Euphoria é mais uma série da HBO que apresenta potencial de sobra para se provar uma produção de grande relevância para o cenário atual, e as discussões que parece propor durante este primeiro episódio possuem um espaço intrigante para serem aprofundadas, ainda que sua abordagem possa ser gritantemente perturbadora para uma boa parte do público.

De início, somos introduzidos à rotina de Rue, uma adolescente da geração atual que nos guia por um universo de elementos chocantes com uma naturalidade desconcertante. A protagonista retorna de uma estadia em uma casa de reabilitação, depois de ter sofrido uma overdose causada por seu vício em drogas pesadas, mas não antes de conferirmos partes de seu crescimento, onde foi “diagnosticada” com diversos distúrbios psicológicos e emocionais. E se essa introdução já soa impactante por si só, é melhor o espectador se preparar para o que ainda vêm por aí…

Zendaya assume o protagonismo da série com eficiência, mas como estamos diante apenas do primeiro episódio, o estado atual de sua personalidade raramente deixa de ser apenas depressivo. Rue esclarece sua mentalidade ao dizer que busca apenas o “silêncio” em meio às suas arriscadas aventuras com entorpecentes, e observando o ambiente ao seu redor, não é difícil empatizar com o sofrimento da personagem.


O que rege o universo retratado por Euphoria é (condizente com o título) a sensação de intensidade. A maneira como os personagens interagem entre si, suas perspectivas sobre o mundo em que vivem, as pressões e soluções encontradas para conflitos são sempre isso: Intensas. E com o objetivo de produzir um argumento sobre os problemas que mais afligem esta geração atual caracteristicamente, o que podemos esperar é uma construção que não pretende se conter para chocar o espectador, seja este parte da geração em questão ou não.

A impressão que temos depois deste primeiro episódio é de que ou você se adequa à esta intensidade, ou você é engolido por ela, e qualquer tentativa de se retirar desta dinâmica pode resultar em tragédias ainda piores. O desespero vem justamente da maneira como a protagonista parece querer deixar claro que esta é a realidade, sem haver qualquer produtividade em questioná-la ou tentar consertá-la, quando se está apenas tentando aprender a viver nela, antes de mais nada.

Tais temas são rodeados por uma direção instigante ao longo do episódio, intercalando psicodelias com um equilíbrio engajante, que evita distanciar esta história de seu peso dramático como uma representação enfática dos tempos atuais. A fotografia de Euphoria deve receber atenção ao longo de sua exibição, com construções estéticas atraentes, mas que estão longe de soarem gratuitas ou apelativas, além de trazerem complementos tonais relevantes para cada sequência. Percebe-se que estamos tratando de uma série com aspirações artísticas bem mais ambiciosas do que muitas outras produções do cenário televisivo atual. Resta descobrir se esta ambição conseguirá se manter palatável, ou se soará presunçosa a ponto de limitar o potencial dos próximos episódios.

A narrativa de Euphoria também é trabalhada com mais personalidade do que se esperaria, encaixando eventos e sequências ilustrativas em meio à narração da protagonista, e eficientemente direcionando a compreensão e as reações emocionais do espectador. Imagens chocantes são frequentes neste primeiro episódio, mas a maneira como estão posicionadas em meio ao ritmo de cada cena faz com que sejam menos confrontantes, proporcionando o impacto necessário para que a série atinja seu público da maneira que almeja, mas sem apresentar uma irresponsabilidade que costuma ser um problema sério em outras produções supostamente “transgressoras” e “provocativas”.

Na verdade, Euphoria não parece tanto querer provocar neste primeiro episódio, quanto procura apenas escancarar um cenário impressionante, repleto de elementos que nunca deixam de ser perfeitamente críveis, ainda que preocupantes. A provocação e os possíveis argumentos para se lidar com este cenário devem vir em seguida, e se a série conseguir manter o rigor de sua construção visto até aqui, podemos estar diante de uma história que merece total atenção.

A HBO aposta no choque que a série é capaz de causar à primeira vista, mas é bem possível que Euphoria seja capaz de ir além deste choque superficial, e realmente sugerir reflexões interessantes para o estado atual da nossa geração, evidenciando e extrapolando todos os seus piores aspectos, para então repensá-los diante do espectador. Não deixa de ser difícil de assistir, mas talvez o esforça possa valer muito a pena.