Em sua primeira empreitada em live-action na televisão (tirando especial de natal), Star Wars continua firme e forte com The Mandalorian, demonstrando (mais uma vez) que a força deste universo nunca esteve contida ao apelo dos filmes, e sempre prosperará em cima de derivados que expandem e aprofundam a galáxia muito, muito distante…

The Mandalorian é o carro-chefe do serviço de streaming Disney+, que mesmo sem ter chego ao Brasil oficialmente, já conta com um número considerável de assinantes nos EUA, e provou ser capaz de bater de frente com a concorrência. A série de Star Wars tem conseguido se manter presente nas discussões do público, com o formato episódico e o lançamento semanal se provando uma escolha acertada da plataforma. E depois de oito episódios, com suas durações e direções variadas, podemos dizer que a série é um ótimo exemplo de como se transferir este universo para a televisão de forma segura e eficiente. 

É claro que parte da atenção que The Mandalorian conquistou durante sua primeira temporada, veio por conta da introdução de um bebê misterioso de uma certa raça bem reconhecível, até para aqueles que não acompanham a franquia nos cinemas. O pequeno ser, apelidado pela internet de “Baby Yoda”, é o típico exemplo de como a DIsney vêm tentando conquistar novos fãs, enquanto agrada aqueles que já familiarizados com este universo. É o Star Wars que você conhece, porém mais fofinho. E embora o bebê nem chegue a ser um personagem propriamente dito, há de se notar que, pelo menos, os episódios não pesaram a mão em suas participações, o que ajudou os fãs a não se cansarem do pequeno usuário da força tão rápido quanto se esperaria. 


Já sobre nosso protagonista que nunca tira seu capacete, podemos dizer que foi uma abordagem construtiva pegar o modelo do conhecido “Bobba Fett” e aprofundá-lo em um novo personagem, com seu próprio passado a ser descoberto e sua personalidade consistente. Mesmo sem vermos Pedro Pascal debaixo da armadura (a não ser por alguns breves segundos), foi possível empatizar com o personagem e acompanhá-lo sem muitos problemas, o que por si só já merece reconhecimento. Os destaques vão para as várias cenas em que o mandaloriano se pega encurralado em situações impossíveis, e mesmo assim acaba encontrando saídas que o tornam empolgante de acompanhar, a cada episódio. 

O formato episódico da série proporciona uma certa liberdade para cada roteiro e direção individuais colocarem sua própria aspiração neste universo de Star Wars. Enquanto alguns episódios bem contidos tentam construir suas tramas como mini-filmes, outros avançaram a trajetória do protagonista com resultados mais emocionantes. Há, porém, uma certa inconsistência incômoda na direção destes episódios, o quê impede a série de se manter tão memorável quanto poderia em sua temporada de estreia. 

Enquanto Bryce Dallas Howard, por exemplo, adota uma pragmaticidade pouco envolvente em sua tentativa de referenciar “Os sete samurais” em pouco mais de meia hora, temos também a descoberta muito bem vinda de Deborah Chow, que comandou dois dos melhores episódios desta temporada entregando uma abordagem construtiva para o que já é considerado formulaico dentro da franquia. Com a diretora já tendo sido anunciada como a responsável pela série que focará em Obi-Wan Kenobi, minhas expectativas foram atualizadas com sucesso. O aspecto mais consistente e digno de elogios desta temporada, porém, é certamente a trilha sonora de Ludwig Göransson, que conseguiu criar uma identidade própria para a série, ao mesmo tempo em que manteve-se condizente com o que já era familiar para este universo.

Essa tentativa de entregar uma variedade entre os episódios de The Mandalorian também trouxe a introdução de vários coadjuvantes, alguns mais interessantes e bem interpretados que outros. Os mandalorianos e sua dinâmica peculiar tiveram uma representação interessante de um elemento tão conhecido fora dos filmes, assim como toda a atmosfera pós-Retorno do Jedi, com os personagens imperiais não sendo mais a força dominante, o que trouxe uma sensação revigorante para a franquia como um todo (algo que já é considerado extremamente necessário desde que a Disney começou sua era de Star Wars). 

Como série, The Mandalorian também se destaca por seu uso de tecnologias inovadoras para compor seus cenários milaborantes, sem dispor da mesma estrutura e orçamento da franquia nos cinemas. Como um todo, o cenário televisivo vem brigando para mostrar que consegue se impor como uma opção tão chamativa e visualmente estimulante quanto os filmes blockbusters, e embora tal status nunca possa ser realmente alcançado quando se fala de grandes temporadas em comparação a filmes de duas horas, a série do Disney+ já demonstra, pelo menos, que não fica devendo em nada às representações da franquia em outras mídias. 

O real potencial de uma série de Star Wars como esta, é proporcionar o espaço necessário para retratar elementos diversos que seriam perfeitamente aproveitáveis no cinema, mas que infelizmente acabam não sendo o foco destas produções. São coisas como a forma de combate do droide IG, diferentes representações das ameaças do Império, visuais diferentes para membros da rebelião e interações corriqueiras entre personagens, que podem parecer simples, mas contribuem muito para a consolidação de um universo fantasioso tão vasto. 

Até hoje, o universo de Star Wars tinha sido expandido com sucesso para os games, HQs e livros. Cada mídia consegue integrar novos detalhes e profundidade à sua própria maneira, e são estas expansões que realmente tornam a franquia tão envolvente e divertida de se explorar. Felizmente, The Mandalorian consegue entregar o mesmo tipo de produtividade, mesmo que ainda não seja tão audacioso quanto poderia perto de exemplos como as histórias da Velha República. 

Muito do que foi apresentado por aqui ainda deve retornar em futuras temporadas, e em sua missão de estabelecer a própria perspectiva dentro deste universo, The Mandalorian consegue encerrar-se com sucesso. O potencial para possíveis tramas é praticamente infinito, e tudo depende apenas da ambição de Jon Favreau e Dave Filoni (além das permissões do grupo criativo da Lucasfilm). Infelizmente, a série continua presa em meio a saga Skywalker de uma maneira que uma boa parte do público vem considerando pouco estimulante, atualmente. Em sua próxima temporada, a série precisará mostrar que não depende do seu contexto para ser perfeitamente aproveitável, além de continuar focando seus esforços em retratar os cantos de uma galáxia tão vasta, mas que sempre parece ter espaço apenas para as brigas entre alguns personagens.