A nova série jovem-adulta da Netflix, The Society, merece atenção por sua proposta e por suas ambições, ainda que não seja audaciosa ou profunda o suficiente para tornar-se tão relevante quanto poderia.

Há muito que poderia ser discutido sobre The Society. A série fundamenta suas abordagens em obras consagradas da literatura que trazem retratos produtivos sobre o funcionamento da sociedade, e o papel do indivíduo dentro deste processo. A mais clara referência é o clássico “O Senhor das Moscas”, um livro que já foi explorado por diversas produções, tanto na TV quanto no cinema, majoritariamente na forma de um diálogo temático, ao invés de adaptações propriamente ditas.

Talvez o maior trabalho já feito em cima das propostas de “O Senhor das Moscas” tenha sido a famosa série “Lost”, que trazia uma trama superficialmente semelhante ao livro, mas com adultos ao invés de crianças perdidas em uma ilha, precisando estabelecer uma sociedade funcional sem contato com o mundo exterior. Tal proposta acaba gerando representações sobre os instintos dos seres humanos, as ideias primordiais do que constitui uma sociedade organizada, e reflexões sobre a evolução natural de instituições e ideais que, inevitavelmente, acabam definindo os diferentes lados de um contínuo debate sobre os nossos valores morais e políticos.


The Society demonstra ter um entusiasmo contagiante para explorar esta proposta, colocando seus personagens adolescentes isolados do resto do mundo, e passando os dois primeiros episódios lidando com a aceitação desta realidade, além das reações naturais ao novo status. De forma pragmática, a série busca estabelecer todas as possíveis perguntas que poderiam surgir instintivamente dentro deste cenário, e respondê-las de forma orgânica, mesmo que isso acarrete em uma longa duração para os episódios, e um ritmo lento para o seu desenvolvimento narrativo.

Aqueles que buscarem a série por conta de uma recomendação da Netflix, podem se frustrar com os reais interesses de The Society. Sua execução não traz os mesmo apelos chamativos de uma série calculadamente direcionada para o público casual, como Riverdale, ou o universo rico e excêntrico de ficções científicas mais dinâmicas como The 100. O grande mistério de The Society, os motivos por trás deste isolamento que inicia a série, é consideravelmente deixado de lado por quase toda a temporada, em função de uma exploração mais abrangente sobre a trajetória destes personagens dentro de suas novas condições, e um estudo sobre os efeitos imediatos de se tentar estabelecer uma nova sociedade.

Felizmente, aqueles que se dispuserem a acompanhar a série com um interesse por estes tópicos sociológicos, podem considerá-la engajante o suficiente para prosseguir com todos os dez longos episódios. Esse engajamento será por conta da construção destes personagens, que formam vários núcleos dentro deste cenário e, em sua maioria, são trabalhados de forma assimilável e produtiva para o andamento das discussões que a série propõe. Embora a grande quantidade de tramas seja parte do que torna a série tão arrastada, também proporciona uma dinâmica envolvente depois de ser plenamente estabelecida.

O terceiro episódio (onde os adolescentes resolvem dar continuidade à uma festa de formatura e algumas reviravoltas redefinem o status do grupo) será o ponto onde o espectador poderá se sentir motivado a continuar acompanhando esta narrativa. Pontos de virada como este são menos frequentes do que poderia se esperar neste tipo de produção, e geralmente se limitam a entregar aquilo que “faz sentido” dentro do estudo proposto pela série. O questionamento natural e as respostas plausíveis são os fatores que movem a narrativa de The Society, compondo tramas que podem não ser tão impactantes para um público casual, mas que serão, no mínimo, interessantes para quem se dispor a assimilar esta “perspectiva de análise”.

Espectadores que já tiverem acompanhado as tantas outras produções que também procuram construir estes micro-universos e explorar suas diferentes possibilidades e interações, podem se sentir um tanto entediados por The Society, uma vez que a série da Netflix não vai muito além daquilo que poderia se chamar de “sociologia 101”. São vários, os cenários apresentados pela série que já foram explorados à esmo pela ficção, com muito mais profundidade e complexidade do que pode ser visto por aqui.

Esta sumarização de tópicos sociológicos parece ser justamente a intenção da série, mas acaba não sendo nem atraente o suficiente para um público adolescente descompromissado (por conta de seu ritmo e desenvolvimento) e nem edificante o suficiente para complementar as reflexões daqueles que já possuem maior experiência com este tipo de proposta. O espectador casual que conseguir ser instigado por esta história e se dispuser a refletir conforme a série avança seus exercícios, no entanto, estará diante de uma experiência marcante, que com certeza lhe abrirá caminhos para o aprofundamento dos conceitos apresentados.

Sendo assim, The Society apresenta um potencial notável para tornar a sua narrativa ainda mais produtiva, e guiar um público já introduzido à sua proposta para discussões que poderiam rivalizar tantas outras produções. Seu pragmatismo, um aspecto que impede a realização de suas ambições nesta primeira temporada, pode ser justamente o fator essencial para futuras temporadas que conseguirão atiçar o pensamento de seu público com mais facilidade e produtividade, justamente por conta de um estabelecimento tão acessível e abrangente.

Sobre os temas trabalhados em si, a série caminha por entre os clichês da proposta com altos e baixos. O “individualismo vs coletivismo” é um debate que permeia boa parte das discussões (como poderia se esperar), assim como as reflexões sobre moralidade também servem como tema de várias tramas e interações. É interessante notar, no entanto, como a série procurou construir, de forma gradual e detalhada, sua discussão sobre democracia e a naturalidade com que governo totalitários e repressivos podem tomar o poder de forma compreensiva. Novamente, para quem nunca se interessou ou teve contato com este tipo de proposta, a série se torna um prato cheio de potencial.

The Society será encarada com uma certa falta de atenção pela crítica e por boa parte dos espectadores, justamente por conta de sua execução pouco convidativa para qualquer um dos públicos que procura agradar. Seu futuro, no entanto, pode ser brilhante, se souber aproveitar aquilo que construiu para avançar suas reflexões e nos entregar cenários ainda mais complexos e inventivos. Por mim, podem deixar o grande mistério de lado indefinitivamente. Apenas deixem-me acompanhar a evolução destes personagens com ainda mais audácia e aprofundamento.