A segunda temporada de The Rain se esforça para comprovar sua relevância em meio à tantas outras produções pós-apocalípticas, ainda que precise se desvencilhar de sua proposta inicial para dar continuidade à sua narrativa com a devida liberdade.

De ínicio, The Rain trazia uma premissa simples e fácil de se vender para uma plataforma como a Netflix: Neste mundo pós-apocalíptico, tenha medo da chuva. A dinâmica facilmente assimilável proporciona uma tensão atraente que capitaliza em cima de fatores como a imprevisibilidade e a inevitabilidade de um fenômeno natural recorrente (Shyamalan, com seu filme “Fim dos Tempos”, reconhecia o potencial desta abordagem).

Fugir da chuva poderia ser ainda mais tenso do que qualquer perseguição de zumbis nesta zona desolada, mas a primeira temporada não conseguiu alcançar um patamar marcante com o público, justamente por não apresentar distinções tão atraentes que mantivessem o tema pós-apocalíptico revigorante, além desta dinâmica. Ainda que a construção dos personagens fosse eficiente, e tivéssemos um universo produtivo para acompanhar esta história, a qualidade destes aspectos não era suficiente para tornar The Rain, uma produção indispensável.


Poderia-se, então, distinguir a série através das abordagens mais comuns às produções de países nórdicos, onde suspenses como este são caracterizados por uma frieza abrangente, desde tramas mais pesadas, até uma estética pouco confortante. Em parte, estas características funcionavam a favor de The Rain, mas também mantinham a série em um estado de empolgação controlada, sempre aspirando conquistar o público pela dinâmica de tensão previamente citada e por um universo fundamentado em especulações científicas palpáveis.

A segunda temporada precisava lidar com as consequências destas escolhas. Por um lado, a parte científica da série não era tão deslumbrante ou excitante, justamente por não ser tão aprofundada e incontestável quanto gostaria de ser. E por outro lado, também não tínhamos a inventividade que outras séries semelhantes acabam trazendo com suas excentricidades. Ciente disso, The Rain escolhe ceder às necessidades, e amplia sua narrativa para um campo menos “realista”, encontrando espaço para introduzir elementos mais empolgantes.

Sendo assim, vamos deixar de lado o fato de que a segunda temporada de The Rain não procura revigorar, nem um pouco, a dinâmica da chuva em si, uma vez que compreendemos os motivos e intenções por trás desta decisão. Por mais que arrisque tornar-se inconsistente, a série não perde tempo em estabelecer novos focos para esta temporada, e avança suas tramas com um ritmo digno de nota a cada episódio, mantendo seus núcleos narrativos em constante movimento e apresentando novas reviravoltas instigantes.

Com os personagens, e sua dinâmica como grupo, já bem estabelecidos para o espectador, a segunda temporada (que conta com apenas seis episódios) não perde tempo em dar continuidade à trama deixada em aberto no final do primeiro ano. Um mérito da série, a relação entre os personagens é envolvente o suficiente para que possamos torcer para cada membro individualmente, de forma distinta. Até Patrick (Lukkas Leken), o personagem que carrega todas as características detestáveis que o roteiro procura imprimir, consegue ser “salvo” perante o público por sua relação com o grupo.

Há um foco produtivo da série em seus casais desventurados. Embora componham, como de costume, tramas secundárias para intercalar com a narrativa geral mais excitante, também são parte fundamental dos tópicos que The Rain procura discutir com sua história. A importância da sobrevivência destes personagens é constantemente questionada perante a falta de com quem compartilhá-la. A solidão, portanto, torna-se muito mais temível do que a morte, e o grupo está sempre tentando proteger estas conexões.

Esta discussão ganha força com a trajetória de Rasmus (Lucas Lynggaard Tønnesen), cuja imunidade é o grande foco deste temporada. Todos querem matá-lo ou protegê-lo (muitas vezes, mudando de lado), enquanto ele só quer ser deixado em paz para aproveitar experiências básicas da vida que lhe foram negadas por tanto tempo, durante seu crescimento. Lea (Jessica Dinnage) e Jean (Sonny Lindberg) também contribuem para este cenário, com a temporada mantendo o casal isolado em um núcleo narrativo voltado para respiros emotivos em meio à progressão acelerada da trama principal. Estão longe de serem esquecidos, no entanto, preparando terreno para que o grande clímax da temporada possa ter um apego emocional maior com o espectador.

A grande diferença da temporada, então, fica por conta desta alteração de um suspense de sobrevivência com uma atmosfera de tensão, para uma trama de ficção científica “super-heroiesca” com direito à uma escala maior para a ação e cenas mais impactantes por conta de aspectos visuais, ao invés de suas construções atmosféricas. Beneficiada por um envolvimento eficiente com os personagens principais, The Rain traz um resultado positivo com suas alterações, visuais mais chamativos e terreno fértil para prosseguir sua história por mais temporadas que expandiriam seu universo.

Ainda assim, é curioso que mesmo com tantos aspectos suficientemente positivos, The Rain não consiga ser tão atraente para se acompanhar nos tempos atuais. Há uma saturação evidente em seu gênero, e ser “eficiente” não é mais digno de atenção para o público que acompanha tantas tramas mais inventivas ou excêntricas.

Se antes, o pós-apocalipse costumava enfatizar os perigos que poderiam torná-lo possível no mundo real, a nossa geração atual parece já ter aceitado o fim do mundo de diversas formas, e está mais interessada em acompanhar um cenário onde esta aceitação proporciona um retrato livre das complexidades que se apoderaram de nossas interações. Queremos saber quem somos no meio da devastação, e The Rain encontra seus melhores momentos quando mantém estas questões em evidência ao lado da tensão.

Mas, infelizmente, seu universo ainda precisa se enriquecer para cativar o público acostumado a este tipo de produção, e sua audácia com a premissa original precisa ir ainda mais longe para tornar-se distinguível. Vejo potencial em futuras temporadas, uma vez que a disposição dos roteiristas em tornar suas tramas cada vez menos mundanas pode resultar em uma progressão entusiasmante para a série, como um todo. Consistentemente bem dirigida e com uma fotografia digna do padrão que séries nórdicas costumam apresentar, The Rain continua sua intensa caminhada para não ser apenas “mais uma”. Pode não ter conquistado totalmente seus objetivos, mas encontra-se, pelo menos, no caminho certo.