Com uma exploração consistente do potencial de sua proposta, Criminal: França consegue entregar trajetórias bem trabalhadas para seus personagens, apesar do curto espaço de tempo que possui para aprofundá-los, e de um ritmo que sofre com a falta de inventividade da direção. 

Criminal: França é, na verdade, uma das quatro séries que compõem a coleção Criminal. A proposta deste conjunto de produções é acompanhar, exclusivamente, a fase do interrogatório de uma investigação, com um suspeito para cada episódio, e com cada série se passando em um país diferente. Esta é a terceira das quatro críticas feitas para analisar a coleção completa. Você pode conferir as outras abaixo:

Criminal: Reino Unido


Criminal: Espanha

Criminal: Alemanha

Depois de ver a maior parte desta coleção, já fica claro que os detetives em cada série podem não ser meras cópias arquetípicas uns dos outros, mas tanto suas construções, quanto as próprias dinâmicas dos grupos, são desenvolvidas em torno de uma mesma base. O interessante, portanto, é notar como cada série encontra-se mais atraída a um tipo de conflito ou outro, dentro de cada equipe. Nesta versão francesa, a chefe da unidade não domina o protagonismo das tramas como na versão espanhola, mas é a sua posição deslocada dentro do grupo de detetives que gera a tensão secundária de cada episódio, aquela se passa do outro lado do espelho. 

Os episódios de Criminal: França são consideravelmente compassados. Não buscam conquistar a atenção do espectador de formas gritantes, preferindo entregar o desenvolvimento do interrogatório com uma tensão gradual que é perfeitamente capaz de recompensar o empenho do público, mas nem sempre conseguindo escapar das armadilhas entediantes deste peculiar formato procedural. As interações costumam ser mais sensíveis do que nas séries anteriores, onde o foco ainda se mantém na performance dos suspeitos, com os detetives servindo como guias balanceados deste processo. 

O primeiro episódio já traz uma situação envolvendo um evento real dos anos recentes da França: o atentado terrorista da casa de espetáculos Bataclan. A suspeita, Émilie (Sara Giraudeau), conta sua experiência como sobrevivente do atentado que acabou tirando a vida de seu namorado, mas não demora até que os detetives revelem a sua desconfiança do relato. No momento em que a acusação é feita, toda a atmosfera do episódio se altera para um clima de tensão (que sempre é almejado pela série). 

Destaques do episódio incluem a performance de Giraudeau, que embora não seja tão marcante quanto outros suspeitos da coleção, transmite a linha de pensamento da personagem que a levou até uma mentira elaborada, de forma plausível e compreensível para o espectador. A maneira como a relação do grupo de detetives vai sendo exposta também é digna de nota, tal qual era na versão do Reino Unido. O surto de Laetitia dá conta de revigorar o episódio quando o ritmo começa a cair, e a discussão entre “verdade ou justiça”, que permeia a série como um todo, volta a aparecer. 

O segundo episódio já começa a pagar o preço de um ritmo tão compassado, onde nem a volatilidade de Laetitia consegue tornar a trama mais empolgante. A equipe de detetives começa curiosamente posicionada de forma semelhante ao episódio anterior (o que só contribui para uma falta de vigor a temporada), e apesar da disputa de irredutibilidade com a suspeita ter seus momentos de boas performances, este continua sendo um dos interrogatórios mais custosos ao espectador ansioso por reviravoltas. 

Já o último episódio de Criminal: França consegue retomar os melhores aspectos desta execução, com um suspeito cuja perspectiva vai sendo gradualmente melhor explorada, e consequentemente alterando a dinâmica do interrogatório de forma que o desenvolvimento da trama traga mais empolgação. Embora a direção desta versão francesa não tenha o mesmo brilho da britânica, a consistência visual da fotografia não trouxe as mesmas distrações da versão espanhola. E a trilha, felizmente, volta a ter seus momentos de grande relevância com o manejo da tensão, conforme a fachada do suspeito vai desmoronando. 

Também é um episódio que decide lidar com um tópico mais delicado, envolvendo um crime de ódio contra uma vítima homossexual, e um suspeito que claramente está inserido em um grupo homofóbico. Em uma série cuja proposta é tão objetiva quanto esta, os produtores precisam sempre estar dispostos a inserir breves detalhes ou circunstâncias que possam elevar ou distinguir as tramas entre si. Neste caso, além do tópico sensível, a trama já começa com os detetives precisando trabalhar o caso no meio da madrugada, ou seja, fora da zona de conforto estabelecida, até então.

È claro que não seria muito difícil prever a grande reviravolta envolvendo o suspeito deste caso e o seu suposto crime de ódio. Os roteiristas não conseguiriam resistir à trágica ironia que sempre está escancarada em casos como este. Mas, pelo menos, o caminho até tal revelação é construtivo o suficiente para que nem o personagem, e nem a performance de (Jérémie Renier), sejam esquecíveis. Em uma das mudanças de controle do interrogatório, há um diálogo interessante onde o suspeito chega a comparar o processo dos detetives com estratégias de vendas, ressaltando, mais uma vez, a necessidade de se distinguir as prioridades desta situação que a série tanto busca explorar a fundo. 

Também é gratificante perceber que Criminal: França conseguiu construir, de maneira eficiente, o conflito entre os detetives e a nova chefe da unidade. Antes do terceiro episódio, eu já havia notado que esta era uma chefe bem menos ativa do que as anteriores, se limitando a ficar atrás do espelho enquanto os outros iam para dentro do interrogatório. Tal estado é, felizmente, confrontado nesta última trama, e podemos acompanhar a evolução da personagem com um caso tão delicado, conquistando o reconhecimento do resto do grupo de forma orgânica. 

Todas as séries da coleção Criminal precisam estar atentas a este tipo de construção sucinta, uma vez que não possuem tanto tempo para contextualizar todas as dinâmicas de seus personagens, antes confrontá-los com a trama de cada episódio. O ritmo pode ter decaído em algumas parte desta execução, mas ainda assim, Criminal: França conseguiu capitalizar em cima de uma parte considerável do potencial de sua proposta.