A HBO mantém-se firme como uma plataforma para séries de prestígio com Chernobyl, reconstituindo dramaticamente os trágicos eventos históricos que marcaram a queda da União Soviética, em uma série digna de atenção, tanto do público, quanto da temporada de premiações.

Sair de Game of Thrones para entrar em Chernobyl pode ser uma mudança brusca para os espectadores, mas a série começou a ser indicada cada vez mais para preencher o vácuo que a produção fantasiosa deixou, justamente por sua qualidade técnica, e por sua narrativa envolvente. Basta assistir ao primeiro episódio para não querer deixar a série de lado até que todas as tramas tenham sido resolvidas, e este engajamento acontece, sem dúvidas, por conta do impacto que esta história real é capaz de gerar em qualquer espectador.

“Como um reator RBMK explode?”


Essa é a frase que marca o suspense principal da série, e parte do mérito da nova produção da HBO está justamente em conseguir intrigar o espectador que nem sequer faz ideia do que é um “reator RBMK”.

Mesmo aqueles que não estão familiarizados com a história de Chernobyl, com certeza já ouviram diversas outras produções citá-la como uma referência para definir um grau extremo de “desastre”. Assistindo a produção da HBO, este peso está sempre evidenciado, deixando o público consciente de que estamos assistindo à uma tragédia sem precedentes. É justamente por isso que chega a ser tão aflitivo acompanhar os personagens em meio às repercussões do acidente, com os núcleos políticos se recusando a aceitar sua magnitude.

Contexto é importante por aqui, e embora a série esclareça superficialmente as motivações para a demora da aceitação do governo soviético, há de se ressaltar o clima de tensão que definia a Guerra Fria, um conflito que se desenrolava por meio de corridas tecnológicas e embates ideológicos. Os soviéticos resistem a assumir este acontecimento por uma questão de imagem perante o resto do mundo, e esta resistência é o que torna a jornada de personagens como Legasov (Jared Harris), tão empolgante, ao mesmo tempo em que é extremamente tensa.

A enorme escala desta jornada é sempre lembrada para o espectador através de suas possíveis consequências, aproveitando as discordâncias entre Legasov e Shcherbina (Stellan Skarsgard) para tornar a compreensão desta escala mais palatável. A série também utiliza Lyudmilla Ignatenko (Jessie Buckley), uma personagem fictícia (responsável por representar o conjunto de cientistas reais que trabalharam na reparação do desastre), para mover a narrativa com mais eficiência e objetividade.

A narrativa de Chernobyl se divide em apenas cinco episódios, com cada capítulo integrando novas perspectivas conforme aborda fases diferentes do desastre. Não há tempo para prolongações desnecessárias ou sub-tramas redundantes, e logo no primeiro episódio, somos jogados dentro da tensão de se presenciar um acidente (até então) incompreensível, onde todas as reações parecem estar frustrantemente atrasadas. Embora esta abordagem abrangente seja capaz de construir um cenário envolvente e esclarecedor para o espectador, também acaba limitando o envolvimento direto com personagens específicos, uma vez que todos parecem apenas fazer parte de uma grande reconstituição documental.

A série traz um equilíbrio notável entre suas fidelidades e suas escolhas criativas. Muito do peso dramático de sua veracidade acaba vindo das passagens de tempo, que servem como guias para a narrativa progredir de acordo com a história real, conforme encontra-se espaço para introduzir novos aspectos deste cenário em meio à urgência. Por conta desta abrangência, somos constantemente lembrados do quanto esta batalha só pode ser ganha através de sacrifícios pesados, tanto pessoais quanto nacionais. Torna-se ainda mais trágico, então, acompanhar o sacrifício de homens comuns, enquanto o governo continua se recusando a sacrificar sua imagem.

VIsualmente, Chernobyl também merece todos os elogios que vem recebendo ao redor do mundo. Sua ambientação deprimente é constantemente enriquecida por composições representativas que ficam gravadas na memória do espectador, retratando momentos específicos que podem evocar muito mais emoção do que qualquer texto histórico seria capaz, e nos fazendo assimilar a atmosfera de desespero, sacrifício e de desilusão que permeia toda a série.  

Este fascínio por uma abordagem tão atrelada a tentativa de um retrato verídico, aliada ao envolvimento de uma narrativa emocionante que se importa com o sentimento pessoal, facilmente relacionável para qualquer espectador, me faz lembrar da época em que a HBO conquistou uma admiração inestimável com outra produção de prestígio: A aclamada Band of Brothers. Quando nos deparamos com minisséries tão dedicadas a seguir tamanho rigor técnico, e que trazem construções edificantes sobre períodos de grande importância para a nossa sociedade, o resultado não poderia ser diferente de algo realmente memorável para a televisão.

Chernobyl escancara o absurdo que foi o acobertamento de uma catástrofe como esta, e nos faz pensar se, em um mundo moderno e globalizado como o nosso, não estaríamos (ironicamente) cada vez mais incapazes de enxergar com objetividade, os reais perigos de nossa evolução neste planeta. Se os ideais e as empreitadas de nações estarão sempre acima de qualquer interesse na preservação humana, quanto tempo temos até que um novo desastre surja sobre nossas cabeças, sem podermos perceber seu impacto até ser tarde mais? Considerando as discussões atuais sobre aquecimento global, a série da HBO não poderia ter vindo em uma hora mais oportuna para reacender este questionamento frustrante.

Dos bombeiros condenados pelo desastre imediato, às salas de reuniões que ordenavam sacrifícios. Dos mineradores tirados de suas rotinas para lidarem com a misteriosa e perturbadora radiação, aos meros soldados encarregados de assassinar animais com frieza traumatizante. Chernobyl quer que o espectador esteja ciente das consequências de um desastre como este, nos aproximando justamente daquilo que não é levado em consideração quando se tomam as decisões que o causaram.

“Quando a verdade ofende, mentimos até não nos lembrarmos mais dela”

Com esta frase, Legasov reconhece sua ingenuidade, e comenta que as soluções encontradas pela ciência e pela reflexão nem sempre estão de acordo com a ambição e o ego do ser humano. Sendo assim, estão sujeitas a serem ignoradas. O último episódio de Chernobyl é dominado pelo julgamento pós-desastre e pela reconstituição do momento em que o reator explodiu, finalmente nos dando as densas respostas científicas para a pergunta que permeou esta história. Mas a real resposta que merece total atenção do espectador é bem mais simples.

Como um reator RBMK explode? Deixando acontecer.