A empreitada da Marvel com a Netflix chega ao fim nesta terceira temporada de Jessica Jones, trazendo meros resquícios do brilho de seu início. Krysten Ritter mantém a série engajante com sua interpretação consistente, mas isso não é o suficiente para fazer com que as tramas deste terceiro ano deixem de ser meramente desgastantes.

O cancelamento de Jessica Jones deixou claro que havíamos chegado ao final da parceria entre a Marvel e a Netflix, e esta rodada da produção carrega o peso de tornar tal despedida, uma experiência marcante para os espectadores que acompanharam todas estas séries até aqui. Mas se a segunda temporada da série já havia deixado clara, a dificuldade dos roteiristas de reproduzir a empolgação do aclamado duelo entre Jessica (Krysten Ritter) e Killgrave (David Tennant), o terceiro ano continua demonstrando que há pouco entusiasmo por aqui para se ir além da proposta original.

De início, retomamos o tema que permeou toda a série, e que ditava muitos dos conflitos da primeira temporada, discutindo os diferentes conceitos de moralidade que a protagonista precisa encarar ao longo de suas investigações. Para evidenciar estes conflitos, Trish (Rachael Taylor) retorna decidida a ser uma vigilante fria e pragmática, disposta a tomar as decisões que Jessica sempre receou confrontar. Passamos um bom tempo estabelecendo as novas dinâmicas da temporada e reintroduzindo estas discussões morais, com os primeiros episódios movendo a trama tão lentamente quanto sempre se criticou em relação às séries deste universo.


O próprio primeiro episódio não traz muitos elementos cativantes, e deixa que o gancho dos momentos finais faça o serviço de atiçar o espectador. Nos episódios seguintes, a longa duração é preenchida por núcleos narrativos maçantes e pouco produtivos para o ritmo desta temporada. Jeri, embora continue contando com a boa performance de Carrie-Anne Moss, protagoniza dramas de pouca relevância para o andamento da trama principal nestes primeiros episódios. E Malcolm (Eka Darville) confrontando a frieza e o cinismo de seu novo trabalho, também soa como uma trama secundária dispensável, apesar de contribuir para as discussões temáticas da série.

Percebe-se, claramente, a necessidade de cumprir a duração do episódio, e acaba-se fazendo isso com desenvolvimentos esquecíveis que limitam o engajamento do espectador. AInda que estas sub-tramas possam ter ligações palpáveis com as reflexões mais abrangentes da série, estão longe de conseguir se adequar ao molde narrativo detetivesco, que preza pela tensão, e que realmente faz com que Jessica Jones seja uma série de super-herói distinta o suficiente para se valer a pena acompanhar, nos dias de hoje.

Quando estamos propriamente acompanhando Jessica em suas investigações, no entanto, Krysten Ritter continua cativante com a personalidade antipática e pessimista desta protagonista, e os momentos onde esta personalidade continua sendo enaltecida (como o vídeo viral de Jessica na praia) continuam sendo eficientes para manter o espectador interessado em acompanhá-la, onde quer que a personagem resolva ir. Porém, seus conflitos iniciais com Trish sofrem com a evolução questionável da coadjuvante, e a relação entre as duas amigas raramente consegue atingir o impacto emocional que necessita para conquistar o apreço do público.

Eis que, então, depois destes longos e maçantes episódios, chegamos ao real destaque desta temporada, com Jessica precisando enfrentar um novo vilão cruel e ardiloso, em uma breve retomada da dinâmica apreensiva de perseguição que víamos durante a primeira temporada. Sallinger (Jeremy Bobb) pode não ter o charme ou a imposição de Killgrave, mas serve como uma espécie de Moriarty para o Sherlock Holmes dentro de Jessica Jones, e cria obstáculos suficientes para tornar o meio da temporada, bem mais envolvente e divertido de acompanhar. As tramas paralelas nunca deixam de interferir no ritmo, mas depois de tantas temporadas deste universo dos Defensores, este é um apontamento extremamente cansativo de se continuar levantando.

Com este miolo da temporada, também percebe-se o potencial de Jessica Jones como uma série perfeitamente sustentável fora de suas adequações ao estilo do Universo Marvel. As referências e adaptações continuam (o próprio antagonista também possui uma versão nos quadrinhos), mas estão longe de ser o prato principal da produção durante este terceiro ano. As características e referências “noir”, como a fotografia e trilha sonora sombrias, e a narração deprimente da protagonista, também se mostram eficazes para manter a atmosfera da série consistente e distinguível.

Mas então, uma “grande” reviravolta dá início a reta final da temporada, e todo o ritmo que vinha sendo construído é completamente descartado, entregando mais alguns episódios arrastados e cujo lento desenvolvimento é simplesmente desencorajador. Como se não bastassem as tramas paralelas cansativas, esta temporada ainda preenche sua cota de episódios com dois capítulos inteiros focados na perspectiva de Trish. Na segunda vez, acompanhamos novamente os eventos de episódios anteriores, mas agora com os devidos detalhes necessários para, finalmente, avançar a trama, em uma estratégia que não consegue gratificar o comprometimento e a atenção do espectador.

Chegamos aos grandes embates que fecham a trama principal, e discute-se a necessidade dos sacrifícios que definiriam um “herói”. Neste ponto, apenas torcemos para que Jessica possa finalmente ser deixada em paz, e reconhecida por seus esforços, enquanto acompanhamos as resoluções previsíveis para os coadjuvantes ao seu redor. Ao menos, a temporada se encerra consciente de sua finalidade, e deixa pouco espaço para que os fãs se sintam insatisfeitos com pontas soltas. Se reclamarão dos finais em si, e de suas validades perante toda a trajetória da série até aqui, já é outra história…

A atenção aos dilemas morais continua sendo essencial para tornar esta série, uma produção relevante dentro do cenário. A entrada de um personagem como Erik (Benjamin Walker), por exemplo, que é capaz de “sentir” a “maldade” dentro das pessoas, proporciona argumentos interessantes como a definição de moralidade baseando-se em remorso ou consciência.  E nunca deixamos de empatizar com a protagonista em sua cansativa jornada para ser uma “heroína” (ainda que ela nunca queira admitir seus esforços).

Mas se já não estava perfeitamente claro antes, esta terceira temporada de Jessica Jones só me faz repetir que todo o potencial perceptível nestas séries dos Defensores seria infinitamente melhor aproveitado em um formato mais conciso, com menos episódios e tramas mais objetivas que possam manter um melhor ritmo, sem sacrificar a evolução de seus personagens ao longo do caminho. Infelizmente, é um final pouco memorável para um projeto que carregava tanta expectativa, mas se as negociações e contratos permitirem, quem sabe não poderemos voltar a ver esta protagonista em uma produção que possa aproveitá-la com menos redundância.