Após cinco anos desenvolvendo seu próprio estilo e legião de fãs, Gotham chega ao final. E quando pensamos em uma série que dedica-se a contar a origem do Batman, naturalmente esperamos que o desfecho seja justamente com a chegada do Cavaleiro das Trevas. E é o que encontramos de especial nesta temporada final da série, mesmo que seja um caminho inconsistente para chegar lá.

O próprio elenco e equipe definiu desta forma e não é algo longe da realidade: a premissa da quinta temporada quase surge como um reboot da série, dadas as circunstâncias. Somos apresentados a uma nova Gotham City, que reorganizou sua sociedade após os atos terroristas de Jeremiah (Cameron Monaghan) que explodiram as pontes que conectavam a cidade com o resto do mundo – pegando inspiração direta da HQ Terra de Ninguém, que também foi usada como base para Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas (e atenção, veremos mais menções ao filme de 2012 nesta crítica). Diversas gangues se apoderaram de regiões diferentes da cidade, cabendo a Jim Gordon (Ben McKenzie) e o restante do departamento de polícia, além do jovem Bruce Wayne (David Mazouz), defenderem Gotham e tentar conseguir ajuda externa.

É uma tremenda premissa, e uma que definitivamente é eficiente em livrar-se da formulaica estrutura de caso da semana. É um fato que Gotham, ao longo das temporadas, foi se desgarrando cada vez mais disso, mas a narrativa ainda sofria com a aparição de vilões descartáveis, e apostava em reviravoltas e intrigas macarrônicas entre seus personagens. É algo que a quinta temporada de Gotham preserva, beirando o insuportável com o péssimo triângulo amoroso envolvendo Gordon, Barbara e Leslie ou igualmente horrorosa briga de egos entre Oswald Cobblepot e Edward Nygma, que conseguiram se tornar algumas das figuras mais entediantes da série. 


Sempre consideram Gotham uma boa Pulp Fiction; nada a ver com o filme de Quentin Tarantino, mas justamente ao tipo de material que o filme tenta recriar: histórias baratas, curtas, mas com estilo. Gotham é exatamente isso, mas infelizmente com uma qualidade de roteiro sofrível, e que provoca calafrios com frases tenebrosas como “eu sou a resposta para a pergunta da sua vida!”, além de reviravoltas dignas de um novelão mexicano.

Mas ao menos temos diversidade entre os vilões ao adotar a fórmula “da semana” no cenário da Terra de Ninguém. Aí as referências aos fãs dos quadrinhos correm solta. Temos, por exemplo, a gangue mutante saída diretamente das páginas de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, em um confronto dinâmico e surpreendentemente violento com Bruce e Selina.

Mas os grandes destaques ficam mesmo com dois antagonistas icônicos. Primeiramente, Jeremiah oficialmente completa sua transformação no Palhaço do Crime ao ser esmurrado por Bruce em direção a um tanque de ácido na ACE Chemicals (mais uma referência saudosa); seguindo um jogo psicológico que envolve uma tortura mental de Bruce pelo futuro Coringa. Por mais que esse seja um conceito difícil de aceitar, o de termos Bruce e Jeremiah enfrentando-se antes de assumirem suas formas definitivas, é preciso tirar o chapéu para a excelente performance de Monaghan, que merece seu espaço entre os grandes intérpretes do vilão.

A outra presença, e talvez a mais estimulante do ponto de vista estético, é o Bane de Simon West. É o oponente físico mais forte, e que garantiu uma caracterização inspirada e distinta das anteriores. Isso visualmente, já que West abraça completamente o estilo adotado por Tom Hardy em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, desde a composição física, a voz sarcástica e até o curioso gesto de manter as mãos no peito constantemente. Ainda assim, é uma das ameaças mais interessantes da temporada, principalmente pela relação entre Bane e Gordon antes da transformação do soldado em mercenário. Daqueles que queríamos ver novamente no futuro, de alguma forma.

Falando sobre Gotham, também é preciso reforçar sua maior qualidade: a direção de fotografia. Não é exagero algum colocá-la como a série de super-heróis mais bem fotografada de todas da atualidade, passando longe da escuridão total das da Netflix. A cada episódio, os fotógrafos sempre parecem experimentar desenhos de luz criativos e imagens fabulosas, que abraçam o caráter mais surreal e cartunesco da série, que é sempre um deslumbre para os olhos. Merecidamente, Gotham anualmente figura entre os indicados ao ASC, prêmio do sindicato dos Diretores de Fotografia,

Mas então chegamos à hora final de Gotham. Um último episódio que salta 10 anos para o futuro, e enfim prepara terreno para a entrada de um Bruce Wayne crescido e já preparada para trazer justiça à cidade com o manto do Batman. Ainda que não seja a proposta mais inspirada, que envolve Harvey Bullock sendo incriminado, é um episódio que se diverte ao finalmente poder colocar os elementos da mitologia da DC em movimento: Pinguim e Charada com seus visuais definidos (e com uma dinâmica deliciosamente similar à da série de TV estrelada por Adam West), Jeremiah enfim assumindo a postura do Coringa, Selina Kyle como a Mulher-Gato e, principalmente, Gordon como comissário e com o obrigatório bigode.

Ainda que o Batman não apareça em detalhes até o frame final do episódio, sua presença é bem sentida, e fica claro que os produtores parecem tentar fazer o famoso backdoor pilot. É quando uma série nova pode surgir a partir de uma já estabelecida, e não há nenhuma sutileza no fato deste episódio final se chamar “The Beginning”. Quanto ao visual do Homem-Morcego? É satisfatório, e representa mais uma inspiração direta na trilogia de Christopher Nolan, mesmo que só a vejamos por alguns segundos.

Entre erros e acertos, a quinta e última temporada de Gotham não vai ganhar novos fãs, mas deve agradar aqueles que compraram sua proposta. Fãs tradicionais da mitologia do Homem-Morcego provavelmente já abandonaram a série há tempos, mas quem está disposto a algumas brincadeiras estéticas e de caracterização pode encontrar diversão aqui, ainda que não represente o melhor da série. Mas definitivamente cria o desejo de ver mais sobre esse universo e personagens, agora com seu grande herói já inteiramente estabelecido.