Quando Olhos que Condenam da cineasta Ava DuVernay, a mais nova minissérie de produção original Netflix inicia, não restam dúvidas. Estamos no Harlem! Tal identidade fica clara pelo o que os olhos podem ver, mas especialmente pelo o que conseguimos ouvir. Testemunhamos um amontoado de jovens adolescentes, quase todos de pele negra e alguns hispânicos, fazendo arruaça a caminho do famoso Central Park na grande cidade de Nova York ao som de ‘Fight the Power’ do renomado grupo de hip-hop Public Enemy.

Em 19 de abril de 1989, ocorreu o chamado ‘caso da jogger em Central Park’, onde uma mulher de 28 anos de idade foi brutalmente agredida e estuprada, supostamente, por cinco garotos – quatro negros e um latino – naquela noite tumultuada. Os cinco menores de idade foram apreendidos ao lado de uns 30 adolescentes, responsáveis pela baderna no parque. Contudo, estes cinco escolhidos não estavam participando daquilo que acontecia naquele momento. Mais: ao virem as coisas erradas sendo feitas a alguns cidadãos nova-iorquinos, se afastaram.

Porém, ser negro ou latino na Nova York da década de 80, em uma das mais violentas eras da cidade com a criminalidade em alta, não era sinônimo de vida fácil. Nem um pouco.


Dois meses depois deste caso real de violência na maior cidade dos Estados Unidos, o grupo musical citado anteriormente, a pedido de Spike Lee, autor de cinema militante vivo até os dias de hoje e ainda muito relevante, compôs esta canção hino que fez parte de seu filme mais popular e venerado até o momento, a comédia dramática Faça a Coisa Certa lançada apenas alguns meses depois dos acontecimentos de 19 de abril de 1989.

Trinta anos depois desta obra de valor cultural, histórico e estético significantes para a história recente do cinema, observamos a diretora Ava DuVernay seguindo o mesmo caminho de Spike Lee, com uma obra militante como é Olhos que Condenam da Netflix. Todavia, de maior delicadeza que alguns dos últimos trabalhos de Lee, como o surpreendente Infiltrado na Klan de 2018, que recentemente levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado para casa.

É possível adiantar que esta minissérie de apenas quatro episódios, produzida pela provedora mundial via streaming é o trabalho mais seguro, contundente, sensível e detalhado da carreira desta diretora de cinema que se encontra ainda na casa dos quarenta anos de idade, assim, deduz-se que há ainda muito tempo de amadurecimento que pode proporcionar ainda melhores trabalhos que este em Olhos que Condenam.

Aparecendo para o mundo com o apenas competente Selma: Uma Luta pela Igualdade em 2014, DuVernay já indicava seu estilo cine militante com a história sobre as marchas pelos direitos de voto ocorridas em 1965 lideradas pelo ativista, porta-voz e líder do movimento dos direitos civis Martin Luther King Jr. Se no longa de cinco anos atrás, a diretora cometeu alguns deslizes ao deixar sua narrativa escorregar em alguns momentos no melodrama telenovelesco. Agora, com esta produção Netflix, apoiada por um roteiro de tratamento e atenção aos detalhes, a autora de cinema pode desfilar o ápice de sua inteligência emocional, já que trata de alguns temas e perspectivas variadas, sem perder o cuidado para com todas as arestas da sociedade.

No primeiro episódio, a diretora foca em sua crítica para com a força policial da cidade de Nova York por seu comportamento violento, ainda mais com menores de idade, e também por sua incompetência e falta de inteligência (dedutiva e emocional) na investigação criminal do caso de abril de 1989. Similar ao que Kathryn Bigelow fez com Detroit em Rebelião de 2017. E, é nesta mesma parte da história que DuVernay já reservava o que seria a erosão mais sentida entre todas: Korey Wise, interpretado com excepcional vigor e pureza por Jharrel Jerome.

No episódio seguinte, acompanhamos os julgamentos dos garotos. Curioso que nesta parte da trama, podemos testemunhar duas facetas bem distintas de Ava DuVernay, ambas de acordo com os temas sensíveis abordados e visão política social militante da mesma. Nesta última, a diretora afrodescendente não poupa palavras e faz questão de atacar diretamente o atual presidente americano Donald Trump (e a rede de notícias Fox News), usando imagens reais do próprio na época dos acontecimentos. Geralmente, atitudes panfletárias em filmes podem soar falsas ou isoladas no meio do fio narrativo. Mas, assim como no cinema de Spike Lee, é perceptível a opção pela militância social, assim tornando o discurso coeso para com o conteúdo.

Também no mesmo episódio, mostra-se o momento de maior sensibilidade da cineasta em Olhos que Condenam da Netflix, pois aqui é revelada a atriz que interpretou Trisha Melli, a mulher violentada e estuprada no parque. É exemplar como DuVernay filmou sua entrada no tribunal, atestando o sofrimento da vítima, sem esquecer que haviam mais cinco pessoas sendo injustiçadas naquele julgamento. Ava DuVernay afirma com clareza e dignidade admirável que ali haviam seis vítimas, e não apenas os cinco réus. Algo que fica ainda mais explícito pela cirúrgica performance da ótima Vera Farmiga, que fez o papel da advogada que representava a cidade de Nova York contra os adolescentes moradores do bairro Harlem.

Já, no capítulo três, passaram-se os anos e vemos como quatro dos cinco garotos estão atualmente. Agora, todos adultos, também enfrentam o desafio de tentar recomeçar a vida com a marca que a sociedade imprimiu neles. Para alguns, Kevin Richardson e Yusef Salaam, a jornada foi um pouco menos penosa, devido ao apoio incansável daqueles que os amam; já para outros como, Antron McCray e Raymond Santana, avistou-se um caminho mais espinhoso, seja por conflitos emocionais familiares, mas principalmente, pela estigma que fica, limitando todas as opções e encarcerando mesmo que ao ar livre, apresentando o desmoronamento que ocorre nas classes mais desprovidas da sociedade.

A cineasta praticamente reservou o epílogo de Olhos que Condenam para retratar a maior tragédia de todas, vivida por Korey Wise, que foi para um presídio de adultos, e presenciou o inferno por muitos anos. A sobrevivência de Korey é o que foi exaltado aqui, e sua resiliência diante de perdas muito doloridas, ainda mais levando em consideração a personalidade gentil e calorosa do jovem garoto. Na parte final, Ava DuVernay invocou influências de Um Sonho de Liberdade de Frank Darabont misturadas à Projeto Flórida de Sean Baker, e também usou mais uma vez a carta de humanidade, com o personagem do policial interpretado por Logan Marshall-Green.

Cometendo algumas repetições, e as vezes, desperdiçando alguns inspirados momentos de seu elenco por uso de uma luz equivocada em cena, que não captura o lacerante na face de seus atores, como no momento entre Antron e seu pai doente, papel do exemplar Michael K. Williams. Ainda assim, é notável o trabalho e a evolução de Ava DuVernay como autora de cinema, entregando aqui seu melhor projeto na carreira.

Se continuar a praticar tal compaixão, associada com uma atenção aos detalhes e minúcias de todas as faces sociais, poderemos esperar muito mais e melhor desta cineasta dotada de grande percepção.