Logo quando foi anunciada, a nova série de Damon Lindelof, Watchmen, já chamava a atenção por sua ambição. Retomar o universo criado por Alan Moore, e consideravelmente popularizado pelas mãos de Zack Snyder nos cinemas, é um projeto que já nasce com vários fãs prontos para analisar, criticar e comparar cada aspecto da produção.

 Mas, pelo menos, será difícil contestar o esforço e a dedicação desta nova empreitada da HBO, baseando-se nestes primeiros episódios. O universo de Watchmen já havia ganhado uma representação memorável com a direção de Zack Snyder (que, convenhamos, não sai da cama se for para fazer qualquer coisa esquecível, por bem ou por mal), mas em um formato seriado, e com uma trama distanciada dos eventos originais das HQs, o potencial de expansão desta série era imenso. 

E felizmente, Damon Lindelof ousa produzir a própria interpretação dos tópicos apresentados por Moore, com a devida atualização contemporânea para discutir os aspectos sociais deste universo com mais relevância. Lindelof também não costuma ser o tipo de produtor que passa despercebido na televisão, tendo sido responsável por boa parte das maquinações de Lost e The Leftovers (esta, também da HBO). Sendo assim, o que temos com a nova série não é uma reverência à obra de Moore, mas sim um produto que traz os melhores atributos de uma “obra derivada”. 


No entanto, ao mesmo tempo que Watchmen evidencia diversos dos temas originais, e aproveita a excentricidade do universo das HQs (levada ao pé da letra no cinema), a nova série também faz um trabalho notável ao se posicionar como uma obra independente, na medida do possível. AInda que muito do roteiro ressoe de acordo com o que já conhecemos deste universo, o espectador leigo que resolver dar uma chance a esta história dificilmente se sentirá alienado. No máximo, este pode se sentir um tanto sobrecarregado por certas peculiaridades. 

Watchmen se passa muitos anos depois dos eventos conhecidos do público, e traz novos personagens que se encaixam perfeitamente na dinâmica deste universo atualizado. Tematicamente, a série deixa para trás a iminência provocada pela guerra fria, procurando construir um sentimento de urgência em volta de problemas sociais que vem chocando a todos nos dias atuais.

De forma semelhante, também temos uma abordagem diferente sobre o culto de personalidade que ronda estas figuras, com uma perspectiva mais mundana do que víamos originalmente, mas nem por isso menos excêntrica. Para não adentrar muito o andamento da trama (e evitar qualquer tipo de “spoiler”), basta usar como exemplo, a trilha sonora da série. Ecléticas e significativas, as faixas vão do rap à música clássica como bem se entende, contribuindo para a atmosfera abrangente da trama e proporcionando uma diversidade construtiva.  

Mas é a maneira como se constrói uma espécie de “realidade aumentada” que realmente chama atenção em Watchmen, e embora a proposta seja condizente com o material original, Lindelof consegue produzir uma sensação de distinção na dinâmica deste universo distópico que o torna ainda mais intrigante e divertido de acompanhar. Certas subversões com ideias das HQs, inclusive, só tornam a nova série ainda mais empolgante, produzindo um retrato plenamente válido de figuras como “Rorschach” sob a ótica atual. 

E dentro de uma direção com cenas de ação competentes e interações contidas ainda mais interessantes, Regina King se destaca com sua performance nestes primeiros episódios, e demonstra fôlego de sobra para protagonizar o restante da série, mesmo que este novo contexto não traga a mesma escala que deu início ao famosos eventos envolvendo o Comediante e sua antiga turma de super-heróis distorcidos.

O que ainda precisa ser melhor absorvido, no entanto, é o equilíbrio encontrado pela série para transpor suas alegorias e paralelos, tanto com o nosso mundo real, quanto com a história de Alan Moore. Após dois episódios, percebem-se algumas mensagens bem mais claras do que outras, sendo difícil prever se a série pretende adotar uma execução mais pessimista, ou se irá se permitir reescrever algumas conclusões já estabelecidas por este universo.  

O começo de Watchmen é definitivamente promissor, e com o histórico de Lindelof indicando a predisposição do produtor à viradas ambiciosas em suas histórias, acompanhar a série, com certeza, será uma experiência digna de atenção. Pode não ser a série derivada que muitos queriam (incluindo o próprio Alan Moore), mas parece ser justamente a série que precisamos.