A rivalidade mais antiga do mundo nerd passará por alguns dos momentos mais cruciais da sua história entre 2016 e 2020. Tanto a DC Comics, em parceria com a Warner Bros, quanto a Marvel, que fundou seu próprio estúdio, tem uma lista extensa de lançamentos previstos para os próximos quatro anos, e a disputa já começou quente com a reação dividida a Batman vs Superman: A Origem da Justiça, filme que inaugura de vez o universo cinematográfico da DC, três anos depois de O Homem de Aço.

Dia 28 de Abril chega Capitão América: Guerra Civil, o principal concorrente de Batman vs Superman esse ano, e a partir daí uma série de enfrentamentos se segue. Um rápido flashback para 2008 deve nos ajudar aqui: o marco inicial da campanha da Marvel para dominar os cinemas comerciais mundo afora como estúdio foi com Homem de Ferro, que foi um sucesso até modesto (US$ 585 milhões), mas capturou as imaginações de espectadores mundo afora de tal forma que permitiu à Marvel alçar voos bem mais ousados.

Construindo uma base de identificação com o público que foi crescendo conforme mais personagens estreavam em filmes-solo, a Marvel sabia, em 2012, que Os Vingadores seria o momento decisivo para o futuro da sua franquia, e os US$1,5 bilhão que o filme fez mundialmente fez os executivos da editora/estúdio respirarem aliviados.


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Em comparação a essa pequena história do começo da Marvel como potência cinematográfica, de que forma a DC está abordando seus primeiros lançamentos em um universo cinematográfico compartilhado por todos os seus super-heróis? O Homem de Aço fez US$ 668 milhões no mundo inteiro, o que é um resultado impressionante em qualquer sentido, mesmo que o filme tenha custado um pouco mais do que os padrões da Marvel. Ainda não sabemos os resultados finais de Batman vs Superman, mas o fim de semana de estreia arrecadou US$ 420 milhões, o que aponta para um futuro absolutamente brilhante para o filme nas bilheterias – é o quarto maior fim de semana de estreia da história, atrás do último Star Wars, de Jurassic World, e do último filme da série Harry Potter, e US$ 20 milhões à frente da melhor estreia da Marvel (Os Vingadores).

Analisar esses números é uma boa medida do quanto essas editoras passam por momentos extraordinariamente diferentes, e ainda assim de certa forma semelhantes. Ambas estão em uma fase de provação, com a Marvel tendo que provar sua força pela primeira vez contra outra potência com a qual divide o mesmo nicho de gênero e público, e a DC traçando a sua ascensão com cautela, mas nenhuma sutileza. Deixando as bilheterias de lado, no entanto, qual é a diferença entre os heróis e as histórias que vemos de um lado, e os que vemos de outro?

Vingadores

Observando a trajetória da franquia da Marvel, a estratégia sempre foi posicionar cada um de seus personagens em filmes solo para que fossem reconhecidos e familiarizados com o público, com um arco claro desenhado para cada um antes que eles pudessem se juntar e criar não só um filme-evento, mas uma culminação narrativa. O que essa abordagem nos diz é que a Marvel está interessada, e quer que estejamos também, em quem cada um desses personagens é, antes de nos dizer o que eles representam. O primeiro filme da Marvel que realmente analisou o mito do super-herói e lidou com as consequências de suas ações foi provavelmente Era de Ultron, e esse filme veio em 2014, seis anos depois da estreia da franquia.

Há algo de muito prudente nesse caminho narrativo que a Marvel toma, porque ela transforma seus seres superpoderosos, sejam eles cientistas atingidos por radiação, soldados geneticamente modificados ou multimilionários egocêntricos com um problema de coração, em pessoas reais o bastante para que nos identifiquemos com eles, em um nível primitivo pelo menos. A história é sobre eles, e por eles serem em muitos sentidos exatamente como nós (e o humor é parte importante disso, porque é parte da nossa vida também – poucas coisas humanizam e definem melhor um personagem do que o seu senso de humor), a história é sobre nós também.

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O que a DC fez até agora com seus personagens é o processo inverso, por assim dizer. Só a decisão de começar a nos contar a história desse universo através do Superman já mostra um olhar diferente sobre o gênero dos filmes de super-herói. Kal-El ou Clark Kent, não importa que nome ele use, não é humano, e tanto O Homem de Aço quanto Batman vs Superman fazem questão de sublinhar isso com muito cuidado. Superman não é só um alienígena, como também uma divindade – é praticamente invencível, inatingível por balas ou qualquer tipo de poder humano. Onisciente, onipotente, onipresente, ao menos sob o olhar admirado daqueles que ele salva e o olhar assustado dos que tem a infelicidade de estar perto demais de suas batalhas.

A construção do Kal-El de Henry Cavill é a de uma entidade que está em constante conflito com o próprio poder, com a própria responsabilidade, com a sua razão de existir no mundo. Ele é um Deus com inseguranças, paixões e machucados muito humanos, a maioria deles infligida por nós mesmos contra ele, mas ele ainda é um Deus. Assim como a guerreira amazona Mulher-Maravilha é uma representação espelhada da divindade feminina, e o Aquaman é, na prática, a entidade pagã que controla os oceanos. Até o decididamente humano Bruce Wayne, o Batman, aparece como uma força extraordinária, uma materialização de nossos medos mais subterrâneos e da força que tiramos deles.

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Em suma, cada vigilante superpoderoso da DC é mais um símbolo do que jamais será um personagem. Não há nada de inerentemente errado nisso, porque contar a história de deuses, mitos e ícones diz tanto sobre a nossa cultura e a nossa psicologia como humanos, como Zack Snyder e seus roteiristas tentaram dizer tanto em Homem de Aço quanto em Batman vs Superman. A fundação de qualquer narrativa, em qualquer gênero, é a humanidade em que ela toca, mas existem uma centena de caminhos para chegar até lá – a Marvel traz os seus super-heróis até o plano terreno, e discursa eloquentemente sobre a humanidade deles, e portanto a nossa; a DC os coloca no topo do Monte Olimpo, e nos mostra o que a presença de deuses, salvadores e vigilantes mascarados entre nós diz sobre quem somos e no que queremos acreditar.

Essa distinção não é novidade para qualquer fã de quadrinhos, visto que foi traduzida direto das revistas para as tela do cinema. As duas visões tem convivido desde os anos 60, quando a Marvel entrou no ramo dos super-heróis dominado pela DC desde 1938, e continuarão a conviver e enriquecer nossas experiências culturais por muitas décadas, no cinema ou no papel.

Não há uma maneira certa e uma maneira errada de se escrever histórias de super-heróis, porque essas narrativas não pertencem tanto a essa ou aquela editora quanto pertencem fundamentalmente a quem as lê, vê e reflete.