Uma produção da O2 FIlmes para a Netflix, Irmandade traz performances memoráveis de um elenco visivelmente dedicado a representar com propriedade, o contexto e a atmosfera desta história, além de uma trama com tensão suficiente para atrair boa parte do público fã dos tópicos abordados. 

Em uma coletiva para a imprensa, o diretor Pedro Morelli, a produtora Andrea Barata Ribeiro e o elenco da série, deram mais algumas informações sobre o que o público pode esperar da nova produção para a Netflix, bem como explicaram um pouco sobre a experiência de abordar a criação de um facção criminosa nos anos 90, a representatividade de personagens como Cristina e Edson, e a atmosfera das gravações dentro de uma ala desativada de um presídio verdadeiro. 

Aqueles que se deparam com os temas de Irmandade, e esperam “mais do mesmo” com comparações aos filmes de José Padilha, ou as séries da Globo como “Carcereiros”, podem ficar tranquilos, pois a nova série estrelada por Seu Jorge e Naruna Costa tem identidade de sobra para se distinguir dentro de um cenário já tão explorado pela indústria audiovisual nacional. 


O primeiro episódio já deixa claro que o nome da série se refere tanto à dinâmica entre os membros da facção criminosa criada dentro da prisão, quanto à relação entre Edson e Cristina, dois irmãos cujas vidas tomaram rumos completamente diferentes. A protagonista começa como uma advogada que decide ir contra seus princípios profissionais para ajudar o irmão, e como consequência, acaba se envolvendo com a investigação contra a Irmandade

Este embate entre os princípios da protagonista, e sua relação com Edson, gera o aspecto mais interessante deste começo de Irmandade: a reflexão sobre diferentes perspectivas de moralidade. Com base na ênfase dada à construção desta reflexão, é de se esperar que a série mantenha o foco nesta discussão, e providencie viradas de sobra para que a protagonista precise tomar decisões complexas que moldarão a maneira como nós, espectadores, a enxergaremos ao longo da temporada. E se os últimos dez anos de televisão comprovam qualquer coisa, é que personagens “anti-heróis” ou com moral duvidosa sempre proporcionam experiências engajantes de se acompanhar. 

Durante a entrevista, Morelli respondeu uma questão interessante sobre o cenário escolhido para a série. Irmandade se passa nos anos 90, não só por que a época traz um contexto relevante para retratar a ascensão de uma facção criminosa em São Paulo, mas também por que tal escolha proporciona uma relevância ainda mais produtiva para uma protagonista feminina. Sem celulares e outras tecnologias atuais, o papel da mulher dentro de um esquema criminoso como este é vital, com a personagem ficando responsável por levar e trazer mensagens entre a facção e o líder preso. Por si só, esta alocação temporal já é um elemento que ajuda a produção a se distinguir dentre tantas comparações, tanto dentro de sua temática, quanto esteticamente. 

O começo da série também apresenta Edson como um papel exigente para Seu Jorge, com o personagem já sendo torturado dentro da prisão, e logo depois incitando seus companheiros de facção com um discurso impactante sobre o funcionamento e a função da Irmandade. Seu contraste com Cristina também auxilia no ritmo da série, proporcionando uma diversidade para as tramas que impede estes primeiros episódios de se tornarem monótonos, apesar de não termos tantas perspectivas diferentes sendo acompanhadas. Normalmente, mais perspectivas também significam uma expansão de universo mais abrangente, mas a nova série consegue introduzir de maneira eficiente, as características deste cenário, e prepara o terreno para as esperadas repercussões, após atitude de Cristina, com objetividade. 

Ainda é preciso adentrar mais alguns episódios para ver se Irmandade não cairá nos clichês e estereótipos que inundam produções semelhantes, e se terá fôlego suficiente para manter a temporada envolvente, mesmo com a narrativa tão focada na trajetória dos dois irmãos. Também fico ansioso para descobrir se as reflexões sobre moralidade chegarão à uma conclusão politicamente produtiva, ou se os roteiristas mantiveram-se mais interessados no impacto romântico desta história. De qualquer forma, há um terreno repleto de potencial nesta nova série nacional da Netflix, e mesmo aqueles que não costumam ser atraídos por tramas violentas como esta, podem acabar envolvidos pelas ótimas performances de um elenco que dispõe de momentos de sobra para brilhar.