Desprovida de qualquer originalidade, a nova série de ficção científica da Netflix, Outra Vida, é um exercício de banalização do gênero que dificilmente agradará qualquer espectador acostumado às obras das quais esta produção se apropria de vários elementos. 

Não precisava nem ler a sinopse para já me sentir atraído pela série. Apenas a oportunidade de ver Katee Sackhoff de volta ao espaço já é capaz de animar qualquer fã saudoso de “Battlestar Galactica”. O resultado desta empreitada, no entanto, está bem longe de ser tão memorável quanto a jornada de Starbuck e seus companheiros, entregando uma narrativa que poderia ser o resultado de um computador tentando formar uma produção partir de algoritmos e obras populares do gênero de ficção científica. 

Outra vida começa de forma acelerada. Não deixa muito espaço para grandes contextualizações ou vislumbres que possam instigar o espectador a conhecer este mundo futurístico com entusiasmo. Niko (Sackhoff) logo é convocada para assumir a liderança de uma missão que deve encontrar a fonte de um enorme objeto mandado por uma suposta raça alienígena, que coincidentemente está sendo estudado por seu marido. Deixa-se claro que a personagem possui seus traumas com a função de comando, e somos apresentados à uma tripulação cujas personalidades são (ao menos, de início) superficiais demais para criar qualquer afeição. 


A série prossegue então com um festival de elementos facilmente reconhecíveis em outras obras do gênero, e não o faz de forma referencial ou subversiva, construindo a própria história como se o processo fosse semelhante a costurar uma colcha de retalhos. No entanto, comprova-se (mais uma vez) que quantidade não é o mesmo que qualidade, e Outra Vida acaba desperdiçando o enorme palanque que possui, ao demonstrar repetidamente que não tem nada a dizer. 

Em uma cena onde os cientistas da Terra estão discutindo o objeto extraterrestre, há uma fala em que se diz: “Precisamos olhar além do convencional, e não sabemos como fazer isso”. Este desabafo da personagem em questão poderia ser perfeitamente associado aos roteiristas da série em si, que propõem cenários ambiciosos e diversos, mas sem qualquer inventividade para imaginá-los de forma cativante, ou sequer intrigante para o espectador.

Se não bastassem as várias apropriações, a série também não parece ter o mesmo apreço de outras obras ambiciosas por apresentar uma credibilidade em seus desenvolvimentos, e por se esforçar em discutir suas situações hipotéticas, como aterrissagens em planetas desconhecidos e interações alienígenas. Os dois maiores e mais recentes exemplos para ilustrar este ponto talvez sejam os filmes “A Chegada” (na questão das interações) e “Aniquilação” (em relação a ambientes absurdos), ambas sendo obras que procuram fugir de uma abordagem convencional. 

 Outra Vida está tão interessada em avançar sua trama rapidamente para não perder o interesse do espectador, que não se importa com as incoerências das atitudes de seus personagens, como uma das integrantes da tripulação retirando seu capacete em um planeta alienígena após ver que este possui oxigênio suficiente. Até mesmo a dinâmica da tripulação em si já é plenamente questionável, uma vez que as brigas e confusões não parecem nem um pouco condizentes com a importância desta missão para toda a raça humana. 

Eis que enquanto a tripulação espacial está lidando com sua própria reciclagem de “Alien – O Oitavo Passageiro”, o marido de Niko, Erik (Justin Chatwin) e seus companheiros estão progredindo suas investigações em cenas que remetem a “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”. Seguindo mais clichês, o personagem tem, não uma, mas duas epifanias acidentais que exigem a suspensão da descrença de qualquer espectador pela maneira como se chegou a tais conclusões. 

Outra Vida desemboca em um modelo procedural desgastante que envolve um típico “episódio de sonho” e explorações nos moldes de “Star Trek”, sempre tentando construir atmosferas de tensão que variam entre a ineficiência e a mera competência. O mesmo pode ser dito sobre a direção da série, que não merece tantas críticas quanto o roteiro, mas que nunca deixa de ser apenas pragmática em suas execuções. 

Com exceção de Niko e William (Samuel Anderson), demora muito para que o espectador possa se apegar a qualquer personagem desta conturbada tripulação. Pessoalmente, só me vi torcendo pela sobrevivência de coadjuvantes durante o sétimo episódio, que há de se notar, é justamente quando a temporada vai deixando de lado suas tramas procedurais para avançar a história de forma mais contínua e relevante. As frases de efeito proferidas por vários personagens ressoam pouco em seus contextos mal-trabalhados, e a rotatividade de certos membros da equipe também não ajuda a desenvolver um engajamento produtivo para a série. 

Visualmente, nota-se a pragmaticidade que citei sobre a direção, aproveitando uma fotografia distinguível o suficiente para se mascarar partes do baixo orçamento da série. Em relação aos efeitos especiais, no entanto, vários momentos de Outra Vida poderiam ser comparados com as produções da década passada, embora até as séries do Syfy muitas vezes apresentassem mais elegância ou inventividade em suas soluções visuais do que foi visto por aqui (e isso por que o canal nunca foi conhecido por sua sutileza). 

Seja no design de seres e ambientes alienígenas, ou na maneira como aborda suas discussões sociais e comportamentais, a nova série não traz nada que possa ser considerado relevante perto de suas óbvias comparações. Em sua conclusão, esta tamanha falta de inspiração continua bem perceptível, deixando ganchos narrativos que elevariam a escala e os riscos desta trama, mas sem qualquer aspecto realmente estimulante que justificaria a essencialidade deste universo e sua história (a não ser, talvez, pelas consequências envolvendo inteligência artificial).   

Outra Vida é o tipo de série que se tornará ainda mais esquecível quando começar a “guerra dos streamings” que já bate na porta dos espectadores. Produções como a adaptação de “O Problema dos Três Corpos” ou a série derivada de “Duna” poderão tornar o nicho do gênero de ficção científica ainda mais produtivo (e lucrativo), enquanto séries como o remake da Netflix de “Perdidos no Espaço” dará conta de agradar o público de forma mais descompromissada e casual. Espero então, que um esforço tão maquinal e genérico como este se torne cada vez mais raro.