminhando para uma conclusão que embora seja satisfatória (em um sentido narrativo), não chega ser tão recompensadora para o espectador mais interessado por este universo.

Black Summer é uma série que não consegue justificar a sua existência em pleno 2019, deixando de lado qualquer inovação ou circunstância distinguível que poderia tornar a série, digna da atenção do público. Uma produção competente dentro do que se propõe, mas cuja proposta nem mesmo deveria ter sido aprovada, antes de passar por algumas envigorações em seu roteiro, ou pelas mãos de uma direção mais excêntrica. Claramente pensada para ser uma maratona (evitando cliffhangers e alternando a duração de seus episódios), a série parece presa em uma era onde um universo realista com zumbis ainda soava deslumbrante para o público.