Parecia inimaginável que após uma segunda temporada que teve uma queda brusca, tanto de qualidade quanto de audiência, chegando a ser cancelada pela rede de televisão ABC, que a série thriller política Designated Survivor veria a luz do dia novamente. E graças a provedora mundial via streaming Netflix que resolveu acolher a produção criada por David Guggenheim, e dar mais uma chance com uma terceira temporada constituída de dez episódios, temos nova oportunidade de acompanhar a vida do presidente americano Tom Kirkman, protagonizado por Kiefer Sutherland, o eterno Jack Bauer de 24 Horas.

E de cara, pode-se afirmar que houve uma melhora da temporada anterior para esta que se encontra disponível para o assinante Netflix. Pena que esta melhoria não conseguiu manter certa regularidade, já que o thriller político é, certamente, uma montanha-russa. No bom e no mau sentido. Dentro da história, e também no fio narrativo.

Em resumo, de um jeito superficial: a trama tem um bom pontapé inicial, mas já apresenta desníveis no terceiro capítulo, que resistem até o episódio cinco, depois voltam a ganhar alguma energia, e elevam o patamar do material nos três episódios finais da temporada. Sendo o último, definitivamente, um momento de grande inspiração do roteirista Peter Noah. Desta maneira, pulsante, mas desigual.


Notável que existem dois fatores claros que jogam para baixo o enredo de Designated Survivor, e que persistem por quase toda a temporada.

Primeiro, que a série original da Netflix possui duas tramas sendo contadas que não se juntam até o oitavo episódio. Sendo uma destas narrada de modo preguiçoso, que tem como eixo principal a Oficial de Caso Hannah Wells, papel de Maggie Q, que trabalha com bastante vigor. No cenário de Hannah, quase sempre ao lado do especialista Dr. Eli Mays, acompanhamos a caçada da ex-agente do FBI, agora trabalhando como analista para a CIA, para encontrar um bioterrorista que pode ameaçar a preservação de vidas americanas, além da democracia no país.

Aqui nesta parte, o bom e velho jogo de polícia e ladrão, onde a destemida agente contra tudo e todos, acredita que há algo de errado, e não cansará até saber o que ou quem ameaça a ordem. E fica nisso! Já que não há mais nada a complementar nesse eixo da trama de Designated Survivor do que isso, lamentavelmente. Sobra apenas o heroísmo inarredável de Hannah a ser exaltado.

Já o segundo fator, vem por uma via ainda mais problemática, de modo que envolve muitos temas relevantes em nossa sociedade, mais ainda nos dias de hoje, como: política para minorias, sejam negros, latinos, gays, transgêneros, e outros; casamento infantil na cultura ocidental e oriental; imigração; desvalorização no ensino escolar; fake news; grupos de supremacistas brancos; e saúde e a indústria farmacêutica.

Todos estes ficam se equilibrando entre os acertos e os erros nesta produção da Netflix. Assim que em alguns momentos existe alguma sensibilidade e são tratados de forma que é possível acordar com tais argumentos, emocionalmente e intelectualmente. Todavia, na mesma medida percebe-se que alguns destes temas são executados de forma tão provinciana e panfletária (inclusive, com discursos presidenciais frouxos) que torna muito complicado encontrar algum valor real verdadeiro. Mesmo os atores competentes, não conseguem escapar de algumas falas que mais parecem saídas de livros de autoajuda. Consequentemente, boa parte da idealização na narrativa acaba perdendo peso na argumentação.

Claramente, o exemplo mais evidente desse desequilíbrio pode ser visto logo no começo, no terceiro episódio, que acompanhamos o presidente Tom Kirkman em campanha para sua reeleição, lidando com um dos vários problemas que irá se deparar ao longo da temporada. Neste capítulo, temos Kirkman tendo que tratar dos direitos das pessoas transgênero. Em uma ocasião, o tema é abordado com delicadeza, ao considerar o que significa a imagem feminina para uma garota pré-adolescente; porém, mais para frente no episódio deixa a força intendida anteriormente esvair por um discurso repleto de lugares-comuns. A sutileza dá lugar para a generalidade desgraciosa.

É necessário pontuar que nestas tratativas de temas sociais importantes, a série original da Netflix não esconde o viés político de sua preferência. Mais: faz questão de deixar claro para o assinante, quem ela acredita ser o inimigo aqui, algo que pratica de modo completamente desajeitado e raso. “Curioso” que o protagonista de Designated Survivor é um político representante do partido independente, microscópico quando comparado aos partidos democrata e republicano. Óbvio, que para o mais atento, é simples notar quais são os ideais defendidos pela série. Não seria um problema, pois são aspirações nobres que visam uma progressão social de todas as camadas e etnias, porém, disfuncionais em sua prática.

Grosso modo: as vezes foi Spike Lee em excesso, quando poderia ter sido mais Ken Loach.

Ainda assim, não deve ser negado alguns dos méritos da série original Netflix. Especialmente no seu desfecho. Os três episódios finais são capazes de propor desafios, twists interessantes, e boa prática do cinema de gênero. Este último ocorre no oitavo episódio, onde pela primeira vez na temporada testemunhamos uma história de suspense, mesmo que não dos mais envolventes.

Agora, no nono episódio é quando começaremos a ver o fator emocional entrar em cena, e o faz de maneira competente, muito por méritos da performance de Italia Ricci, que faz o papel de Emily Rhodes, uma das assessoras da Casa Branca. O roteiro escrito por Dawn DeNoon fornece para a atriz boas oportunidades para se destacar, já que há muito em jogo para sua personagem, no campo pessoal, como também no profissional, colocando em cheque toda a campanha de reeleição de seu chefe.

Contudo, é no derradeiro e melhor episódio que teremos a mais elucidativa discussão de todas que é a preservação da ética e o fardo colossal na alma pela ocultação dos fatos ocorridos. E, Kiefer Sutherland aproveita bem tal brecha, assim como a atriz Julie White, que interpreta sua chefe de campanha.

Não dá para dizer que Designated Survivor fez como James Gray em Os Donos da Noite. Mesmo assim, deixa espaço para tratar de uma das tragédias humanas mais imponderáveis em uma possível quarta temporada: seguir em frente sem conseguir tirar os olhos do retrovisor pelo o que foi feito e deixado para trás.