Há algum tempo atrás, o talentoso comediante americano Louis C.K. – que caiu em desgraça ao confirmar algumas acusações de assédio moral relacionadas ao seu comportamento ultrajante no ambiente de trabalho, na presença de mulheres que eram suas colegas de profissão – disse em um talk show americano que se, à época, tivessem parado de produzir filmes pornôs em definitivo pelo mundo todo, ainda existiria pornografia para se ver daqui até o fim da humanidade. Exageros à parte, o comediante tem razão ao comentar a relevância e crescimento da pornografia nos últimos trinta anos, ainda mais depois da chegada da internet em nossas vidas cotidianas.

Desta maneira, a Netflix resolveu produzir uma série japonesa, baseada no livro de não-ficção Zenra Kantoku Muranishi Toru Den, escrito por Nobuhiro Motohashi, que nos conta com detalhes explícitos como foi a trajetória de Toru Muranishi, inovador e controverso diretor de filmes adultos no Japão que recebeu a alcunha de o imperador do pornô com suas produções que tiveram início na década de 80, no norte do país, região de Hokkaido. Seu estilo semi documental de gravar cenas de sexo representou um marco nas produções para entretenimento adulto, que perdura até os dias de hoje como um dos gêneros pornográficos mais populares entre o público.

Assim, a série produzida por Masaharu Take nos embarca em uma jornada de dramas e risos, desta vida repleta de grandes ambições na espetacular montanha-russa de emoções que foi o começo da indústria pornográfica na terra do sol nascente.


Em apenas oito episódios – com média de duração de 50 minutos cada um – a provedora mundial via streaming entrega O Diretor Nu, estrelado por Takayuki Yamada como o vendedor – que vai de porta em porta – de enciclopédias na língua inglesa que um dia se tornaria um dos grandes nomes da produção adulta japonesa.

A melhor maneira de se começar a discorrer sobre O Diretor Nu, é citar o próprio e, a complexa e multifacetada atuação de Yamada como Muranishi. Mais do que ser capaz de ir de 0 a 100 km/h, o ator de apenas 35 anos de idade, o fez com nuances cativantes que magnetizam a sua presença na tela. Sem deixar de apresentar alguns momentos de fibra que acabam por elevar ainda mais sua performance na trama.

Logo no primeiro episódio, fica difícil não estabelecer ligações entre sua personagem e Walter White da aclamada série de sucesso Breaking Bad, estrelada por Bryan Cranston. Muito fácil encontrar algumas similaridades entre os primeiros episódios de cada uma das séries. Também é possível descobrir um tanto de Mark Zuckerberg do excepcional A Rede Social, dirigido por David Fincher e escrito por Aaron Sorkin.

Se duvidar desta última parte, apenas acompanhe o desenrolar das situações que acontecem a partir de uma simples frase como – “Você nunca me fez gozar. Nem uma vez!”.

Isto foi mais que o suficiente para dar ignição no íntimo e mente transgressora do inseguro Toru Muranishi, que começou vendendo revistas de conteúdo adulto em várias revistarias na região de Hokkaido, chegando até a capital, Tóquio. Esta ascensão repentina foi transformando o protagonista da história. E, cada vez mais, ao lado de seu companheiro Toshi, interpretado por Shinnosuke Mitsushima – com atuação elétrica e extremamente vigorosa – sobem em uma espiral de loucuras que irá provocar lembranças à la O Lobo de Wall Street de Martin Scorsese.

Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Takayuki Yamada e Shinnosuke Mitsushima provam por A mais B que empreendedorismo e insanidade são faculdades irmãs.

Óbvio que com isso, abra-se espaço para o humor penetrar – literalmente – em O Diretor Nu, algo que a série dispõe de maneira desembaraçada, conseguindo estimular risos e sorrisos ao longo de alguns momentos mais leves dentro da trama. Mesmo nos mais estapafúrdios, como na cena onde Muranishi grava uma encenação sexual dentro de um ônibus escolar rondando um campo de beisebol no terceiro episódio da série original Netflix.

Não é algo simples tentar trazer para a superfície de um filme ou série que aborda tais assuntos, certa leveza como a produção de Masaharu Take consegue fazer. Um bom exemplo para se compreender tal feito seria indicar um comparativo com o surpreendente Magic Mike de 2012, dirigido por Steven Soderbergh. Lá, o cineasta mundialmente conhecido conseguiu equilibrar com brilho a doçura de Channing Tatum com certa rudeza presente no ato teatral de tirar a roupa do striptease masculino.

