Um novo mundo, uma “nova centena” e novos perigos. The 100 está de volta para sua sexta temporada com ares de recomeço, demonstrando que a série possui maleabilidade de sobra para manter suas tramas interessantes, ainda que não esteja disposta a se desvencilhar de sua pragmaticidade como série “jovem-adulta”.

Como já citei na crítica da última temporada, The 100 é uma sucessora espiritual da icônica Battlestar Galactica (o remake, de Ronald D. Moore), sempre dinâmica e pronta para alterar drasticamente suas circunstâncias em busca de novas evoluções para seus protagonistas, explorando elementos de ficção científica com entusiasmo. O tema recorrente de sobrevivência e o foco da série em estudos contidos de comportamentos sociais também contribui para esta estimada relação. A grande diferença inegável entre ambas as séries, no entanto, sempre foi o modelo “jovem-adulto” de The 100 que exala todas as características do canal CW, desde um elenco convenientemente atraente, até a divisão de sub-tramas de romance juvenil.

Cinco temporadas se passaram e a série sempre conseguiu equilibrar relativamente bem as suas propostas para com o público, com suas ambições narrativas que só se tornaram mais grandiosas a cada temporada. The 100 consegue manter o espectador engajado a cada ano que passa, produzindo reviravoltas mirabolantes e propondo novos contextos capazes de intrigar qualquer um. No entanto, também é necessário considerar que embora a série raramente decepcione com sua audácia, sua exploração destes novos contextos nem sempre conseguiu fugir da pragmaticidade que marca as séries de TV aberta nos EUA. Neste sexto ano, esta quebra de paradigma pode ser a grande barreira que a série precisará superar para manter-se relevante.


Um novo mundo se abre para estes sobreviventes que já encaram tantas tragédias e reviravoltas, que chega a ser difícil relembrar todos os acontecimentos, todas as mágoas e ressentimentos e todos os aprendizados que os trouxeram até aqui. É justamente por conta desta densa trajetória que considerei uma ótima estratégia, levarem os personagens para um novo começo propriamente dito, onde poderíamos nos desvencilhar de toda a megalomania que ficou para trás na Terra, e quem sabe, levar a produção para novas discussões em um patamar digno do cenário de ficção científica que ainda encara The 100 com certa relutância.

A força da série continua sendo o nosso apego a estes personagens. Depois de termos acompanhados suas construções ao longo de cinco anos, não poderia faltar uma cena onde Bellamy (Bob Morley) e Clarke (Eliza Taylor) encaram este novo mundo sob o mesmo ângulo que encararam a Terra no começo da série, mas com perspectivas completamente diferentes. Crescidos, alterados, estão longe de querer correr atrás de borboletas ao som de Imagine Dragons, e percebem esta nova empreitada com mais pesar do que entusiasmo. Estes personagens já não são mais os protagonistas comuns à este tipo de produção, e tratá-los com a devida complexidade que conquistaram é o mínimo que esta nova temporada precisará abraçar durante sua trajetória. Caso contrário, podem cair no perigo da redundância (a constante inimiga número um de The 100).

Os fãs de The 100 tem muito com o que se empolgar neste primeiro episódio. Somos apresentados a este novo ambiente com diversos diálogos que se prestam a fazer pontes entre o que aconteceu na Terra, e onde cada personagem se encontra durante este nova fase. Esta necessidade de re-contextualização, porém, impede que a nova temporada se abra com toda a pompa que a série conquistou o direito de exibir em sua tentativa de se reformular. As novas circunstâncias são empolgantes, claro, mas ainda temos a sensação de que estamos acompanhando a continuação pragmática destas histórias, ao invés de aproveitarmos todo o deslumbre que o final da quinta temporada proporcionou.  

Em um primeiro episódio eficiente, The 100 já retorna com sua dramática primeira baixa no elenco, um novo personagem plenamente inserido na dinâmica deste grupo, uma nova atmosfera visual para ser trabalhada, e novas mitologias a serem exploradas ao longo da temporada. Sabemos qual será o grande obstáculo a ser encarado pelos próximos episódios, e quais ações terão repercussões significativas nos eventos que ainda estão por vir. A sexta temporada está encaminhada, e possui potencial de sobra para continuar escancarando expectativas, ainda que esta meta parece mais difícil de se alcançar. Digo isso sem desconfiança, no entanto. Afinal, esta constante escalada sempre foi o maior prazer de se acompanhar The 100, e com esta nova fase, torço para que continue assim.