Entre tantas adaptações diferentes da história de Bram Stoker, Mark Gatiss e Steven Moffat decidiram tentar a sua própria abordagem do clássico monstro em Dracula, nova série britânica que consegue justificar a sua existência, ainda que não seja o suficiente para chamar a atenção de quem está completamente cansado de histórias de vampiros. 

Gatiss e Moffat são showrunners conhecidos por seu trabalho em Sherlock (além de Doctor Who), onde as histórias clássicas do icônico detetive eram retrabalhadas para se adequar ao cenário contemporâneo, proporcionando o espaço que foi tão bem aproveitado por Benedict Cumberbatch para distinguir sua interpretação do personagem. O formato de uma temporada com três longos episódios, estruturados para proporcionar uma independência construtiva entre si, retorna na nova série da dupla, e serve bem ao propósito de contar uma história com começo, meio e fim, indo da mais fiel tentativa de adaptação, à subversão de elementos conhecidos. 

Drácula traz três episódios bem distintos. O primeiro é, evidentemente, a tentativa dos roteiristas de colocar sua própria abordagem sobre a clássica história, tão conhecida do público em diferentes formas e interpretações. Da ambientação histórica à atmosfera de terror do episódio, o que temos é uma adaptação, no mínimo, divertida de acompanhar. No segundo episódio, porém, percebe-se como a nova série poderia ser alongada para seguir os mesmos rumos de Sherlock, em um formato quase procedural com o protagonista em meio a novos personagens e um ambiente específico. É no terceiro episódio, no entanto, que a dinâmica da série passa por uma grande alteração, e revela a real proposta dos roteiristas para sua versão do personagem. 


Apesar da diferentes circunstâncias de cada episódio, Claes Bang aproveita o potencial que tem em mãos com o protagonista para demonstrar um equilíbrio cativante entre o charme, a ameaça e a desconexão atormentadora de seu papel. Com tantos atores já tendo tido a oportunidade de dar vida às várias interpretações do Drácula, chega a ser um grande elogio notar que o ator consegue manter-se distinto de qualquer comparação imediata. Do outro lado, no entanto, temos Agatha, interpretada por Dolly Wells, que serve como a antagonista ideal para o monstro desta história, e fica responsável por ser a heroína pela qual podemos torcer, ao longo da temporada. Afinal, a proposta por aqui não é necessariamente tornar o clássico monstro, uma espécie de anti-herói, como poderia se esperar de tantas outras produções.

A série procura manter sua atmosfera de tensão com cenas visualmente chocantes, onde apesar do impacto ainda ser um tanto contido ao que é comum na televisão, o entusiasmo dos produtores ao lidarem com elementos de terror e “gore” é evidente, e mais do que suficiente para agradar os espectadores que esperam tais cenas gráficas em uma história de vampiros. Eventualmente, porém, esse entusiasmo pode ir um pouco além da conta, como durante as inserções de rápidas cenas com imagens assustadoras embaixo de um filtro vermelho-sangue. 

Ainda assim, é bem raro ver os britânicos decepcionando alguém com a fotografia e a direção de suas séries menos casuais, e o resultado por aqui continua sendo bem consistente. Há, pelo menos, uma sensação de que a maior parte da série não emprega estes choques visuais de uma forma gratuita, mas sim tentando retomar elementos e abordagens que já foram utilizados em outras adaptações menos “românticas” de uma forma moderna o suficiente para o público atual. 

Aqueles que já estão familiarizados com o trabalho da dupla sabem que Moffat e Gatiss adoram construir grandes reviravoltas e revelações em suas histórias, e Drácula não é nenhuma exceção. O primeiro episódio já traz uma releitura interessante de um personagem conhecido das histórias clássicas, enquanto o segundo episódio termina em uma grande reviravolta que altera completamente as circunstâncias da série para o personagem principal. 

Mas em geral, Moffat costuma valorizar mais o impacto do que a construção em seus “plot twists” (Doctor Who está aí para provar), e em Drácula, percebe-se uma certa inconsistência narrativa, onde parte do arco do personagem pode soar um tanto apressada para o público, ao longo destes três episódios. Um outro problema também, é o potencial desperdiçado que acaba sendo estabelecido em cada episódio, e logo é deixado de lado no capítulo seguinte. Na verdade, qualquer um destes episódios poderia ser o piloto da própria série, com as próprias dinâmicas e apelos. 

*SPOILERS*

A diferença tonal que existe no terceiro episódio chega a ser revigorante, na verdade, para todos aqueles que ainda estavam questionando se Drácula era uma série que merecia seu espaço entre as várias adaptações deste personagem. Ao levar o protagonista para o futuro, abre-se o espaço para todas as típicas piadas sobre a sociedade moderna, pelos olhos de uma figura histórica, além de proporcionar as reflexões que provaram-se essenciais para compreender as aspirações e medos do personagem. 

Este Drácula traz algumas subversões construtivas sobre a mitologia do personagem, e sua visão sobre um mundo onde “todas as experiências são revendidas, com exceção da morte” acaba sendo uma justificativa bem interessante para a existência da série. A noção de que apenas uma pessoa da nossa sociedade contemporânea daria o seu “sangue” de livre e espontânea vontade, ou estaria atraída pela morte, abre uma discussão produtiva que ganha perspectiva com um personagem imortal, que está sempre tão próximo da morte, e não entende sua própria relação com este aspecto inevitável da vida. 

Os roteiristas decidiram concluir o arco construído para o protagonista com este terceiro episódio, e embora poderia-se imaginar a série dando continuidade à esta trama por várias temporadas (baseando-me nas dinâmicas dos episódios), também acaba sendo gratificante acompanhar a objetividade desta história, ainda que o caminho tenha sido um tanto apressado em algumas partes. 

Gatiss e Moffat continuam demonstrando sua aptidão para este formato de séries, e o seu apreço por reviravoltas com certeza deve continuar cativando espectadores (principalmente os orfãos de Sherlock e das temporadas de Doctor Who sob o comando de Moffat). Com drácula, a dupla entrega uma versão empolgante do personagem, levando-o desde seu ambiente natural, até o mais estranho, com no mínimo, algo a dizer.