Sexy sem ser vulgar?! Aqui, ou no longa de Soderbergh isso não existe. Sexy é vulgar, e vice-versa. E, isto é transpassado de maneira muito madura, até com admirável sensibilidade como no memorável quinto episódio que possui a cena mais quente – e põe calor nisso! – da série. A jovem atriz Misato Morita deu um show à parte nestas cenas!

Falando em sensibilidade, um dos pontos altos de O Diretor Nu é a abordagem que o enredo faz, pontuando duas discussões atuais muito relevantes em nossa sociedade. A grosseira e infantiloide percepção masculina das mulheres que se estabelecem como dominantes no ato sexual; e a compreensão prática de como ocorre o consentimento pré-coito na relação homem/mulher.

Morita, que interpreta Megumi – que adota o nome artístico de Kaoru Kuroki – remete à sensualidade debochada e pulso firme de Isabelle Huppert em Elle, excelente obra cinematográfica realizada pelo trocista cineasta holandês Paul Verhoeven no ano de 2016. Não se enganem, pois só há uma pessoa no controle aqui, e esta é a jovem atriz japonesa. Devidamente cirúrgico é o conceito desta série Netflix de que homens se surpreendem – e até se amedrontam – com a sexualidade feminina mais latente, tentando conscientizar a ideia de que, talvez, ela queira te usar mais do que você quer dela.

Já, em relação ao consentimento sexual: é bem didático o parâmetro de comparação que podem ser vistos nos episódios cinco e sete. Notam-se duas abordagens distintas, que geram reações opostas. Pode-se levar daqui uma lição moral útil e necessária para um melhor e mais respeitoso convívio na sociedade.

Infelizmente, entre tais episódios, encontra-se um descartável sexto episódio que mais parece uma aventura no arquipélago havaiano com um pouco de ação e alguns atores americanos. Até tentaram imbuir um pouco de contextualização política com a relação Estados Unidos/Japão que se encontrava meio bamba à época – inclusive citaram o ataque a Pearl Harbor no meio disso tudo. Porém, este capítulo fica mais próximo de um momento qualquer da repetitiva série de televisão Havaí 5.0.

O Diretor Nu também coloca no ringue em seus capítulos derradeiros uma alegoria sobre Davi versus Golias. Sendo ainda mais específico, o choque entre orgânico e celestial, vide os nomes das produtoras rivais: Sapphire e Poseidon – no traduzido, a pedra Safira e o deus da mitologia grega dono dos mares, respectivamente. Tal temática é muito familiar a todos em suas variadas formas narrativas, seja na cultura oriental ou ocidental. No mesmo Japão, o mundialmente celebrado anime Os Cavaleiros do Zodíaco, hoje, com uma nova versão produzida pela Netflix já narrava tais fundamentos com clareza; agora em Hollywood, talvez um dos exemplos mais populares seja a luta entre o “rochoso” Rocky Balboa contra o deus sol Apollo Creed.

Outro aspecto a ser exaltado recai na trilha sonora eclética: temos J-pop, rock, eletrônica, com canções como “Back to Black” de Amy Winehouse a “Dont Dream Its Over” do Crowded House. Também é notável a inspiração nos trabalhos de Trent Reznor e Atticus Ross, duo que encabeça o grupo de hard rock industrial Nine Inch Nails; e Cliff Martinez – ex-baterista da banda funk rock Red Hot Chili Peppers – que produziu trilhas para filmes, como o hipnotizante Drive e o pavoroso O Demônio de Neon, ambos com a assinatura de Nicolas Winding Refn.

Resumindo: música para todo tipo e gosto, assim como a pornografia e seus excêntricos fetiches.

Quem dera todos os materiais produzidos pela Netflix apresentassem tamanho carteado como foi o caso de O Diretor Nu que teve a capacidade de tocar no assunto sexo de maneira tão profunda – pontilhando as ramificações sem esquecer de comentar o bônus e o ônus da indústria de vídeos adultos – e sensível na humanização destes personagens em busca de alguma segurança.

O Diretor Nu - 1ª temporada