Um exercício bem gostoso de se fazer enquanto assiste a nova série de drama romântico Virgin River da Netflix, é tentar identificar alguns dos filmes que já assistiu, dentro desta produção, como por exemplo: O Amor Acontece (2009) de Brandon Camp; Sniper Americano (2014) de Clint Eastwood; Um Tira no Jardim de Infância (1990) de Ivan Reitman; além daqueles diretamente inspirados em obras do escritor Nicholas Sparks, tipo Um Homem de Sorte (2012) de Scott Hicks, e Um Porto Seguro (2013) de Lasse Hallström.

Isso para dizer que a produção da Netflix desenvolvida por Sue Tenney, baseada nos livros de Robyn Carr, não trará absolutamente nada de novo à mesa, nadinha mesmo. Tudo o que se passa nos dez episódios da primeira temporada de Virgin River, certamente, já viu em algum outro filme, ou série de televisão. Assim, pode-se concluir que esta série dramática nada têm a nos acrescentar, certo?

Bom, se quiser pensar desta maneira … azar.


Em visto que, se falta inventividade para o enredo, sobra genuinidade e atração na transmissão destes personagens inteligentes, empáticos e abertos a possibilidade de renovação. Entregando uma produção que se mostra uma grata surpresa dentro do catálogo da provedora mundial via streaming, não apenas por flertar com o gênero melodramático (que se tornou um pouco anacrônico no século XXI), mas essencialmente, por fazer o mesmo que Steven Soderbergh fez, pelos americanos da chamada América profunda (vista como mais tradicional nos costumes, e conservadora na política) com seu longa-metragem Logan Lucky – Roubo em Família: mostrar que estes cidadãos são muito mais do que os olhos podem ver.

Se o diretor responsável pelos filmes da trilogia Onze Homens e um Segredo optou por revelar a astúcia desse povo; a série criada por Tenney resolve apresentar a inteligência emocional destas pessoas que vivem nas pequenas cidades americanas, e sua conscientização transmutativa.

Recentemente, o roteirista Charles Randolph – ganhador do Oscar pelo roteiro de A Grande Aposta (2015) – divulgando seu mais novo trabalho, o drama O Escândalo, se abriu na entrevista, e confessou que prefere abordar personagens mais conservadores do que liberais (representantes da esquerda democrata nos Estados Unidos). Algo muito revigorante de se ver, dado que o próprio é um democrata. Sua justificativa por tal preferência, ocorre porque gera várias oportunidades dele contra-argumentar suas ideias e conceitos, enquanto busca compreender via empatia qual o lugar destas pessoas no mundo.

Essa maturidade é o que torna Virgin River algo da maior dignidade. Mais: transmite sua narrativa sem um pingo de cinismo – algo que facilita a imersão no melodrama.

A série da Netflix segue a história de Melinda ‘Mel’ Monroe (Alexandra Breckenridge) que respondeu um artigo sobre um emprego como enfermeira em uma pequena cidade chamada Virgin River, no norte do estado da Califórnia. Buscando um lugar para recomeçar e deixar suas memórias trágicas para trás, a jovem vai de encontro a uma nova fase em sua vida. Mas, em breve, descobrirá que a cidade colocará certos desafios em seu caminho, e que para conseguir enfrentar isso, primeiro, ela deve aprender a se curar de suas feridas emocionais para poder fazer deste vilarejo, sua casa.

Seguindo o lema: ação é personagem, e personagem é ação, Virgin River prende o espectador deste o primeiro episódio.

A construção e tratamento dos personagens deste drama não chegam a ser formas complexas. Na verdade, todos são do tipo bidimensionais, ou seja, fáceis na identificação com o público geral, profundos em suas variáveis emocionais, apesar da grande previsibilidade em suas ações. No entanto, o uso de uma narrativa que visa elucidar a progressão destas personagens, faz com que o material se torne algo irresistível. E, para melhorar ainda mais, existe um mistério ao redor de sua protagonista, mantendo o assinante Netflix atento a cada um dos fragmentos – cenas de flashback – deste passado que estilhaçou o presente de Mel.

Existe certa antecipação quando comentamos o passado de Mel. Sabemos desde o comecinho que a jovem enfermeira é alguém que passou por maus bocados complicados de se esquecer. Porém, o mistério não está em saber que a protagonista sofreu, mas no porquê e como isso tudo aconteceu.

A performance de Alexandra Breckenridge – que lembra uma jovem Winona Ryder, só que loira – é típica de melodramas, assim, muitas e mais muitas lágrimas ao longo dos dez episódios. Mesmo assim, é simples se encantar com a personalidade altiva de Mel. Sua personagem é culta, gentil, humilde, e não deixa barato quando é necessário dizer algo que deve ser dito. Irresistível, não?

O neozelandês Martin Henderson (O Chamado; Fúria em Duas Rodas; Grey’s Anatomy) que faz o par romântico junto de Breckenridge surpreende muito. De modo que entrega, talvez, a maior atuação de sua carreira. Cirúrgico na reprodução de um ex-veterano da guerra que nunca conseguiu deixar os traumas no passado, além de sensível nos costumes, e um aspecto eastwoodiano que lhe passa um mix de charme e introversão.

Mesmo suas frases prontas, encharcadas de visão positiva soam como algo real, longe da pregação ou panfleto.

Outro casal que vale citar: os lendários Annette O’Toole e Tim Matheson.

O personagem dele começa de um jeito e vai amansando aos poucos. No final, demonstra certa dose de sabedoria, que é impossível de ser negada. Agora, O’Toole – lembrando muito Diane Keaton nos dias atuais – é um show à parte, pois parece que cada episódio de Virgin River é uma oportunidade desta expressar algo novo. Ela é daqueles tipos de personagem que fica prático se apaixonar, especialmente, quando estão em movimento. São nestes momentos que podemos sentir sua ansiedade explodindo até o nível do teto, junto de uma fragilidade que faz acalentar o nosso íntimo.

Virgin River da Netflix é isso: uma produção de drama que é tradicional em sua parte lógica, e progressista em seu coração aberto.

É a prova que altruísmo e a ausência de cinismo são atributos que não devem ser relegados, e que estes são a ponte que existe ligando as extremidades. A cidade de Virgin River diz, claramente, que para manter os elos costurados, serão necessárias adaptações, e que a verdade ainda é a melhor opção, se o alvo for nosso próprio ressurgimento.