A produção de séries nacionais da Netflix segue firme e forte com Ninguém Tá Olhando, que conta com Kéfera Buchmann no elenco como grande chamariz para o público, mas cujo resultado final consegue ser realmente atrativo por conta de um roteiro dinâmico e irreverente. 

Ninguém Tá Olhando é uma produção que busca refletir, com descontração e muitos palavrões, sobre religiosidade e esoterismo em geral, e cumpre sua missão seguindo a linha de discussões básicas sobre estes tópicos, mas que devem ser provocativas para uma boa parte de um público como o nosso. A história segue um recém-gerado “Angelus” (como anjos são chamados neste universo) que não demora a questionar suas diretrizes principais dentro de um sistema que rege estes guardiões celestiais como uma espécie de repartição pública com eficiência mediana. 

O primeiro episódio é rápido ao apresentar as regras e o contexto deste universo, seguindo o primeiro dia de trabalho de Uli (Victor Lamoglia), ao lado de dois outros Angelus diligentes. Sua rebeldia logo toma conta, e todo o funcionamento deste sistema angelical é rapidamente desconstruído sem muita cerimônia, abrindo espaço para questionamentos que alteram completamente a dinâmica de personagens que vêm seguindo as mesmas regras há milhares de anos. .


 Enquanto isso, no lado terrestre, Kéfera interpreta Miriam, uma humana repleta de empatia e compaixão, mas que possui algumas crenças difíceis de serem quebradas, e que ditam grandes aspectos de sua vida. Junte o casal com referências ao filme Cidade dos Anjos, adicione a disposição ao debate sobre fé, e temos a mais nova série da Netflix que é perfeitamente capaz de entreter o espectador ao longo de seus oito episódios, mesmo que algumas de suas constatações possam soar um tanto “direto ao ponto” demais, ocasionalmente. 

“Cuidem de vocês, por quê ninguém ta olhando.”

O título da série, na verdade, está apenas tentando ser enfático para gerar o questionamento, e não, necessariamente, negar qualquer conceito de forma absoluta. A ideia, inclusive, é abominar qualquer pensamento absoluto e egocêntrico, propondo que, já que todo contexto divino é subjetivo, os humanos não deveriam depositar toda a sua fé nele como se fosse uma verdade incontestável. De início, este questionamento desemboca em quebras de tabus e convenções, argumentando que tais restrições são pouco produtivas para a evolução individual, e o faz com um humor irreverente, que procura encontrar a ironia em meio às nossas irracionalidades.

Em partes, a série se assemelha à “The Good Place” com suas construções filosóficas bem explicativas, mas se distancia da comparação com seu tom cômico mais provocativo, aproveitando para fazer piadas com drogas, relacionamentos não-tradicionais e o que mais der na telha, pois esta é a ideia inicial de Ninguém Tá Olhando, e do protagonista Uli: Afinal, por quê não? 

As desconstruções propostas pelos primeiros episódios conseguem ser didáticas sem soarem pedantes, retomando a ideia de que somos nós que associamos sentidos e simbolismos a elementos que, por outra perspectiva, poderiam ser considerados banais. Fred (Augusto Madeira), o chefe do distrito angelical, procura significado em um pedaço de metal que “caiu do céu”, associando-o com Uli e sua dificuldade de se integrar ao sistema. Mas como diz Wanda (Telma Souza) quando o chefe lhe mostra o objeto, é apenas uma “porca sextavada tamanho oito”. 

O roteiro faz bom uso da dinâmica de seus personagens, apresentando diferentes visões de forma simples e divertida, conseguindo manter o espectador descontraído diante de temas que costumam ser tratados com mais complexidade, em outros lugares. Chun (Danilo de Moura) e Greta (Júlia Rabello) protagonizam suas próprias tramas secundárias de auto-descobrimento com humor de sobra para balancear o lado “romance proibido” que as vezes fica à frente do episódio, em um equilíbrio que deve garantir o apelo da série para qualquer espectador casual que encontrá-la como sugestão, dentro da plataforma. 

Mas em sua segunda metade, a série decide ir além de suas provocações e questionamentos, se perguntando se as “rebeldias” de Uli são tão produtivas quanto parecem, levando em consideração as suas consequências que vão além do pessoal. E mesmo que Ninguém Tá Olhando não esteja necessariamente abrindo grandes reflexões complexas com suas tramas satíricas, há espaço de sobra proporcionado pela evolução destes personagens para fazer o espectador pensar sobre suas crenças. 

Ao dizer que ninguém tá olhando, a série apenas propõe que os personagens depositem suas fés em si mesmos, ao invés de em um conceito subjetivo. Para Miriam, aceitar as quebras com definições tradicionais sobre anjos é fácil, mas parece impossível compreender que buscar sentido para o dia-a-dia em signos do horóscopo também é uma prática que envolve depositar fé em algo que não podemos compreender. E no fim, todos queremos encontrar propósito para a vida, até mesmo os Angelus que estavam seguindo ordens aleatórias até hoje, e de repente se deparam com infinitas (e intimidantes) possibilidades. 

Há piadas que funcionam exclusivamente para o espectador brasileiro, assim como boa parte da comédia traz um humor mais universal, capaz de apelar para qualquer público internacional. Onde, talvez, haja um certo desgaste, é em momentos onde o tom cômico da sequência acaba sendo alienante para estrangeiros. O maior exemplo é, com certeza, a cena acompanhada por “Imortal” de Sandy e Junior, onde para brasileiros, o drama se torna tão exagerado por conta da música, que chega a ser cômico, mas para outros fora do Brasil, será apenas uma cena estranhamente dramática demais. 

Ainda assim, Ninguém Tá Olhando escapa de boa parte das críticas costumeiras à produções nacionais, quando se fala sobre a possível “plasticidade” de diálogos e interpretações pouco orgânicas. Além de um elenco que passa conforto em suas performances, Daniel Rezende já vem conseguindo estabelecer tons e abordagens produtivas em suas obras, e contribui para a construção de atmosferas ficcionais onde nós, espectadores brasileiros, vamos deixando de estranhar séries como essa dentro do nosso próprio cenário. 

Uma boa adição ao catálogo de comédias da Netflix, Ninguém Tá Olhando merece atenção por conta de suas ambições temáticas, e do bom uso de seu tom irreverente para abordar tais tópicos delicados para boa parte do público. Alguns talvez poderiam preferir que a série concentrasse seus esforços em sua descontração, assim como algumas comparações americanas, mas dados os ganchos finais desta temporada (tanto na terra, como na repartição angelical), é de se esperar que a série ainda tenha fôlego de sobra para continuar engajante.