Carcereiros retorna para uma segunda temporada que embora seja menos chamativa que a primeira, traz uma narrativa mais consistente, liderada por um ótimo protagonista capaz de manter até as tramas mais dispersas, envolventes.

Mais uma série da Globo que chega à televisão depois de estrear no Globoplay, Carcereiros é livremente baseada em um livro de Drauzio Varella sobre a situação carcerária no Brasil, e teve uma primeira temporada, em geral, competente, mas prejudicada pelo formato de lançamento que atendia as necessidades comerciais da emissora, muito mais do que à narrativa da produção. O resultado, foi uma divisão um tanto incômoda dos episódios, reorganizados fora de ordem, e com capítulos extras sendo encomendados e encaixados na reta final.

Os últimos três episódios da temporada passada servem, na verdade, como o início deste novo ano. A trama geral que abrange esta nova leva é marcada pela relação entre Adriano e Erica, que está presa por ter matado seu marido, depois deste ter tentado matar Adriano por ciúmes. Esta relação não só aprofundou o protagonista aos olhos do espectador, retratando que sua integridade também não está livre de impulsos e equívocos, como também proporciona uma urgência para a série, sempre deixando claro que Erica é uma personagem volátil e delicada, capaz de tornar a vida do protagonista muito mais difícil, em um piscar de olhos.


Mas enquanto esta trama geral segue por trás pelos primeiros dez episódios, temos a típica estrutura procedural, com episódios contidos e tramas específicas que abordam o cotidiano do ambiente carcerário, e situações de risco comuns à este cenário. Atualmente, a comparação mais válida talvez seja Sob Pressão, outra série procedural da Globo que consegue manter o seu ritmo e o envolvimento com seus protagonistas, mesmo em meio à durações diversas e focos arbitrários. Ambas as séries apresentam uma relevância revigorante para o nosso cenário televisivo atual, se atendo à fórmulas de episódios semanais, ao mesmo tempo em que trazem retratos produtivos sobre circunstâncias específicas do nosso país.

Em parte, o maior apelo da primeira temporada, e da premissa de Carcereiros como um todo, era o choque causado pelo risco e pela violência deste delicado ambiente. Para quem assistiu ao primeiro episódio da série, pode haver um certo desencorajamento ao ouvirem que esta segunda temporada se distancia consideravelmente da abordagem mais gráfica e visceral do primeiro ano. As cenas violentas e o clima de tensão ainda estão presentes, mas o foco está muito mais voltado para as peculiaridades do dia a dia da cadeia, o que, quando bem trabalhado, pode ser tão empolgante de se acompanhar quanto qualquer rebelião sanguinária.

A série procura manter-se relacionável e condizente com a realidade até determinado ponto, evitando cair na gratuidade de construir cenas de ação e conflito apenas para tornar a produção mais chamativa. Há poucos elementos realmente originais em Carcereiros, com o tópico já tendo sido trabalhado diversas vezes em produções internacionais, e com os moldes dos episódios sendo nada além de tradicionais, mas quando a série acerta em sua representação de um sistema frágil, marcado pela complexidade de sua interpretação, ela acerta alto.

Entre os episódios mais particulares, temos a prisão de um político corrupto, e sua dinâmica dentro da cadeia, que questiona a aceitação da corrupção diante de determinadas circunstâncias. Também passamos um episódio inteiro acompanhando Érica em uma prisão feminina, e suas tentativas de fuga. Aprofundamos partes específicas do sistema carcerário, como o papel da psicóloga da cadeia, ou da responsável por ler e censurar as cartas dos presos…

Mas o episódio que mais me chamou atenção por aquilo que busca retratar, foi “Mão no Fogo”, onde temos uma discussão mais interessante sobre o estado de um ex-detento que, agora, ministra aulas de Jiu-Jitsu para a filha de Adriano. O drama deste episódio é palpável e de grande relevância para a discussão da série como um todo, questionando as interpretações equivocadas de Adriano, enaltecendo a recuperação deste ex-detento, e construindo a personagem da filha, Lívia (Giovanna Rispoli), com eficiência (Lívia, inclusive, é a personagem que mais cresce pela tangente nesta série, sempre presenciando momentos traumatizantes e precisando confrontar seu pai recorrentemente. É uma pena, no entanto, que a série esteja apenas começando a dar o devido espaço para observarmos o seu crescimento e as suas interpretações deste traumas).

Visualmente, Carcereiros sempre segue por dentro das linhas de sua atmosfera “bruta”, com uma fotografia que já se tornou atrelada à este tipo de história “realista” e mais visceral. Na cadeia, o ambiente é claustrofóbico quando precisa ser tenso, e deprimente quando precisa ser rotineiro. Quando a ação precisa entrar em cena, a execução não traz nenhuma abordagem tão excêntrica, mas ainda estou para ver algum momento que falhou em me deixar tenso ou empolgado.

E mesmo com seus altos e baixos narrativos, sempre atrelados à estrutura e as fórmulas aplicadas pela série, esta segunda temporada de Carcereiros nunca cai no tédio ou deixa ser engajante, por conta de seu protagonista, Adriano, em uma interpretação memorável de Rodrigo Lombardi. O personagem é sempre um guia fácil de se seguir, de se admirar ou simpatizar durante qualquer trama. Lombardi constrói seu protagonista com trejeitos e uma linguagem característicos, onde podemos antecipar suas reações e nos adequar ao seu comportamento com uma proximidade notável, preciosa para o andamento da série. Com todas as suas falhas, Adriano é um personagem capaz de carregar várias temporadas.

O formato semi-documental continua sendo eficiente para tornar Carcereiros mais relevante, dispondo-se a discutir os temas trabalhados por cada episódio de forma mais direta para o público. Os depoimentos estão mais espalhados do que na primeira temporada, o que pode agradar aqueles que consideravam estas quebras, dispersantes, mas continuam trazendo um ar de veracidade que engrandece as tramas da série, por mais rotineiras que possam parecer. Afinal, a série não é sobre o cenário em si, mas sim, sobre a vida destes agentes, plenamente humanos, que trabalham no sistema todos os dias.

Carcereiros pode não ser a grande “supersérie” que arrebataria o público geral, ou conquistaria todo tipo de regalia crítica, mas consegue equilibrar muito bem ambas ambições na devida proporção, e possui uma base bem fundamentada para aprofundar seus personagens ainda mais, discutir com mais audácia os riscos e consequências de um sistema frágil, e expandir o seu alcance e sua relevância dentro da televisão brasileira atual. Com Lombardi liderando, aguardarei uma terceira temporada com boas expectativas.