Depois de se consagrar como um fenômeno dentro do acervo da Netflix, La Casa de Papel retorna com sua terceira parte, desta vez como uma produção da própria plataforma de streaming.

 Talvez o impacto de seu ciclo original possa ter se perdido um pouco em meio à esta extensão narrativa, uma vez que, dado o sucesso internacional da produção, é óbvio que a decisão de estender esta história além de sua proposta original é majoritariamente comercial (apenas mais um dia comum no cenário televisivo). Ainda assim, os fãs conquistados por este intrépido grupo de ladrões não deve se sentir fatigado tão cedo, e a nova leva de episódios demonstra que a série ainda possui um terreno excitante para se explorar por mais algum tempo. 

Quando foi anunciada esta continuação, me lembrei da época em que a série Prison Break precisou ir além de sua dinâmica original (o plano para escapar da cadeia) e prosseguir com a história de seus personagens em novas situações, agora focando em sua fuga e na perseguição policial. La Casa de Papel, felizmente, deixou de lado esta ideia para tentar entregar uma trama mais semelhante a que conquistou seu público, e embora certos momentos não consigam escapar do típico “mais do mesmo”, o tema político que engloba as atitudes do Professor (Álvaro Morte) consegue elevar a escala deste novo roubo, bem como seus riscos e consequências. 


Entre as duas primeiras partes, já se percebia uma gradual perda de sutileza narrativa ao longo da trama. Começamos com um típico golpe e uma equipe carismática, seguimos com um jogo de negociações policiais que acaba se mesclando à tensões amorosas, para então chegarmos à uma moto avançando freneticamente em direção à porta da Casa da Moeda enquanto tiros são disparados por todos os lados. A atmosfera comum à histórias de golpe vai sendo cada vez mais incrementada pelo tom melodramático e pelas reviravoltas mirabolantes, consistentemente capturando a atenção do espectador conforme este vai se afeiçoando aos ladrões. Cá está a receita para o sucesso internacional. 

Sinto que as abordagens empregadas tanto pela série em si, quanto pela Netflix em suas reedições das primeiras partes, poderiam render um texto próprio analisando tais estratégias de roteiro e montagem. O que muitos acabam chamando de “novelesco”, é frequentemente chamado (pelos mais velhos) de “folhetim”, e aponta muito bem os aspectos que fazem La Casa de Papel se tornar uma série tão envolvente. 

A narrativa sequenciada, com suas viradas e ganchos chamativos, é construída com agilidade, ao invés de estender os desenvolvimentos de seus núcleos por mais do que alguns episódios. As situações se alteram drasticamente, e os personagens se vêem em posições de conflito em um ritmo acelerado. Adicione personalidades expressivas e facilmente assimiláveis para cada personagem, com um toque de sensualidade complementando vários episódios, e estamos mais vez falando da tal receita para um sucesso abrangente. 

Uma das principais diferenças desta terceira parte de La Casa de Papel, no entanto, é justamente a adequação da série ao formato seriado proposto pela Netflix em suas reedições dos capítulos anteriores. As primeiras partes (com menos episódios, porém mais longos do que se vê na plataforma) foram alteradas para que oferecessem uma experiência mais engajante para o espectador, e a grande maioria dos episódios acabava deixando o público aflito pela continuação da história justamente por conta desta montagem estratégica. 

Nesta continuação, a abordagem de “folhetim” continua sendo muito prezada, mas muitos espectadores podem sentir um certo estranhamento com o formato de edição, bem como irão, sem dúvidas, notar o aumento orçamentário da série (que começa sua nova temporada com uma viagem de uma ilha paradisíaca à um ponto turístico na Tailândia). Mas aqueles que se empolgavam com o jogo de negociações podem acabar se frustrando ao perceber esta Parte 3 não está tão interessada em tais minúcias, e prefere muito mais apostar em sua escala. 

Se a história parecia satisfatoriamente concluída depois das duas primeiras partes de La Casa de Papel, esta continuação se debruça sobre a trama revolucionária que permeava os fundos do golpe à Casa da Moeda, retomando o espírito de resistência idealizado pelo Professor e por Berlim (Pedro Alonso). A nova leva de episódios já começa com um “chamado” à população para que apoiem a nova empreitada dos ladrões vestidos de Dalí, e direciona seus desenvolvimentos para construir argumentos mais incisivos, ainda que pouco profundos (Novamente, poderia-se gerar um texto inteiro só para este aspecto da série). 

A música que acompanha os momentos mais impactantes da série, “Bella Ciao”, é conhecida por ter se tornado um símbolo contra o Fascismo na Itália. O Professor e sua gangue não enfrentam um inimigo tão explícito quanto Mussolini, mas se vêem diante de um sistema que julgam ser livre apenas até onde lhe convém. Com as sutilezas ficando cada vez mais para trás, esta temporada retrata escancaradamente a tortura empregada pelas autoridades que perseguem o grupo, bem com a falta de moralidade dos policiais, ainda mais gritante do que se trabalhava nas temporadas anteriores. 

E embora a temporada se encerre com ganchos que indicam conflitos ainda mais expressivos para os próximos episódios (o que, é claro, empolgará qualquer espectador), a trama revolucionária de La Casa de Papel ainda precisa de alguns pontos melhor elaborados para avançar sua trama por este caminho que indica querer seguir. Não trata-se de visão política ou de ideologia em si, mas da maneira como a série procura produzir as epifanias propostas ao espectador. 

Sacrifícios de protagonistas e atos imorais de antagonistas funcionam tão bem quanto sempre funcionaram para tal efeito, mas a série tem potencial para estabelecer uma discussão ainda mais memorável se souber ilustrar seus pontos com mais sagacidade. E para tanto, não precisaria sacrificar o seu drama mirabolante que tanto agrada o público, uma vez que estes novos episódios continuam aproveitando bem as dinâmicas estabelecidas (apresentando, inclusive, novos personagens para revigorá-las). 

Em uma outra interpretação (que para mim, soa ainda mais produtiva), La Casa de Papel nada mais é do que uma história de piratas, com todas as suas impulsividades e petulâncias, mas principalmente, com o famoso ideal de liberdade que marcava muitas de suas lendas. Sendo assim, não haveria protagonista melhor para a série do que Tokio (Úrsula Corberó), que encapsula muitas destas características e acaba servindo como o fator que gera diversas das situações para a série. Os piratas que nos cativaram estão de volta, e enquanto não caírem atirando, continuará sendo empolgante acompanhá-los a cada empreitada.