Em sua terceira (e, supostamente, última) temporada, Glitch demonstra esforços reconhecíveis para tentar entregar uma conclusão gratificante para as trajetórias de seus personagens, mas a fraca construção de seu universo, e a má exploração da complexidade de seus temas, impede que a série consiga alcançar boa parte de seus objetivos. 

A série australiana já havia começado sua primeira temporada com a essencial tarefa de executar sua premissa com inventividade suficiente para tornar-se distinguível, em meio às comparações. Sua proposta, envolvendo pessoas voltando da morte sem qualquer aderência aos clichês de histórias com zumbis, só soaria inovadora para aqueles que não tem acompanhado os principais lançamentos da última década. Afinal, esta é a quarta vez (até onde me lembro) que uma produção televisiva tenta reaproveitar o conceito apresentado pela série francesa “Les Revenants”. 

Felizmente, Glitch sempre procurou manter-se relevante com a construção de universo abrangente, repleto de elementos intrigantes que misturam conceitos místicos com ciência absurda, tentando estabelecer uma certa plausibilidade para as estranhas circunstâncias destas tramas. No entanto, foi o foco na trajetória pessoal de seus personagens que realmente fez com que a série conseguisse conquistar um certo público cativo, mesmo em meio à tantas perguntas sem respostas. 


E depois de duas temporadas que, apesar deste universo desequilibrado, conseguiram manter uma atmosfera engajante para quem já estava afeiçoado ao grupo de mortos-vivos, eis que o terceiro ano acaba desviando de diversas possibilidades estabelecidas pelos ganchos da última temporada, para apressar uma conclusão impactante. Ao menos, não se pode dizer que certas escolhas feitas pelos roteiristas para esta reta final, não foram audaciosas o suficiente para serem interessantes de acompanhar.  

Um ponto previsível, no entanto, era que esta terceira temporada iria acabar introduzindo novos personagens retornados da morte, e que estes provavelmente estariam ligados à William (Rodger Corser) tentando trazer Elishia de volta. A misteriosa médica pode não ter respondido ao chamado, mas a peculiar dupla composta por uma adolescente criada em meio a um culto religioso, e um imigrante chinês do século 19, logo sai da cova e se torna o foco do primeiro episódio. Belle (Jessica Faulkner) e Chi (Harry Tseng) diversificam o grupo de personagens com novas tramas pessoais para serem exploradas, e suas personalidades contrastantes também contribuem para um equilíbrio tonal da temporada com interações divertidas. 

Ainda assim, a adição da dupla poderia ser um considerada um excesso dentro de uma temporada que carrega a responsabilidade de resolver tantas pontas soltas entre os mistérios da série, além de providenciar finais dignos da atenção que foi dada a trajetória de cada um dos outros mortos-vivos. E para tornar tudo ainda mais complicado, a temporada resolveu inverter as posições de diversos personagens, algo que com certeza seria visto como revigorante em diversas outras produções, mas por aqui, acaba conturbando seus arcos narrativos, e tornando-os menos construtivos. 

Glitch precisava avançar aquilo que já estava propondo, ao invés de revirar suas dinâmicas completamente, como fez durante os primeiros episódios desta temporada. Ao invés de lidar com as consequências da morte de Sarah e de sua posição como pai, o (suposto) protagonista da série, James (Patrick Brammall), inoportunamente se torna um dos “caçadores” que perseguem outros mortos-vivos, alterando drasticamente o seu crescimento como personagem, até então. WIlliam, por sua vez, também acaba sendo utilizado mais como um artifício do roteiro, do que como personagem explorável, ficando responsável por introduzir e estabelecer a urgência apocalíptica que permeia o fim da temporada. 

O estado de liberdade conquistado pelos mortos-vivos antes deste terceiro ano poderia gerar diversas tramas produtivas para seus desenvolvimentos pessoais, como pode ser vislumbrado na situação de Charlie (Sean Keenan) e Kirstie (Hannah Monson), que se deparam com a necessidade de definirem suas identidades dentro da sociedade atual. Mas observando, também, como a trama da relação entre Kate (Emma Booth) e Owen foi logo resolvida e descartada, fica a sensação de que esta temporada precisou encontrar meios para reposicionar todos os personagens dentro das circunstâncias que pretendia para o grande final, não se importou muito com a falta de ligação ou relevância de certos eventos. 

È curioso, ainda, notar como, mesmo exibindo essa pressa, esta terceira temporada continua exibindo o mesmo ritmo custoso das anteriores. Glitch é uma série muito mais recompensadora de se assistir em maratona, pois apesar do tempo e comprometimento necessários, sua trama geral se desenvolve com uma lentidão que só pode ser melhor aproveitada, uma vez que se avança a temporada toda. 

Existe uma diferença importante entre construir um universo de forma sutil, vislumbrando possíveis causas e consequências ou introduzindo elementos que podem gerar especulações produtivas, e de forma gratuita, que seria apenas jogar explicações e exposições, conforme convém aos roteiristas, para justificar seus desenvolvimentos. Glitch se propõe a conjurar regras para o funcionamento de seu universo, às vezes com conceitos científicos rasos, e às vezes com referências religiosas, como se esperasse encontrar um meio termo próprio para ambos os lados. Infelizmente, não houve tempo suficiente para que a série pudesse sequer introduzir suas possibilidades adequadamente, que dirá compará-las e tentar explicá-las. 

Talvez a falta mais sentida nesta última temporada, seja justamente a de personagens cujo foco estivesse no desbravamento deste universo. Elisha teria sido a candidata principal para entregar expansões construtivas para o espectador, mas se até a Doutora Heysen sai de cena logo no primeiro episódio, fica difícil saber quem poderia entregar estes necessários momentos de elucidação, em uma série que vinha ganhando força por conta de seus mistérios. O espectador que gosta de teorizar, portanto, ficará decepcionado com a falta de explicações sobre alguns dos elementos mais curiosos da série. 

E enfim, Glitch termina com seus momentos emocionantes prejudicados por desenvolvimentos afobados. Poucas respostas foram dadas aos espectadores que dedicaram tempo não só a evolução pessoal destes personagens, mas à construção deste universo e suas intrigantes possibilidades. Como resultado, temos uma série cujas intenções estavam no lugar certo, ao manter-se dedicada à exploração pessoal de personagens que tiveram uma segunda chance depois da morte, mas o funcionamento de suas (supostamente tão importantes) regras foi raso demais para que Glitch se conclua como uma recomendação essencial para fãs de mistérios sobrenaturais.