Com um capítulo que serviria perfeitamente como um final digno para a trajetória da série, Sob Pressão encerra sua terceira temporada comprovando o potencial (ainda majoritariamente ignorado) das produções da Globo para o seu serviço de streaming. 

Sob Pressão anunciou esta temporada como sendo sua última, mas devido à boa recepção tanto do público, quanto da crítica, foi confirmado que a Globo já estaria preparando um quarto ano para a série que aborda o cotidiano turbulento dos médicos em hospitais públicos. A decisão não chega a ser uma surpresa. Além da série manter um nível constante de qualidade, sua proposta não somente é abrangente, como também foi bem executada pelos roteiristas para equilibrar seus dois pontos principais, que naturalmente são colocados em evidência durante este último episódio. 

Protagonizada por Marjorie Estiano e Júlio Andrade, Sob Pressão sempre se prestou a construir representações produtivas sobre aspectos do nosso cenário nacional, enaltecendo as dificuldades encaradas por estes médicos diante de dificuldades que muitos espectadores sequer chegam a imaginar. Ao lado destes “casos-da-semana” representativos, também acompanhamos o desenvolvimento da relação entre os dois protagonistas, passando pelos altos e baixos que cativam o espectador, tornando a série emocionalmente relacionável. 


O episódio começa com mais um destes casos corriqueiros, mas ao invés de deixar o (suposto) último capítulo ser marcado por grandes eventos como o caos das milícias ou escândalos de corrupção, o caso acaba envolvendo uma tragédia horrenda, gerada a partir de uma mera desavença em um estacionamento comum. Mais do que qualquer uma das cirurgias mais chamativas e repletas de tensão, a trama em questão evidencia o aspecto rotineiro que define muito da proposta da série. 

No entanto, o episódio acaba se dividindo em duas partes quase completamente isoladas, dedicando sua segunda metade ao outro grande foco da proposta: A relação de Evandro e Carolina. A divisão restringe o impacto do “caso da semana”, deixando a primeira metade se encerrar sem muito desenvolvimento. Mas também proporciona o destaque para as resoluções que o público anseia ver, com o comportamento de Evandro gerando consequências que trazem toda a tensão dramática que passamos a esperar da série. 

Fico com a sensação, inclusive, de que este capítulo final foi pensado de forma eficiente e prática, com a série podendo dar todas as voltas e reviravoltas que quisesse, mas inevitavelmente se encerrando sob estas circunstâncias. O cenário que marca o primeiro episódio (Com Evandro operando sua esposa) se inverte neste final, e Carolina assume a cirurgia de seu (ex) marido, deixando o espectador preocupado que o trágico resultado do começo da série possa se repetir. 

Para seguir com esta trama e proporcionar o espaço para tais resoluções no relacionamento dos protagonistas, o episódio não perde tempo ao tirar Diana (Ana Flávia Cavalcanti) de cena de forma rápida e sucinta. Percebe-se a necessidade dos roteiristas de lidarem com o tempo e a estrutura da série, em um trabalho que não segue muitas das convenções de séries americanas neste sentido. 

Entre algumas (no que era proposto) últimas interações entre os personagens do hospital, também se dedica uma cena a velha discussão sobre a religião de Carolina, que depois de ter feito tudo que podia através da medicina, apazigua seu desespero rezando pela vida de Evandro. O episódio acaba servindo como um apanhado destes vários elementos que permearam a série, e cumpre tal função com relativa eficiência, ainda que não tenha espaço suficiente para fazê-lo de outra forma que não apenas pontualmente. 

E com Evandro escapando do trágico destino que lhe aguardava, a série se encerra entregando finais gratificantes para o espectador. Seria difícil imaginar que estes personagens tão atrelados aos seus ambientes poderiam seguir qualquer trajeto fora de sua profissão, então após passar algum tempo em uma casa de reabilitação, Evandro vai encontrar Carolina, que está servindo como médica pelo Brasil afora, e ambos acabam encontrando um merecido recomeço, mas sempre mantendo-se fiéis aos propósitos que os definem. 

Seria uma conclusão perfeitamente plausível para estes personagens, ainda que muitos dos elementos que cercavam os protagonistas tenham ficado pelo meio do caminho. Mas com a notícia de uma nova temporada confirmada, nos resta especular sobre os rumos para os quais os roteiristas pretendem levar a proposta de Sob Pressão. Retornaríamos ao hospital para retomar as situações e relações que foram deixadas por lá? Ou seguiríamos com os protagonistas em novos cenários, com novas possibilidades para diferentes representações? De qualquer forma, duvido que acompanhar o heroísmo e a tensão destas histórias possa deixar de ser emocionante.