Os livros de Philip Pullman ganham mais uma adaptação em His Dark Materials, a nova série da HBO que pode não ser a grande substituta de Game of Thrones que todos estão procurando, mas que deve conseguir atrair atenção suficiente para gerar o seu próprio legado com os fãs de fantasia. 

Doze anos atrás, o universo de Pullman já havia alcançado o grande público com uma adaptação cinematográfica que carregava o nome do primeiro livro, “A Bússola de Ouro”. O filme, embora tenha sido estrelado por nomes como Daniel Craig e Nicole Kidman, não teve fôlego suficiente para dar início à uma franquia nos cobiçados moldes de Harry Potter e companhia, e o potencial destas histórias permaneceu majoritariamente inexplorado, desde então. 

Mas com o espaço proporcionado por uma série com o típico prestígio da HBO, e um elenco que não fica devendo em nada para seus antecessores, His Dark Materials demonstra entusiasmo em explorar este universo, introduzindo suas dinâmicas principais de maneira ágil neste primeiro episódio. A protagonista Lyra (com o carisma peculiar de Dafne Keen) é estabelecida como uma jovem impetuosa, além de carregar um típico propósito misterioso que costuma ser a norma para fantasias infanto-juvenis. E para cativar o espectador apressadamente, o piloto já serve, essencialmente, como um primeiro ato para esta história. 


O foco do episódio, no entanto, se divide entre Lyra e a comunidade de Gyptians, onde uma criança acaba de ser raptada no meio da noite, gerando um mistério mais tradicional para este começo. Percebe-se o quanto a narrativa deste episódio piloto foi calculadamente estruturada para ter um apelo mais abrangente, e a direção de Tom Hooper também mantém HIs Dark Materials como uma obra menos excêntrica do que o material original poderia proporcionar (Ironicamente, Hooper dirige a vindoura adaptação de Cats que deve transbordar excentricidade, para dizer o mínimo). 

As aparentes grandes distinções da série, no entanto, vêm justamente de seu universo mirabolante que já cativou tantos leitores mundo afora. Neste primeiro episódio, já somos apresentados aos animais companheiros dos personagens, com diálogos explicativos sobre seu funcionamento. O fato dessa história começar em uma faculdade deve ser um grande alívio para os roteiristas, uma vez que sempre que o espectador parece ter uma dúvida sobre algum aspecto do universo, logo surge uma fala ou uma interação que entrega a explicação, e garante que nenhum novo espectador casual sinta-se alienado. Nunca embarcou no trem de Game of Thrones? Não se preocupe, e seja bem-vindo. 

Hooper consegue estabelecer uma atmosfera chamativa para His Dark Materials, equilibrando os elementos mágicos com uma ambientação de época perfeitamente reconhecível, e produzindo uma boa representação de um “universo paralelo” ao invés de uma fantasia distante. Este primeiro episódio não chega a impressionar com grandes visuais elaborados, mas ainda assim, se mantém digno do patamar que acompanha produções ambiciosas da HBO. A grandiosidade, no entanto, acaba sendo deixado à cargo da música, que acompanha diversas cenas com forte presença, e temas marcantes (destaque para a pompa da trilha quando a Sra. Coulter entra em cena). 

Felizmente, o elenco encontra momentos de sobra para definirem seus personagens com eficiência para o espectador. Tanto James McAvoy quanto Ruth Wilson interpretam personagens cujas interações com Lyra não os colocam como “bonzinhos” ou “malvados” logo de cara, e suas atitudes ambíguas mantém suas personalidades mais interessantes de se acompanhar, para o resto da temporada (E ainda podemos esperar a entrada Lin Manuel-Miranda em meio a estes nomes).

A urgência desta história também fica clara para o espectador, bem como a possível escala que a trama de Lyra pode acabar tomando, conforme nos aproximarmos mais das descobertas de seu tio. Há um sentimento de aventura que não só é atraente, como possui poucos concorrentes realmente relevantes no cenário atual. E as discussões vislumbradas por este primeiro episódio sobre a questão “Estado e Igreja” podem gerar tópicos chamativos para o público, sempre com o bom e saudável distanciamento que o gênero proporciona, mas nem por isso menos relevante. 

E caso His Dark Materials consiga evoluir sua base de fãs consistentemente ao longo deste primeiro ano (com a segunda temporada já garantida), pode ser que a HBO tenha mais uma chance de construir um público tão cativo quanto espera-se de qualquer obra de fantasia, hoje em dia. Nos resta descobrir se os próximos episódios conseguirão ser mais deslumbrantes, e inovadores o suficiente para atrair os olhos de quem já acostumado com dragões voando pela televisão.