Alguém precisa enviar uma mensagem para o passado, e contar para o meu “eu” criança que Star Wars ganharia uma série com um começo tão promissor quanto este primeiro episódio de The Mandalorian

O universo de Star Wars vive um período conturbado, atualmente. Não é como se a franquia já não tivesse conhecido todo tipo de escrutínio público desde sua concepção, mas desde Os Últimos Jedi, a Disney tem tido que repensar boa parte de sua estratégia para ganhar a atenção de uma boa parcela do público que não vê com bons olhos, os rumos atuais da galáxia muito, muito distante… 

Mas enquanto o cinema se prepara para lidar com o grande lançamento de A Ascensão Skywalker (que encerrará a saga de nove filmes idealizada por George Lucas), o “herdeiro ao trono”, Dave Filoni, e o “menino de ouro” da Disney, Jon Favreau, entregam uma versão televisiva deste universo repleto de potencial inexplorado, com uma produtividade que não se via desde que o universo expandido ganhou ainda mais força na década passada. The Mandalorian é a prova de que Star Wars é uma franquia perfeita para a televisão, e mesmo que tenha demorado muito para que a primeira tentativa “live-action” visse a luz do dia, pelo menos a espera valeu a pena. 


A nova série, responsável por chamar atenção para o serviço Disney+, se inicia com um primeiro episódio mais do que competente, capaz de engajar o público casual (pouco comprometido com a franquia) de forma objetiva, ao mesmo tempo em que agrada os fãs de longa data que poderão comemorar a exploração de elementos da cultura mandaloriana, e cenas de ação envolvendo uma unidade IG. O famoso “fan-service” é tratado como uma consequência, mais do que como uma ferramenta por aqui, impedindo que a série acabe alienando aqueles pouco familiarizados com a dinâmica deste universo. 

The Mandalorian se passa depois de O Retorno do Jedi, com a queda do Império de Palpatine e a reorganização da galáxia que culminará na nova trilogia de Rey, Kylo Ren e companhia. O período tem sido consideravelmente preenchido pelos novos derivados, mas é no foco dado pela nova série aos cenários menos importantes da galáxia, que está o seu maior trunfo, e onde existe mais potencial para histórias que possam engrandecer este universo, sem necessariamente embolar as tramas principais da franquia. 

Interpretado por Pedro Pascal, o mandaloriano protagonista traz todas as características de um pistoleiro tão audacioso quanto é misterioso, o típico personagem que impõe sua presença e captura a atenção do público desde a época em que George Lucas ainda era um mero espectador. The Mandalorian retoma as referências originais da franquia como um todo, prezando a atmosfera de faroeste acima da escala épica que define a franquia atualmente, e concentra esforços em manter o tom narrativo acessível, porém empolgante, que tornava o apelo dos filmes originais, tão abrangente. 

A estética da série também segue a mesma fidelidade ao material original, lembrando a abordagem recentemente vista em Rogue One: Uma história Star Wars (ainda que, talvez, um pouco cinza demais), e mantendo um equilíbrio entre efeitos práticos e elementos digitais que, em certos momentos, parecem saídos do século passado. Evidentemente, tudo faz parte de uma estratégia para conservar a familiaridade de fãs antigos, enquanto fica claro que esta abordagem menos espalhafatosa de Star Wars é perfeitamente adequada ao espaço da televisão. 

Mais curto do que poderia se esperar, o primeiro episódio introduz seu protagonista com eficiência, e prepara o terreno para a temporada com um gancho final que aquecerá o coração dos fãs, por mais descompromissados ou apaixonados que possam ser. As interações entre o mandaloriano e a unidade iG também estabelecem uma dinâmica cativante, nos moldes da ação com toques de descontração que marcam blockbusters. E os breves vislumbres das reais motivações do protagonista indicam que a série pretende construir sua própria trama de forma relevante mas sem depender de grandes conexões com o resto do universo. 

Mas ainda assim, nada impede os roteiristas de incluírem elementos das séries animadas de Dave Filoni, nos episódios seguintes. E se o resto de The Mandalorian conseguir produzir o mesmo deslumbre deste primeiro episódio, é bem possível que estejamos diante de uma produção que estabelecerá um novo patamar para a televisão, e ditará o tom para as ambiciosas séries que ainda estão por vir, tanto no DIsney+, quanto em outros serviços de streaming. 

The Mandalorian pode ser o começo de uma nova era para a franquia nas mãos da Disney, e felizmente, começa com todo o entusiasmo que esta esperada empreitada televisiva sempre mereceu. Aqueles que acham que Star Wars está com os dias contados, claramente não entendem o potencial de novas cabeças brincando dentro deste universo. E tenho dito.