Na última década, diversas produções tentaram reproduzir o apelo gerado pela execução de JJ Abrams e Damon LIndelof em Lost, com algumas tendo mais sucesso do que outras. Mas a nova série da Netflix, The I-Land, pode ser facilmente considerada a pior destas tentativas, com presunção de sobra para execuções que beiram o ridículo. 

Durante o processo destas análises, tenho o costume de fazer anotações pontuais ao longo da série, geralmente ressaltando cenas ou elementos específicos que possam ser utilizados para ilustrar algum argumento inserido no texto. Com The I-Land, no entanto, parei de fazer tais anotações quando percebi que a gigantesca maioria das cenas, em todos os episódios, poderia servir de exemplo para retratar o quanto a série parece estar perdida em suas intenções. 

Quando se tenta referenciar autores como Aldous Huxley, WIlliam Golding e Júlio Verne, ao mesmo tempo em que constrói-se uma representação de tópicos do movimento “#metoo”, tudo logo no primeiro episódio, é evidente que a ambição dos roteiristas vai além do que muitos conseguiriam orquestrar adequadamente em uma narrativa construtiva. E mirando alto, The I-Land expõe uma falta de competência grotesca na maneira como decide expor suas argumentações com tamanha superficialidade, confundindo reflexão com apropriação. 


A série claramente tem muitas ideias que gostaria de trabalhar, e sua disposição é evidente, mas existe uma clara presunção em acreditar que a mera abordagem de grandes ideias já agrega valor à obra por si só. Os primeiros dois episódios formam quase uma paródia de “Lost”, com direito à falas que referenciam indiretamente as discussões em volta dos mistérios e teorias da série de Abrams/Lindelof. Quem dera The I-Land pudesse despir um pouco de sua pretensão e aceitar-se como uma irônica derivação, podendo assim, entregar uma experiência mais confortável de acompanhar, pelo menos. 

A proposta de colocar um grupo de personagens, sem qualquer memória de quem são, para interagirem em um ambiente hostil não é nem um pouco original, mas sempre carrega um potencial digno de exploração por qualquer mídia, e as vezes chega a entregar resultados verdadeiramente memoráveis. Por aqui, no entanto, a série prefere executar tal proposta de forma quase maquinal, apoiando-se em fórmulas narrativas e algoritmos, ao ponto de tornar-se indistinguível. E então, satisfeita com uma construção ineficiente deste grupo de personagens e suas personalidades plasticamente contrastantes, a série avança sua trama de forma subversiva, confiante no impacto de suas reviravoltas. 

A revelação de que tudo não passa de uma simulação, logo no terceiro episódio, deve ter excitado os roteiristas, que provavelmente acreditavam estarem proporcionando uma experiência revigorante para narrativas de mistério como esta. Virada narrativa por virada narrativa, no entanto, sem muita coerência temática com o que vinha sendo construído, tem pouco valor além do choque imediato. 

Coerência, inclusive, é um aspecto pouco apreciado pelo roteiro de The I-Land, tanto no tom emocional de sua história ao longo da temporada, quanto em suas maquinações mirabolantes que visam surpreender o espectador, mas apenas acabam subestimando a inteligência deste. Em meio às suas discussões filosóficas e políticas, a série tenta dedicar espaço à exploração psicológica de alguns personagens, mesmo que isso implique quebras bruscas de ritmo e sequências desgastantes cujos diálogos cansam pela artificialidade aparente.

 Incluo aqui, o uso de flashbacks, um recurso utilizado de forma meramente instigante no começo, mas que ao chegarmos no quinto episódio, torna-se predominante e essencial para o desenrolar da trama, ainda que, nem de longe, consiga criar o mesmo envolvimento com os personagens que costumava ser o resultado visto na óbvia comparação. Muito do que se vê no roteiro de The I-Land pode ser encarado como simples e práticos artifícios narrativos, comuns em qualquer manual de escrita, e que tornam-se incômodos perto da falta de modéstia de uma série que se enxerga como uma ficção científica profunda e inventiva.

O pedantismo da série só fica ainda mais desconcertante perto da direção fraca de boa parte dos episódios, onde falas que certamente já soavam pouco orgânicas na página do roteiro, são expostas de forma ainda mais afetada. Algumas destas falas, inclusive, não só transparecem suas utilidades narrativas acima de tudo, como também indicam atitudes incoerentes para os personagens. Estou tentando evitar os exemplos, mas assistir à uma personagem dizendo que para outra “difícil imaginar que você já passou fome”, em um momento onde nenhum deles tem qualquer lembrança ou resquício ilustrativo de suas vidas passadas, foi um pouco além da conta para as caracterizações. 

Mas o prêmio de “caracterização mais equivocada”, mesmo em meio a tantos personagens estereotípicos e superficiais, com certeza fica com o diretor da tal prisão futurista. O antagonista fica responsável por representar as reflexões políticas da série, envolvendo desde os equívocos do sistema carcerário americano, até o sadismo envolvido neste experimento sociológico mal gerenciado. Para complementar sua figura caricata, só faltava mesmo um grito arrogante de frustração durante o último episódio, e uma estrela de xerife onde se lê “Texas” presa no peito. Pois bem, a caricatura foi completa. 

Estrutura narrativa pouco eficiente. Personagens e tramas presunçosamente construídos, mas improdutivamente superficiais. Direção e montagem que deixam a desejar, até mesmo perto de produções com bem menos orçamento aparente… Só não dou zero estrelas para The I-Land, por que nenhum pedaço do cenário caiu na cabeça de algum ator no meio da cena. Também não acho justo dar mera meia estrela, pois no mínimo dos mínimos, a proposta básica da série é válida e perfeitamente capaz de despertar curiosidade. É uma pena, no entanto, que qualquer potencial existente nesta proposta foi completamente desperdiçado por uma execução deplorável. 

The I-Land não merece muita atenção de qualquer parcela do público da Netflix, e nem mesmo a velha justificava dos moldes direcionados a “jovens-adultos” pode salvar a série em questão, desta vez. Existe uma falta de tato e consciência absurda na maneira como a produção deixou-se levar por grandes intenções, e não reconheceu a banalidade do seu resultado final, como um todo. Vendida como minissérie, os arcos narrativos mal concluídos ou apenas esquecidos em sua conclusão só tornaram a experiência de acompanhá-la, ainda mais contestável e vazia.