A terceira temporada de 3% continua apresentando os mesmos benefícios e problemas de sua abordagem formulaica, mantendo-se como uma produção de fácil consumo internacional, mas que tem dificuldade para atingir todo o seu potencial como distopia.

Devo confessar que, como um espectador de séries que já consumiu todo o tipo de produção televisiva americana dos anos 2000 em diante, faço parte do grupo que já celebra a mera existência de 3%. Acompanhar uma série nacional que se mostra tão digna de comparações com a produção comercial que sempre fez sucesso nos EUA, já é uma experiência impactante por si só, e esta terceira temporada, por menos cativante que possa ser, mantém-se, no mínimo, consistente neste padrão de qualidade que o público já conquistado passou a esperar de uma série como esta.

É importante ressaltar, também, que os espectadores nacionais mais críticos da série costumam apontar uma superficialidade em sua execução, mas não parecem compreender que 3% segue uma linha evidentemente alinhada com o gênero chamado de “young-adult” (jovem-adulto), e procura entregar, acima de tudo, as sensações que os fãs do gênero sempre esperam de histórias como esta. A questão, no entanto, é que apesar da série nacional se mostrar perfeitamente capaz de engajar este público-alvo normalmente pouco exigente, a maneira como esta se mantém excessivamente adepta à fórmulas e diretrizes narrativas acaba limitando seu potencial perante um público menos casual.


A série da Netflix permanece fiel à sua identidade com esta terceira temporada, apesar das novas dinâmicas encontradas para gerar novas tramas e conflitos. Usando como referência, The 100, uma típica série “young-adult” que considero ser a mais inventiva e empolgante no cenário atual, percebe-se como 3% se dedica a revigorar seu universo com personagens reinventados e arcos narrativos que possam expandir a perspectiva deste cenário social, sem ignorar as intenções originais da premissa que atraiu o público, no início.

O universo em si pode ter sido menos expandido do que vimos na segunda temporada, mas há de se notar a sua evolução, que aproveita tudo que a série vem estabelecendo até então, para colocar seus personagens em posições produtivas e engajantes. No entanto, também é necessário ressaltar que o ritmo desta temporada depende muito mais da alteração de suas circunstâncias, não dispondo do mesmo envolvimento gerado pela dinâmica da primeira temporada, ou pela tensão e pela urgência que marcaram o segundo ano. Trata-se de uma nova fase da série, que enxerga um espaço atraente para se mostrar relevante além de sua proposta inicial.

A construção deste universo sempre teve altos e baixos, e continua assim com esta nova leva de episódios. Por um lado, a mitologia que envolve esta sociedade tem exposições eficientes, e pequenos detalhes, como a canção de ninar dos Álvarez, engrandecem esta história, e tornam-a mais distinguível. Por outro lado, no entanto, também se preza muito mais a estilização do que a naturalidade em diversos elementos visuais, um outro aspecto bem comum de histórias deste gênero que, embora também seja executado com consistência por aqui, impede um maior apreço por esta construção.

Considerando, então, a maneira pragmática como a série é executada, seguindo fórmulas narrativas americanas de eficiência mais do que comprovada, não é de se estranhar a diferença entre o impacto que 3% tem internacionalmente, e seu apelo dentro do Brasil. Aqueles que assistem a série “de fora”, estão imunes à diversas quebras de naturalidade que costumam surgir por conta da maneira “teatral” que é percebida em diversos diálogos da série. O elenco em si, não chega ser tão culpado por esta sensação de artificialidade quanto os métodos de direção aqui empregados, que parecem prezar uma abrangência e uma maleabilidade necessária para a exportação da produção.

São vários, os diálogos que com certeza soam muito mais palatáveis nas páginas do roteiro, do que na tela da televisão. A maneira como estas falas são entregues ao longo da série sempre trazem um desequilíbrio de coloquialismos, e uma falta de sensibilidade pela maneira como cada personagem se apresenta, e como suas reações são interpretadas. 3% precisava trabalhar uma linguagem própria, com conjuntos característicos a este cenário, tal qual se dedica a preservar os aspectos culturais deste universo. A falta deste trabalho acaba afetando a experiência do espectador nacional, que se sente distanciado quando uma personagem com tanta personalidade como Joana (Vaneza Oliveira), acaba tendo suas falas impulsivas desprovidas de naturalidade.

O equilíbrio de perspectivas nesta terceira temporada mantém a história fluindo com eficiência, colocando Marcos (Rafael Lozano) e Rafael (Rodolfo Valente) em dinâmicas revigorantes para seus arcos narrativos, e mantendo a protagonista MIchelle em uma posição de poder que evita o seu desgaste, dando espaço para o desenvolvimento de outros personagens ao seu redor. Glória (Cynthia Senek), por exemplo, acaba tendo uma evolução envolvente de se acompanhar nesta terceira temporada, ainda que todos sigam progressões narrativas calculadas para atender as expectativas do público-alvo.

São tantos elementos entusiasmantes em 3% que parecem não atingir todo o impacto emocional que poderiam, por conta deste pragmatismo. Visualmente, a série também apresenta um uso produtivo de seu orçamento, sabendo manter o espectador entusiasmo com novos cenários, ao mesmo tempo em que utiliza os ambientes já estabelecidos sem muita redundância. As cenas de ação podem não ser tão grandiosas quanto se esperaria de algumas comparações, mas raramente deixam de empolgar o espectador, e diversas montagens são capazes de capitalizar em cima deste produtivo trabalho cenográfico.

Mas esta terceira temporada, mais equilibrada, porém menos excitante que a segunda, dificilmente poderá chamar a atenção daqueles que já não estavam plenamente envolvidos com a luta entre o Continente e o Maralto, mesmo que a entrada da Concha nesta disputa tenha impedido esta história de se tornar repetitiva.

3% já não precisa se provar como um produto relevante e digno de atenção dentro de seu gênero, e deveria aproveitar esta conquista (que merece ser admirada) para trabalhar suas histórias em direções mais memoráveis e distintas de suas referências narrativas. Felizmente, o gancho deixado pelo episódio final indica que teremos uma dinâmica tão revigorante quanto a série sempre procurou introduzir a cada ano, e com um pouco de audácia, a guerra de 3% pode ter muito a dizer para seus espectadores cativos.