Tomando uma certa distância de suas abordagens mais polêmicas, a terceira temporada de Cara Gente Branca indica que a série da Netflix só terá o tamanho de sua relevância realmente compreendido após sua conclusão, mas acompanhar seu complexo desenvolvimento, em tempo real, nunca deixa de ser uma experiência indiscutivelmente interessante. 

No início, Cara Gente Branca chamou a atenção do público e da crítica por sua proposta provocativa. A ideia era evidenciar debates e questões políticas que inundavam as redes sociais dos EUA e ao redor do mundo, deixando seus discursos e reflexões perfeitamente claros para o espectador. Após cumprir esta função, tivemos uma segunda temporada que realmente merece destaque diante de várias comparações, com a série dispondo-se a encarar as consequências e aprofundamentos causados pelas questões que levantou no primeiro ano. 

Em um dos episódios da segunda temporada, um personagem diz que “se tudo parece confuso demais, provavelmente é por que você está vendo as coisas mais claramente”. A frase serve como um ponto de virada para a maneira como interpretamos a protagonista, Sam (Logan Browning), e como a própria personagem interpreta o contexto ao seu redor. Porém, mais do que isso, poderíamos comparar esta trajetória interpretativa da protagonista com o desenvolvimento reflexivo da série em si, que parece ter se deparado com temas e discussões intrincadas demais para simplesmente continuar apontando, denunciando e expondo seus pensamentos de forma tão aguçada. 


O grande gancho deixado pelo último episódio do segundo ano ficou por conta de Giancarlo Esposito, que trouxe mais revelações sobre a misteriosa sociedade secreta composta por negros em posições de poder, cujas motivações e influências vão sendo melhor trabalhadas ao longo da temporada. O personagem de Esposito também adiciona mais algumas camadas ao jogo metalinguístico da série (que vai se tornando um dos aspectos mais intrigantes da produção) com sua dica à protagonista: “Mate o Narrador”. 

Nos primeiros episódios, esta nova temporada ainda tira sarro da ideia de que “terceiras temporadas da Netflix” são sempre previsíveis e repetitivas. Determinada a não se encaixar nesse padrão,  a série deixa de lado seus episódios focados em personagens específicos para abordar seus diversos núcleos narrativos de forma mais abrangente. Além disso, também não decide apresentar novos conflitos tão impactantes, preferindo deixar que o ritmo de suas tramas seja ditado com mais naturalidade (o que pode desencorajar alguns espectadores). 

Sam decidiu deixar de lado seu envolvimento com o programa de rádio que criou para denunciar o “racismo nosso de cada dia”. A personagem agora se encontra em uma fase de re-descobrimento, tentando encontrar propósito em seu trabalho documental que, de início, mais parece uma sequências de imagens aleatórias e capturadas descontraidamente. De forma semelhante, esta terceira temporada também acaba preenchendo boa parte de seu tempo com acompanhamentos rotineiros de seus personagens, como se estivesse tentando reformular o tom de seus discursos ao distanciar-se das tensões dos anos anteriores. 

Assim como a protagonista, Cara Gente Branca parece estar confrontando a ideia de ser definida por manifestações monotemáticas. Sam não quer se tornar uma “figura” tão restrita e simbólica como Rikki Carter (a personagem de Tessa Thompson), assim com a série em si também não parece estar satisfeita em apenas ser lembrada por sua abordagem provocativa, uma vez que possui personagens cujas identidades vão além de suas convicções e ideais, ou seus papéis representativos dentro de alguma polêmica.

Quase todos os personagens acabam se encontrando em novas circunstâncias que exigem reformulações pessoais. Reggie (Marque Richardson) está longe de ser o mesmo ativista obstinado que era, agora que encontrou um meio de se dedicar ao seu desenvolvimento pessoal. Troy (Brandon P Bell) se mostra ainda mais alterado, agora que está tentando encontrar sua voz cômica com os membros da revista Pastiche, mas acaba percebendo os perigos e malefícios de uma “sátira segura”. 

Coco (Antoinette Robertson), por sua vez, continua sendo tão ambiciosa como sempre foi, mas o peso de cada experiência continua alterando a maneira como a personagem encara suas próprias ambições e expectativas (a personagem imaginária que a acompanha é uma produtiva representação visual deste desenvolvimento). De forma descomplicada, esta temporada dedica boa parte de seu tempo a apenas acompanhar seus personagens em suas vidas universitárias. 

Considerando todo o material político que poderia ser discutido por aqui (e que muitos poderiam esperar que fosse discutido, depois da segunda temporada), chega a ser deslumbrante ver como Cara Gente Branca acaba incluindo suas reflexões de forma muito mais sutil e subjetiva, desta vez. Pelo menos, até chegarmos à reta final deste terceiro volume, que decide aproveitar o momento de auto-reflexão para retratar questões envolvendo possíveis ignorâncias e descasos dentro do próprio grupo. A questão destes últimos episódios, envolvendo o assédio sexual de um professor, acaba não sendo necessariamente a denúncia do assédio em si (como se propõe em diversas obras desta era do #MeToo), mas sim a perspectiva desta comunidade diante de uma acusação a um de seus membros mais admirados. 

O resultado desta jornada acaba sendo um mosaico de tramas menos empolgantes ou intrigantes do que tínhamos, até então. Também não se percebe a mesma excentridade narrativa que permeava as temporadas anteriores da série, deixando de lado as execuções mais mirabolantes ou surrealistas. Os espectadores que acompanhavam Cara Gente Branca justamente pelo choque ou pela provocação também podem se sentir menos impactados ao longo desta nova temporada.

E apesar da conclusão indicar que Sam estaria melhor resolvida para encarar o próximo ano com mais determinação, não tenho certeza de que a série acredita que retomar suas abordagens originais seria o melhor caminho. Ao invés disso, parece que estamos diante de uma produção que está constantemente se esforçando para não ser apenas mais um grito de indignação, ou uma denúncia da realidade em que vivemos. 

E com o mistério da sociedade secreta tomando proporções ainda maiores, a quarta temporada de Cara Gente Branca pode acabar se deparando com questões ainda mais delicadas, abordando o “sistema” (com ares conspiratórios) como o tópico mais relevante a ser discutido, quando se fala de políticas raciais. Agora que a série teve espaço para respirar e refletir, nos resta torcer que os roteiristas estejam tão revigorados quanto a protagonista, e que esta narrativa tenha uma conclusão em mente para o que pretende dizer com suas maquinações metalinguísticas.