Do título à execução, NOS4A2 não é um projeto convencional. Divulgado como uma “história de vampiros diferente”, há na verdade poucas maneiras para descrever como o novo seriado baseado no livro de Joe Hill é uma criatura distinta. Hill, que é filho do notório romancista Stephen King, já possui obras adaptadas para a televisão e o cinema, como a cancelada Locke and Key e o terror com Daniel Radcliffe Horns, mas NOS4A2 – aqui no Brasil com o subtítulo explanatório Nosferatu – pode muito bem representar o pulo do gato para o autor na passagem para as mídias audiovisuais.

Após assistir ao episódio piloto, a convite da AMC, há ainda muito a ser explicado. Estruturado de forma que instiga, mas não mastiga, o primeiro capítulo da série criada por Jami O’Brien nos apresenta a duas personagens paralelas que inevitavelmente se convergirão no futuro: o vampiro ancião Charlie Manx (Zachary Quinto, roubando a cena), que alicia crianças para levá-las à misteriosa “Terra do Natal”, e a garota adolescente Vic McQueen (a surpreendente Ashleigh Cummings), que descobre pouco a pouco possuir poderes sobrenaturais.

O primeiro risco corrido por NOS4A2 está na diferença dos registros empregados para as duas linhas narrativas paralelas. Enquanto o núcleo do vampiro Manx assume desde o primeiro instante um estilo cartunesco que casa com seu espírito “natalino”, contando a caracterização exagerada que dá a Zachary Quinto um semblante de Ebenezer Scrooge, o núcleo de Vic não poderia ser mais diferente, aparentando como um drama indie com câmera na mão, closes nos rostos dos atores e uma montagem mais experimental.


Quinto, que estava presente para a exibição do episódio, ressaltou que essa disparidade tonal teria sido um dos elementos que o atraíram ao projeto de adaptação proposto por O’Brien, misturando tendências da televisão americana contemporânea em um ensopado original. A mistura de mistério sobrenatural com drama de relacionamentos é, de fato, extremamente instigante e sugere a existência de grandes riscos pessoais para suas personagens. Além do mais, o pé na realidade é essencial para capturar tamanha empatia por elas.

Um dos pontos altos do capítulo de estreia está justamente na caracterização nuançada do mundo pessoal de Vic, tanto que diversos estereótipos comuns ao gênero não são nem avistados aqui. A garota é filha de um casal problemático que poderia ser facilmente reduzido ao clichê do white trash, mas que é retratado com afeto. Os pais de aparência jovem, não tão diferentes da própria filha, parecem viver uma série de arrependimentos: o pai (Ebon Moss-Bachrach) é um alcóolatra irremediável, e a mãe (Virginia Kull) largou oportunidades e agora trabalha como faxineira para uma antiga amiga.

Embora Vic encare também a iminência de uma ameaça sobrenatural que ainda não conhece, o episódio trata de seus problemas familiares com maior intensidade dramática. A câmera da diretora Kari Skogland (The Handmaid’s Tale) captura sua perspectiva com intimidade, seja durante um flerte com um garoto ou quando vê sua mãe escondendo hematomas provocados após uma briga com o marido. A discussão que se sucede de Vic com seu pai, por sua vez, passa longe das frases de efeito e o melodrama comum a tantas séries dramáticas, e prioriza a sutileza de seus atores para criar uma relação problemática que soe verossímil.

Enquanto isso, os elementos sobrenaturais não ficam exatamente de escanteio, mas tem menos tempo nesse piloto a fim de preservar o mistério. Nada, inclusive, é explicado através de diálogos expositivos. A ponte teleportadora misteriosa que apenas Vic enxerga no meio da floresta ou sua conexão telepática com Charlie Manx são pontos extremamente promissores que o espectador assimila junto da protagonista, assim como a participação paralela da adivinha Maggie (Jahkara Smith), que investiga o desaparecimento de um garoto sequestrado por Manx com a ajuda de uma bolsa mágica de scrabble – aquele jogo de montar palavras, ainda não diz exatamente a que veio.

Fazendo jus à definição de “história de vampiros diferente”, a natureza dos poderes de Charlie Manx também se prova misteriosa. Pode-se inferir que seu vampirismo se dá não através da típica mordida no pescoço, mas sim de seu Rolls-Royce – NOS4A2 sendo a placa do carro, é claro. Como ele absorve a energia vital das crianças através de um carro é um mistério a par de sua origem, assim como o destino das crianças que sequestra – o garoto sequestrado no piloto não morre, apenas se transforma. O ator inclusive sugeriu na coletiva que a personagem possui um compasso moral por trás de suas abduções.

A única certeza aqui é a de que vem muita história pela frente, talvez com o mesmo ritmo metódico adotado por esta estreia. Quinto disse à imprensa que esta primeira temporada de NOS4A2 adaptará cerca de um terço do livro de Hill apenas, e que a narrativa se estende por anos. Como nada é garantido hoje em dia na televisão, espero que o seriado tenha ao menos tempo de provar seus conceitos e capturar um público em sua teia lentamente construída, mas apenas o desempenho do resto da temporada e os esforços da AMC em promovê-la dirão. Seu início, pelo menos, é incrivelmente promissor.