Adaptação do seriado mexicano Niño Santo, a produção original Netflix O Escolhido traz sua história de ocultismo ao Pantanal, focada em um grupo de profissionais de saúde que vai à cidade fictícia de Aguazul e lá descobre uma seita, formada em torno de um misterioso homem conhecido, é claro, como O Escolhido. O sujeito, interpretado por Renan Tenca – que ainda não dá as caras neste piloto -, tem tudo para ser um falso profeta, a não ser pelo fato de que ninguém no local parece adoecer, atribuindo sua saúde aos dons do adorado.

A estranha situação não só frustra a missão do grupo de médicos, liderados por Lúcia (Paloma Bernardi), que possui um passado no local, em vacinar a população, como coloca suas crenças em cheque e traz seus antigos traumas à tona. O episódio piloto, dirigido por Michel Tikhomiroff, é de uma progressão paciente, sem a pressa de revelar sua premissa sedutora até os momentos finais, mas já sinaliza que a série adaptada por Carolina Munhóz e Raphael Draccon quer fugir dos maniqueísmos encontrados em outras obras de premissa similar.

Começando pela inclusão de flashbacks que, embora executados de forma um tanto cafona sob um filtro monocromático, desenvolvem a psicologia da protagonista Lúcia e estabelecem com eficiência o porquê de fazer tanta questão de vacinar a população de Aguazul – e, consequentemente, seu dilema entre salvar pessoas e respeitar suas vontades individuais. Diante de uma situação na qual uma religião é a barreira para o cuidado médico, Lúcia é assombrada pela morte do pai, falecido em uma ocasião similar – aparentemente, os episódios seguintes irão explorar os colegas Damião (Pedro Caetano) e Enzo (Guto Szuster).


Do outro lado, a população de Aguazul não consta como a típica massa de hostis com tochas e forquilhas, mesmo que recebam os visitantes indesejados com agressividade. Isso se dá por conta da caracterização deste povoado, que vestem-se comumente e, apesar de gritarem frases caricatas como “bendito seja o Escolhido!”, não parecem ser simples fantoches. Os desentendimentos entre Mateus (Mariano Mattos Martins) e Zulmira (Tuna Dwek), dois dos representantes locais, reforçam não se tratar de meros lacaios sem voz própria.

Ainda assim, persiste uma atmosfera de incertezas, e a direção de Tikhomiroff tem seu ponto forte na administração da tensão que cresce conforme o grupo de médicos percebe pouco a pouco que há muito mais por trás daquela cidade. A escolha por locações iluminadas e a céu aberto é arriscada considerando que o objetivo aqui é um tom mais obscuro, mas a boa direção de arte, que planta avisos alarmantes no caminho dos protagonistas, e a trilha musical, que prioriza a atmosfera com percussões baixas e repetitivas, mantém o suspense.

O que impede O Escolhido de impressionar, ao menos em seu primeiro capítulo, são os diálogos pouco naturais, que por sua vez prejudicam algumas das interpretações. Enquanto os dois outros médicos que acompanham a protagonista, Damião e Enzo, resistem à artificialidade do texto e por vezes acrescentam verve cômica a ele, como na entrega da piada em andamento com o termo “repito” e outros comentários autoconscientes, Lúcia se expressa com um didatismo que parece subestimar o entendimento do público quanto ao seu arco.

Isso surge especialmente quando a protagonista explana, em voz alta e sem qualquer espontaneidade, as marcas de seu caráter imponente, algo já bastante evidente em suas ações, ou quando discute superficialmente o sexismo que sofre no meio da medicina, como se ao espectador não houvesse o mínimo conhecimento do que se trata – as intenções são boas, mas o episódio não explora ou aprofunda estas questões, só as aponta, e não é capaz de incorporá-las de forma orgânica durante a jornada dos três médicos ao povoado de Aguazul.

Com uma primeira temporada de apenas seis episódios, O Escolhido corre esse risco de não conseguir aprofundar diversos aspectos de sua narrativa ambiciosa e que, levando em conta o chocante gancho ao fim do piloto, tem a intenção de renovar expectativas a cada capítulo. Uma jornada curta com gosto de “quero mais” será sempre uma melhor alternativa do que outra que se alonga e perde o interesse de seu público, e talvez o seriado consiga ao menos encerrar-se com o espectador ainda instigado por sua teia de ocultismo e traumas pessoais.

Assim como a ida de Lúcia, Damião e Enzo a Aguazul, espero que O Escolhido seja uma viagem com ao menos algum tipo de retorno.