Talvez a criação mais popular do prolífico e atarefado Ryan Murphy, American Horror Story se aproxima de uma década de histórias de terror com a chegada de sua nona temporada. Intitulada de 1984, o novo ano mergulha na nostalgia que tem dominado a indústria do cinema e da TV, intensificado pelo sucesso estrondoso de Stranger Things, da Netflix (que coincidentemente, agora é a nova casa de Murphy). Mas se a criação dos irmãos Duffer é uma homenagem a Steven Spielberg e o gênero sci-fi, o novo AHS vai fundo no slasher.

O slasher é a variante mais conhecida do gênero terror, e que é focado em assassinos que contabilizam um grande número de vítimas – geralmente aleatórias. Jason Voorhees, Michael Myers, Freddy Krueger e Leatherface são apenas alguns dos mais populares, e desde seus segundos iniciais, o episódio de estreia parece completamente dedicado a recriar Sexta-Feira 13, o clássico de 1980. A trama começa justamente com um acampamento assombrado, e que é visitado por um grupo de amigos de Los Angeles que passará a temporada trabalhando como monitores. A reviravolta é que esse mesmo acampamento é marcado por um massacre tenebroso que aconteceu no passado, quando um misterioso assassino conhecido como Sr. Jingles matou todos os adolescentes instalados ali.

Ao longo de seus quase 50 minutos, Murphy e Brad Falchuck trazem um roteiro que perfeitamente compila todas as marcas do gênero slasher. E o faz com referências específicas, que exploraremos em alguns instantes. Temos lá o grupo de adolescentes formado por figuras mais certinhas, promíscuas, atletas e também os coadjuvantes que variam entre aliados e possíveis ameaças – com destaque para a Margaret Booth de Leslie Grossman, roubando a cena como a sobrevivente do massacre de Jingles no passado. Todo o restante do elenco, que conta com as onipresentes Emma Roberts, Billie Lourd e Cody Fern, estão perfeitamente caracterizados como estereótipos distintos – e bem diferentes de suas performances anteriores na antologia.


Então chegamos a toda a realização audiovisual. Desde o começo, a direção de Bradley Buecker já brinca com marcas autorais de Sexta-Feira 13 e Halloween, ao adotar uma câmera POV que mostra jovens ao redor de uma lareira, ao passo em que o uso da primeira pessoa nos remete ao primeiro assassinato de Michael Myers no clássico de John Carpenter – o fato do Sr. Jingles escapar de um hospital psiquiátrico é outra referência explícita. Dessa forma, a direção se diverte ao recriar com precisão o clima de um filme slasher, com a imagem de Emma Roberts fugindo do encapuzado Jingles (cujo visual é praticamente tirado de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado) sendo uma das mais iconográficas do episódio, que é eficiente em criar uma atmosfera retrô.

E falando nisso, talvez o mérito mais impressionante desse primeiro episódio seja a trilha sonora de Mac Quayle. Como o sucesso de Stranger Things trouxe o sintetizador de volta à moda, Quayle vai além de trazer uma mera cópia do trabalho de Kyle Dixon e Michael Stein, mirando nas composições de John Carpenter e, em seus momentos mais inspirados, até evocando o grande Vangelis – que foi responsável por, entre outros, a música do Blade Runner original. O resultado é simplesmente sensacional, e contribui para o sucesso da recriação da época; bem acertada também no design de produção, figurinos e – principalmente – penteados do elenco.

Após se aventurar em conceitos pesados do sobrenatural, bruxas e até mesmo o apocalipse, American Horror Story: 1984 retorna para o tipo mais básico de terror. Nesse experimento, tivemos a melhor estreia da série em anos, prometendo uma narrativa à moda antiga, mas com boas subversões apresentadas no gancho final. Estaremos lá para conferir.