O estilo espalhafatoso de Ryan Murphy continua trazendo seus apelos em The Politician, mas em sua adequação aos modelos típicos da Netflix, parte do encanto acaba se perdendo pelo meio do caminho, mantendo-se meramente aproveitável por conta de algumas performances cativantes. 

Murphy é um dos produtores mais prolíficos da Hollywood televisiva atual, e suas empreitadas costumam chamar a atenção, tanto do público quanto da crítica, por conta de um inventividade que costuma ser surpreendentemente bem integrada aos formatos palatáveis da TV aberta americana. Veja Glee, por exemplo, que soube aproveitar os atrativos do formato musical e elementos culturais da Broadway para gerar uma série sustentável e inegavelmente relevante para sua época. American Horror Story, então, trouxe a mesma aptidão para executar conceitos audaciosos sem a pretensão alienante de produções prestigiosas, e exibiu, de uma vez por todas, a versatilidade magnética do produtor. 

Tal compreensão da carreira de Ryan Murphy nesta última década é importante quando se é para analisar The Politician, uma vez que a nova produção se encontra fora dos terrenos comuns ao produtor. Dentro da Netflix, dispõe-se de uma liberdade entusiasmante para construir séries que possam fugir de estruturas convencionais ou das amarras de um consumo tradicional. No entanto, parece que Murphy pode ter se entusiasmado um tanto demais com tal liberdade, entregando uma narrativa que não consegue transpor toda a excentricidade evidente do texto, com a mesma eficiência de suas outras produções. 


The Politician é, sem dúvidas, uma série atrativa para qualquer veículo. O estilo chamativo de Murphy, aliado à uma exploração contemporânea sobre o cenário político americano, é mais do que suficiente para se apostar no sucesso da produção (Junte um elenco como esse, e pode pegar meu dinheiro sem mais perguntas). Porém, a série dedica tempo demais à tramas paralelas que, apesar de serem divertidas com todos os seus melodramas, acabam produzindo uma dispersão cansativa para uma história cujo potencial mantém-se inegavelmente mal-explorado. 

Para discutir tópicos relacionados à política americana sem assumir uma escala comprometedora, The Politician acompanha o jovem Peyton (Ben Platt) em sua calculada trajetória para se tornar presidente de sua classe colegial, permitindo não abrir mão, portanto, das costumeiras intrigas e moral duvidosa que acompanham o tema, apenas contendo-as a um ambiente mais controlado e representativo. 

Platt é o primeiro membro do elenco que já entrega uma performance engajante com sua interpretação irrequieta de um candidato obcecado por suas ambições. O protagonista equilibra bem seus aspectos mais condenáveis com naturalidade, e mantém-se fiel aos seus ideiais, com o típico pensamento sobre “os fins justificarem os meios”. Em momento algum, Platt coloca o personagem em uma posição tão odiável ao ponto de afastar o espectador, nem tampouco o isenta de exibir as claras falhas de caráter. E de quebra, ainda temos três cenas com números musicais, onde o ator pode demonstrar todo seu talento como cantor (Se quiser ouví-lo mais um pouco, pesquise “Dear Evan Hansen” e seja feliz).

Acompanhar Peyton e sua equipe de conselheiros em meio ao caos de uma campanha política (com a adição de hormônios adolescentes para tornar tudo mais caótico), é uma premissa digna de atenção e, em certos momentos, plenamente divertida. Mas considerando a expressividade dos discursos e reflexões que costumam acompanhar as produções de Murphy, o conteúdo político da nova série chega a ser um tanto decepcionante, por não ter muito o que dizer além do que já vem sendo retratado repetidamente em todas as mídias. Tal abordagem superficial soa como uma oportunidade desperdiçada, dentro de um cenário tão absurdo quanto o que vivemos hoje em dia. 

Mas o que realmente torna The Politician, uma série incapaz de alcançar todo o impacto que poderia, é a má estruturação de suas tramas, e a falta de um foco construtivo, que acaba sendo retomado apenas durante o episódio final. Essencialmente, a nova série dedica quatro episódios para sua premissa principal, com o quinto redirecionando o foco para a perspectiva do “eleitor”. Em seguida, temos a conclusão desta história, com circunstâncias tão alteradas que o sexto e sétimo episódio (convenientemente divididos em partes 1 e 2), poderiam gerar uma própria segunda temporada, caso esta fosse uma série da TV aberta. 

Jessica Lange também merece destaque (tal qual costuma ser a norma em suas parcerias com Murphy), mas sua longa trama com a neta e seus problemas psicológicos desconcertantes é justamente o que faz a série soar tão dispersa e alongada, principalmente se o espectador decidir assistir The Politician em apenas uma ou duas sessões. Felizmente, tramas paralelas como esta, ou o drama familiar na casa de Peyton, parecem estar perfeitamente encerradas após esta temporada.  Mesmo depois de tantas viradas e tramas que atropelam umas às outras, os sete primeiros capítulos se mostram suficientes para retratar a “ascensão e queda” do protagonista. Mas eis que, então, temos um último episódio para acompanhar ainda…

O oitavo episódio começa soando como um possível epílogo para a história de Peyton, mas logo decide apresentar novas personagens que com certeza terão bastante importância em uma futura segunda temporada, e logo estabelece uma nova dinâmica para o protagonista e seu velho grupo de conselheiros, preparando o terreno para tramas que se atreverão a ir além do ambiente controlado das eleições colegiais. Para todos os efeitos, o que temos aqui não é apenas um gancho narrativo, mas sim o primeiro episódio de uma segunda temporada, propriamente dito.

E o que dizer, então, do fato de que este “primeiro episódio” é capaz de empolgar mais o espectador do que esta primeira temporada? Não é nem um pouco difícil se afeiçoar ao grupo de Peyton, e se empolgar com sua determinação. Colocando-os em uma escala ainda maior, percebe-se ainda mais potencial para histórias que podem gerar discussões interessantes sobre os tópicos que a série almejava discutir, mas não demonstrou ter tanto a acrescentar. O tom cômico que permeia boa parte desta primeira temporada merece mais evidência no futuro, e quem sabe assim, pode-se conseguir alcançar a excentricidade estimulante que pode ser notada no roteiro, mas que, por enquanto, ainda está ofuscada por uma execução equivocada.