Lançado no ano passado, o streaming do DC Universe vem impressionando por sua versatilidade no conteúdo original. Titãs é uma reimaginação sombria e violenta do grupo de jovens heróis, enquanto Patrulha do Destino mergulha em um surrealismo que apenas Twin Peaks e Legion haviam ousado tocar, ao passo em que diversas animações da DC também brincam com tons diferentes. Eis que Monstro do Pântano faz sua estreia para ir de cabeça no terror e gore, como poucas produções de quadrinhos já se arriscaram, e os resultados são bem positivos.

O que torna surpreendente e revoltante o fato de que o streaming já tenha cancelado Monstro do Pântano após apenas um episódio. É algo muito raro de se acontecer na indústria, e que revela algum tipo de problema na produção da série, que justificou a decisão através das famosas “diferenças criativas”, e já colocou a série no interesse de emissoras como HBO e a própria CW – que já ostenta o Arrowverso.

E a decisão de cancelar Monstro do Pântano faria sentido se a série fosse ruim, e não é o caso. O piloto exibido na semana passada pela DC Universe impressiona pela atmosfera sombria e a abordagem violenta e repulsiva para algumas de suas cenas mais pesadas, o que representa uma visão fiel e fantasmagórica para o material original; que sempre foi mais adulto e perturbador do que a habitual revista de super-heróis.


É o toque poderíamos esperar de tantos nomes do terror envolvidos em Monstro do Pântano. O primeiro episódio traz direção de Len Wiseman (da franquia Anjos da Noite), roteiro de Gary Dauberman e produção de James Wan (ambos da franquia de sucesso Invocação do Mal), e tudo isso é sentido em sua atmosfera. Através de uma fotografia soturna, Wiseman captura o clima de incerteza e mistério dos pântanos da Louisiana, já começando com uma sequência de abertura tensa e que apresenta o misterioso protagonista – atacando um grupo perdido em um barco.

Mas a grande sequência do episódio, e a que define o tom de toda a série – e também posso imaginar executivos de TV se apavorando – é puro terror. Quando Abby e Alec estão no necrotério examinando o corpo de uma das vítimas, ela se levanta graças ao vírus misterioso, e a substância destroça o corpo completamente e assume uma vida nova. É algo que visualmente só pode ser comparado à revelação da criatura em O Enigma do Outro Mundo, onde vemos raízes retorcidas no meio de um tórax, uma cabeça pendurada e vísceras por toda a parte – tudo realizado com impressionantes efeitos práticos, sem CGI, e que certamente deixou John Carpenter muito orgulhoso.

Não só do terror o piloto de Monstro do Pântano se sustentou, claro. Os dois protagonistas humanos são charmosos e interessantes. A Abby Arcane de Crystal Reed ganha maior tempo de cena e também um estabelecimento de arco mais amplo, e a atriz impressiona pelo carisma e presença de Abby, bem expostos em sua introdução em uma missão humanitária na África do Sul. No outro polo, Andy Bean faz de Alec Holland um protagonista curioso, cuja empolgação quase infantil se refletem no figurino brega de seu personagem, que usa bermuda e chinelo em um cenário soturno e dominado por personagens bem vestidos. A química entre Bean e Reed é um dos pontos altos aqui, e fico instigado para ver como Dauberman seguirá com essa relação.

O que realmente ainda não pegou em Monstro do Pântano foi o mistério central. A infecção misteriosa que afetou a pequena Susie ainda não se mostrou muito fascinante, e é justamente por isso que torço pela continuidade da da série, que pode desenvolver esse mistério de forma mais empolgante. O próprio monstro titular, que tem a forma de Derek Mears, também não teve o merecido destaque que poderíamos esperar.

O piloto de Monstro do Pântano é mais uma peça fascinante e bem produzida do catálogo do DC Universe. Merece créditos por apostar no terror pesado e em cenas que jamais veríamos no gênero em uma tela de cinema, e definitivamente não merece o cancelamento repentino.