Existem tantos elementos diferentes tentando se equilibrar nesta primeira temporada de Wu Assassins, que chega a ser difícil analisar a nova série de artes marciais da Netflix de forma produtiva para o que se imagina ser o público alvo da obra. Mas apesar de estarmos diante de uma distrativa bagunça, raramente esta deixa de ser, também, uma bagunça perfeitamente aproveitável. 

Alguns leitores com certeza devem se frustrar com as críticas que podem ser apontadas por aqui, principalmente levando em consideração a quantidade de atrativos que Wu Assassins apresenta a um grande grupo de espectadores. Tais atrativos, assim como certos méritos da produção, merecem ser destacados logo de cara, começando pela presença de Iko Uwais como o protagonista desta história. Uwais alcançou a fama internacional depois do sucesso de The Raid: Redemption, filme indonésio que se tornou indicação garantida para qualquer fã de artes marciais no cinema. Nesta produção da Netflix, as proezas do ator continuam empolgantes, apesar de não trazerem o mesmo deslumbre que se esperaria. 

Além do protagonista chamativo, ainda temos um inesperado número de rostos conhecidos ao longo da produção. Aqueles que encontrarem a série casualmente, com certeza irão ficar animados com a presença de Katheryn Winnick (a Lagertha de Vikings), Mark Dacascos, Summer Glau e Tommy Flanagan, para citar alguns dos nomes famosos (Winnick, inclusive, assina a direção de um dos episódios). O considerável valor da produção é visível, mesmo que muitos espectadores desacostumados com produções asiáticas possam estranhar a execuções dos efeitos especiais. 


Wu Assassins se propõe a aproveitar técnicas e abordagens comuns entre filmes de artes marciais para contar uma história envolvendo a Tríade de Chinatown, monges milenares, poderes elementais, dramas familiares e ainda inclui brevemente algumas reflexões sobre representatividade sino-americana e conceitos de moralidade. Tudo isso em meio à lutas elaboradamente coreografadas, efeitos especiais descarados e uma trilha sonora que vai do rap americano ao K-Pop sem muito discernimento.  

De início, a série procura manter uma certa fidelidade maior com suas referências cinematográficas asiáticas. Os dois primeiros episódios são dirigidos pelo diretor chinês Stephen Fung, onde pode-se notar as típicas construções narrativas para estabelecer a dinâmica entre os personagens, bem como a introdução e exposição deste universo e de seus aspectos sobrenaturais. O próprio universo da série também traz um emaranhado de elementos variados que evocam comparações desde as séries da Marvel na Netflix, passando por “Aventureiros do Bairro Proibido” até “Highlander”. 

Mas enquanto esta descrição da série pode evidenciar esse grande número de atrativos, integrá-los de forma coesa e produtiva para a narrativa geral já é bem mais complicado para a produção. A maneira como Wu Assassins parece ir se “americanizando” ao longo da temporada é um dos fatores que evidenciam esta ocasional falta de coesão, por exemplo, com diversos elementos constantes da primeira metade sendo deixados de lado ou substituídos conforme nos aproximamos do final. 

No começo, temos uma série sobre um jovem chef cheio de boas intenções. O protagonista descobre ser o (típico) “escolhido” para dar continuidade a uma missão milenar contra forças malignas, utilizando seus novos poderes e as instruções de uma espécie de “mestra espiritual”. Junto a isso, o jovem também precisa lidar com os conflitos da Tríade em sua região, e graças ao poder de assumir as aparências dos tais monges que lhe escolheram, o rosto de Mark Dacascos lhe serve como uma forma de manter o anonimato. É uma dinâmica perfeitamente palpável, comum à diversas outras histórias e que com certeza já é capaz de render episódios por si só. Como drama abrangente para esta dinâmica, temos o conflito pessoal entre o protagonista e seu pai adotivo, que também é o líder da ameaçadora Tríade.

 Sendo assim, não é difícil imaginar como a série foi vendida em sua fase de pré-produção, mas torna-se curioso perceber o quanto boa parte desta proposta inicial vai sendo completamente revirada ao longo da temporada. A tal mestra para de dar seus conselhos, o conflito com o pai logo evolui para outra trama, novos antagonistas vão sendo introduzidos e até mesmo a questão do anonimato deixa de ter qualquer importância. São mudanças que poderiam diferenciar duas temporadas distintas de uma série, mas que acabam sendo freneticamente implementadas dentro uma única narrativa fechada. 

Felizmente, uma vez aceita essa balbúrdia de construções narrativas, o espectador deve se empolgar com as excentricidades do grupo de guerreiros Wu que vão sendo apresentados, ainda que suas caracterizações não sejam tão memoráveis quanto o tom fantástico da série permitiria. O grupo de personagens ao redor do protagonista também tem destaques suficientes para que possamos nos apegar as suas tramas, o que providencia uma diversidade maior para a narrativa geral, além de beneficiar o ritmo de sua progressão. No entanto, a necessidade de se ter dez episódios é um tanto questionável, e gera alguns espaços de desgaste que poderiam ser facilmente contornados durante a segunda metade da temporada. 

Sobre as lutas em si, que com certeza formam o aspecto mais chamativo de Wu Assassins, creio que o trabalho de coreografia e direção não deve necessariamente decepcionar o espectador, mas ao comparar a produção com suas referências cinematográficas contemporâneas, percebe-se uma pragmatismo menos excitante. Uma comparação ainda mais ilustrativa talvez seja a série cancelada “Into the Badlands”, que abraça suas abordagens mais espalhafatosas de forma mais distinguível do que pode ser visto por aqui. Em momento algum, senti que as construções visuais destas lutas foram menos do que eficientes, mas houveram poucos (ainda que dignos de atenção) momentos de real memorabilidade.

 Enfim, Wu Assassins conclui seu arco narrativo de forma plenamente satisfatória, sem reter nada do que foi vislumbrado ou induzido ao longo da temporada. No final, dedica-se a conclusão ao sentimento de família entre o grupo de amigos, com a única ponta solta sendo o inevitável embate entre o protagonista e a personagem Zan. É um final perfeitamente gratificante e digno da jornada desses personagens, onde pode-se perceber as transformações relevantes em cada um.

Mas como sempre é possível retornamos a este universo, os últimos momentos fazem questão de deixar um gancho gratuito para uma segunda temporada. Duvido que tal retorno poderia repensar muito do que foi apontado aqui, mas considerando o resultado positivo (ainda que confuso) deste primeiro ano, com certeza estarei lá para conferir.