Com sua peculiar proposta de abordar elementos das histórias de Stephen King, sem realmente adaptar qualquer uma de suas obras propriamente, Castle Rock retorna para sua segunda temporada, e continua sendo uma série digna de atenção, tanto para aqueles que se consideram fãs do famoso autor, quanto para o público desavisado. 

A primeira temporada de Castle Rock serviu como um ótimo exemplo de como construir tramas em volta de um cenário conhecido dos fãs de King (incluindo alguns personagens menores de suas obras), enquanto se constrói uma trama própria que não só consiga emular a atmosfera de suspense que se tornou uma identidade reconhecível do autor, mas também proporciona uma experiência própria que não exclui qualquer espectador menos familiarizado com este “universo”. 

A tentação de transformar Castle Rock em um festival de referências e ligações forçadas, com certeza era grande para qualquer produtor envolvido, mas a série demonstrou aptidão para a tarefa de se sustentar, acima de tudo, em sua própria construção, entregando mistérios envolventes marcados por um trabalho atmosférico notável, e direções de episódios específicos que foram, inclusive, muito elogiados pela crítica. Mas eis que esta segunda temporada já começa com mais ousadia do que a primeira, e coloca uma famosa personagem de King no centro das atenções. 


Annie Wilkes já é conhecida do grande público por conta da adaptação “Louca Obsessão”, lançada nos cinemas na década de 90 e responsável por render diversos elogios e prêmios à performance de Kathy Bates como a perturbada protagonista. Em Castle Rock, o papel fica por conta de Lizzy Caplan, e se havia qualquer dúvida em relação à dificuldade de se re-interpretar uma personagem tão marcada por outra atriz, Caplan demonstra seu potencial logo na primeira cena, com uma breve caminhada e um olhar característico. Felizmente, sua interpretação neste primeiro episódio não chega a “imitar” Bates, mas é possível perceber algumas semelhanças em seus traços e expressões, que acabam mantendo uma familiaridade produtiva para o espectador. 

Caplan, no entanto, não é o único grande nome desta segunda temporada, que retorna com um elenco completamente novo. Elsie Fisher (Oitava Série) e Barkhad Abdi (Capitão Phillips) também dão vida a novos personagens que devem se manter importantes para o andamento destas novas tramas de Castle Rock. A construção da “mitologia” em volta da cidade titular continua sendo interessante de acompanhar, com detalhes sendo sutilmente adicionados enquanto acompanhamos a introdução de uma nova dinâmica entre seus habitantes. 

Um dos méritos de Castle Rock, é a maneira como a série tem conseguido equilibrar seu tom narrativo para incorporar elementos sobrenaturais com eficiência. Leitores de King sabem que o autor costuma integrar explicações mais absurdas de forma um tanto abrupta (algo que, inclusive, faz parte dos motivos pelos quais costuma-se criticar seus finais), mas a série parece estar constantemente ciente do caminho que tomará para abordar qualquer elemento menos plausível e como manterá este equilíbrio sem sacrificar o peso de seu suspense. 

Além de “Louca Obsessão”, esta segunda temporada também prepara o terreno para abordar elementos de “Salem´s Lot”, outra obra de King que já ganhou adaptações, e que envolve uma trama menos mundana com vampiros infestando a cidade. Caminhar entre as duas histórias do autor é uma tarefa complexa, uma vez que não se pretende adaptá-las diretamente. No entanto, este primeiro episódio faz um ótimo trabalho ao introduzir Annie como uma personagem interessante por si só, e pronta para ser inserida dentro de qualquer trama que os roteiristas possam construir.

 E enquanto isso, também temos sua filha, Joy, para simpatizar logo de cara, enquanto a protagonista continua sendo um tanto desconcertante demais para podermos nos identificar neste começo da temporada. Castle Rock traz, consistentemente, uma atenção cativante em seus trabalhos atmosféricos, da montagem de cenas mais tensas, ao uso da trilha sonora, e enquanto eu possa ter me animado com o gancho do primeiro ano, e a possibilidade de vermos um pouco de “O Iluminado” sendo integrado à série, é possível que o vindouro lançamento de “Doutor Sono” durante o restante desta temporada tenha complicado esta abordagem. 

Mas, pelo menos, este primeiro episódio soube estabelecer o potencial de suas novas tramas, e já entregou boas pistas do que os fãs de King podem esperar da nova temporada. E mesmo que você não faça ideia do que está acontecendo em Castle Rock, ainda é válido dar uma chance para a série, nem que seja para acompanhar a performance de Caplan durante os próximos episódios.