Séries como Atypical acima de todas as coisas, exercem uma função especial que é o de fazer um tipo de serviço público – sem a participação do Estado diretamente – ao assinante Netflix, ou seja, é uma prestação de serviços com a finalidade de atender certas necessidades da sociedade em geral. Temos variados tipos de filmes e séries que buscam trazer alguma luz e esclarecimentos para determinados blocos sociais específicos, sejam: Cara Gente Branca (jovens negros), O Método Kominsky (idosos), Crônicas de San Francisco (LGBTQ), e assim por diante.

Mesmo semana passada tivemos um ótimo longa-metragem dirigido por Craig Brewer, Meu Nome é Dolemite, que faz uma ode cheia de alegria e vitalidade exaltando a importância da representatividade em nossa sociedade constantemente em transformação.

Falar em transformação é falar sobre a terceira temporada – que já se encontra disponível ao subscritor Netflix – de Atypical, série que nos imerge fundo nas relações conflitantes da família Gardner, constituída por Sam (Keir Gilchrist), Casey (Brigette Lundy-Paine), Elsa (Jennifer Jason Leigh) e Doug (Michael Rapaport). Óbvio, que ao longo de três temporadas, o foco principal ainda recai em Sam, um jovem que vive sob as condições do espectro autista (CEA) e as barreiras e dificuldades para este se manter saudável e digno diante uma vida de desafios.


Mas, para contentamento geral, a série criada por Robia Rashid gosta de abrir suas asas e expandir, já que nesta mais recente temporada, vai-se ainda mais fundo no emocional dessa família: os pais Elsa e Doug, que vivem grande dificuldade de se reconectar após o affair da esposa com um barman; e especialmente Casey, que se encontra em um triângulo sem a certeza do que realmente quer para si – tais conflitos dão de bandeja a chance para a jovem atriz Brigette Lundy-Paine se destacar mais, e ela o faz com grandes méritos.

Na volta para a terceira parte de Atypical encontramos Sam prestes a iniciar um novo – e desafiador – ciclo em seus dias, pois os anos de colegial ficaram para trás, agora, chegou o momento de testemunhar como o garoto especial irá lidar com os perrengues do mundo acadêmico. E, bota perrengue nisso!

Sam têm novos problemas para encarar de frente e buscar soluções, como: o distanciamento de Paige, sua namorada que também adentrou o mundo acadêmico, mas em uma universidade distante de onde Sam estuda; fazer novos amigos; tentar acompanhar o ritmo ensandecido das aulas, ainda mais naquelas que testam suas capacidades; ter uma iniciativa nos momentos de debate; sair de sua zona de conforto e buscar se reinventar; e solidificar ainda mais sua relação de amizade com Zahid, seu melhor amigo.

Ufa! Quanta coisa, não?! Mas, esta é a vida, não apenas para o garoto que está entrando na fase adulta, e sim, para todos. Dado que, mudanças ocorrem em nossas rotinas diárias todo o tempo, das pequenas até as que já eram premeditadas, e aquelas que viram o mundo de cabeça para baixo.

É aí que entra o bom trabalho desta série: saber lidar com humor e graça com tais mudanças, sem tirar a dramaticidade e o peso que vem acompanhado destas. E, o mais interessante é que a temporada três faz isso paulatinamente, quase que em doses homeopáticas. Se o cinema de ação transmite agilidade, um ritmo incessante; o gênero da comédia dramática demanda uma progressão de tempo que permita o espectador Netflix compreender a relevância daquele conteúdo (e emoções transmitidas) para alcançar as catarses almejadas, sejam pelo humor ou via comoção.

Se o roteiro cria tais brechas, basta o elenco se conectar – a nível individual e coletivo – para que a força de uma história que busca ensinar, encantar e sensibilizar alcance a quem assiste. Atypical faz isso, principalmente em seus episódios derradeiros – menos o último que serve mais como um trampolim para o que pode ser uma quarta temporada ano que vem.

A série de Rashid têm seus altos e baixos – mais o primeiro que o segundo. Dos dez episódios, certamente os pontos baixos que possuem menor impacto, ocorrem nos capítulos quatro e cinco. Bem no centro de toda a trama. Ao menos, a quinta parte tem momentos bem divertidos, mesmo que sem abalo marcante. Neste episódio quem mais brilha é a caricatura de Jenna Boyd – que tem semelhança desconcertante com a atriz Kyra Sedgwick – que faz o papel de Paige. Tudo nela implora por risos, sejam as roupas à la Cher de As Patricinhas de Beverly Hills, até seu comportamento impulsivo do tipo tresloucado.

Contudo, do elenco feminino, o maior destaque vai para a adorável e sedutora Brigette Lundy-Paine. Se ficar qualquer dúvida, só observar o oitavo episódio de Atypical para notar a paixão da atriz, que se mostra tão ansiosa e confusa como os olhares de Gilchrist. É possível perceber toda a vulnerabilidade destas personagens nestas cenas. E, é fácil também para o espectador Netflix se engajar nesta divisa que a personagem Casey se encontra, até mesmo, porque anteriormente, por sete episódios, nos deliciamos com seu comportamento singular, do tipo mais magnético. Praticamente, um mix de Juno do filme homônimo de Jason Reitman com Robin Scherbatsky da série popular How I Met Your Mother. Simplesmente encantadora!

Atypical também reserva nesta temporada, uma abordagem simples, porém efetiva sobre as dificuldades de um casamento. Claro, que a série Netflix não consegue uma fervura tão alta como, por exemplo, Antes da Meia-Noite de Richard Linklater. Passa bem longe disso. Mesmo assim, faz o mínimo necessário para demonstrar como um caso de infidelidade quebra alguns destes conceitos, não só para aquele que cometeu o ato de adultério, também para o cônjuge traído. É uma situação que propõe uma reavaliação total de todo o casamento.

Se houver uma quarta temporada de Atypical no ano que vem por parte da Netflix, pode-se afirmar que ainda existe terreno para mais dissidências, e para todos os personagens centrais desta história. Visto que nesta terceira, foi abordado a temática de mudanças e transformações da vida de todos. É seguro dizer que estas mudanças não irão cessar, assim, proporcionando mais oportunidades para um retorno da família Gardner em 2020.