Sob grandes expectativas por conta de seu elenco, His Dark Materials estreou na HBO com uma recepção modesta, mas apesar de alguns problemas com o ritmo de seu roteiro, e o potencial um tanto inexplorado de sua direção, a série baseada nos livros de Philip Pullman consegue entreter e empolgar o espectador o suficiente para merecer atenção. 

Uma das coisas que tornou a recepção de HIs Dark Materials menos chamativa do que deveria, é uma certa falta de objetividade em definir o público-alvo da série, desde o começo, até a conclusão desta primeira temporada. Com uma protagonista adolescente e elementos fantasiosos, muitos compararam o primeiro episódio com os filmes da franquia Harry Potter, o que indicaria que His Dark Materials era uma produção destinada ao público infanto-juvenil. Mas embora o apelo a este público exista, o escopo e o tom da narrativa desta primeira temporada se distanciam da descontração de produções infanto juvenis, entregando uma série mais próxima da sempre referenciada Game of Thrones, porém com um material menos denso. 

Depois de um começo mais sóbrio, a série foi avançando dando grandes destaques aos seus diferentes cenários e contextos, e entregou um universo de fantasia sólido para os espectadores que ansiavam por uma nova produção deste gênero. Nota-se que a série tentou avançar suas adaptações do material original com calma, e de forma expansiva, estruturando esta primeira temporada de forma bem mais episódica do que passou-se a se esperar de histórias como esta, na televisão. A trama ainda avança de forma contínua, porém cada novo cenário da jornada de Lyra acaba ganhando um episódio para si, com as próprias dinâmicas e progressões. 


Minhas primeiras impressões sobre a protagonista foram mantidas ao longo da temporada. Lyra é destemida e determinada, do jeito que o espectador gosta de acompanhar em uma aventura como esta, e Dafne Keen consegue equilibrar bem a simpatia da personagem com sua petulância, formando uma jovem que toma conta das situações à sua volta, mas que ainda retém a inocência de uma criança. Ao longo do caminho, vão surgindo diversos coadjuvantes que contribuem muito para a formação deste universo, mantendo a trama geral dinâmica e envolvente.

Mas quem realmente merece destaque por aqui é Ruth Wilson, que tal qual se esperava da atriz, consegue interpretar a Sra. Coultier como uma antagonista ameaçadora, e que nunca torna-se apenas uma vilã superficial. A atriz aproveita os momentos ambíguos do roteiro para garantir que sua personagem tenha motivações palpáveis e compreensíveis, impedindo que a história torne-se previsível (ao menos para aqueles que não estão familiarizados com o livro ou com o filme). Tal insegurança gerada no espectador é essencial para que não se saiba em quem confiar, e mantém o crescimento da protagonista ainda mais interessante. 

Por conta da estrutura episódica que citei anteriormente, era importante que HIs Dark Materials conseguisse manter um sentimento de urgência ao longo de sua temporada. Tal sentimento existe mais perto da reta final, mas é possível que alguns espectadores sintam que a história está se movendo de forma lenta demais, no começo, com tanto espaço dedicado ao estabelecimento do universo e de tramas secundárias. O que também acaba interferindo no ritmo da temporada como um todo, é a enorme quantidade de exposição que a série joga em cima do espectador, com diálogos bem diretos e explicações que procuram garantir a compreensão dos elementos fantasiosos, mas que acabam tornando a experiência menos orgânica do que poderia. Em certos momentos, teria sido melhor deixar o espectador especulando, e seguir em frente com a trama. 

Boa parte destes momentos didáticos acaba acontecendo em cenas envolvendo o Magisterium, os grandes vilões desta história, e uma clara representação de um governo religioso opressivo. Se mais tempo tivesse sido dedicado a explorar os conceitos e argumentos por trás destes vilões, ao invés de tentar explicar seu funcionamento dentro da fantasia deste universo, teríamos tido antagonistas mais interessantes, com um ritmo mais funcional para os longos episódios. 

Mas quando se faz sentido de todas as regras e dinâmicas deste universo mágico, nota-se que há elementos de sobra para os fãs especularem e acompanhar as diferentes repercussões dos experimentos do Magisterium. E pessoalmente, a abordagem “steampunk” me agrada muito, principalmente por não termos muitos exemplos que explorem elementos como estes com tanta empolgação, o que também ajuda His Dark Materials a se diferenciar de tantas comparações. Do balão do personagem de LIn Manuel-Miranda, às terríveis caixas do laboratório dos vilões, percebe-se um esforço no design dos cenários e objetos que ainda pode ir muito longe, com mais temporadas. 

O potencial deste visual distinto, porém, nem sempre é explorado com todo o deslumbramento que merecia. A fotografia da série se esforça para distinguir os diferentes ambientes por onde Lyra vai se aventurando, mas nunca deixa de se limitar às fórmulas visuais que vem dominando o gênero no cinema e na televisão (também conhecidas como uma coleção filtros e contrastes práticos e objetivos). Felizmente, algumas sequências acabam se destacando na direção, a cada episódio, onde nota-se o valor de produção da série. E a trilha sonora, que varia entre épica e sombria, dá conta do recado de guiar as emoções do espectador, mesmo que sem grandes destaques.

E após o encerramento desta primeira temporada, podemos concluir que HIs Dark Materials não teme entregar seus momentos mais sombrios para o espectador desavisado, que achou estar entrando em um universo mais perto de varinhas e hipogrifos do que crianças lobotomizadas. No entanto, estes momentos estão longe de serem gratuitos, e contribuem para as discussões morais que a série propõe ao longo de sua duração. Acompanharmos a perspectiva inocente de Lyra chega ser uma segurança produtiva em meio a personagens dispostos a qualquer coisa para defenderem seus ideais e aspirações, e com a temática religiosa pairando ao fundo, ainda há muito o que se explorar por aqui. 

His Dark Materials apresenta um potencial empolgante, sem dúvidas, e constrói um universo digno para os fãs do material original, enquanto se esforça para introduzir esta história de forma impactante para espectadores casuais. Audácia não falta em suas propostas, com as próximas temporadas só precisando refinar algumas questões de execução.