Fazer filmes de super-heróis é ainda mais difícil do que parece. Conta a lenda que Christopher Nolan é o responsável pelo atraso no desenvolvimento do universo cinematográfico da DC Comics no cinema – contratado para revitalizar o Batman, o diretor montou planos para uma trilogia e sempre foi rígido quanto a seu Homem-Morcego ser uma história separada de quaisquer outros personagens que a DC/Warner quisesse desenvolver ao mesmo tempo.

Nolan tinha um ponto, e talvez seja por isso que os seus três filmes sigam como a versão mais coesa e decididamente voltada à visão artística de uma equipe de pessoas específica do gênero. Batman Begins, O Caveleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Ressurge podem ter suas falhas, mas são obras que abraçam uma perspectiva e um estudo de personagem sem fazer nenhuma concessão à exigências do estúdio – e são também filmes que arrecadaram, juntos, mais de US$ 2.5 bilhões para a Warner.

Quando a formação de uma franquia está em jogo, especialmente uma franquia que incorpore outros personagens e seja responsável por mostrar elementos desses personagens antes que eles apareçam em aventuras solo, é mais difícil criar um filme que funcione sozinho, comprometido apenas consigo mesmo e com a visão do seu diretor (e do seu roteirista, e do seu elenco, enfim).


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Batman vs Superman não começa universo com pé direito

Os melhores momentos de Batman vs Superman são os momentos em que o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer realmente mergulha na proposição de analisar o mito dos super-heróis e o que ele nos diz sobre a humanidade e a sociedade. O que a existência de um Deus entre nós significa para um vigilante mascarado humano, velho e cansado? Por que odiamos, ou por que amamos, essa divindade alienígena cujo poder mal podemos mensurar?

As questões centrais de Batman vs Superman são empolgantes e interessantes, e fazem o embate entre os dois heróis funcionarem. No entanto, o filme de Zack Snyder é também o começo de uma franquia (O Homem de Aço chegou em 2013 sem muita responsabilidade de trazer prévias do que estava por vir), de um “universo compartilhado” de personagens que, para ser crível como tal, precisa se integrar e se costurar.

Nós não estamos dizendo que há algo de inerentemente errado no modelo do universo compartilhado – pelo contrário, ele se mostrou fascinante, de sua própria forma, no lado da rival da DC. O ponto é que, quando esse tipo de planejamento está em jogo, em muitos sentidos cada filme individual é mais um exercício de “até onde podemos ir?” do que qualquer coisa.

Batman vs Superman tenta ser o melhor de dois mundos – um filme de autor que também começa uma franquia gigantesca –, e chega impressionantemente perto de conseguir, mas o truque não cai bem com o público massivo que a DC/Warner está tentando atingir. Por isso, talvez, as críticas venenosas, e o resultado financeiro abaixo do esperado – em 20 dias de lançamento, BvS angariou US$ 800 milhões mundialmente e US$ 300 milhões nos EUA (para efeitos de comparação, tanto Vingadores: Era de Ultron quanto O Cavaleiro das Trevas Ressurge tinham mais do que isso no caixa em 20 dias).

Para muitos analistas, a quantidade praticamente ofensiva de dinheiro que a Warner/DC investiu em Batman vs Superman faz com que o número mágico para o filme atingir seja US$ 1 bilhão, o que não parece que vai acontecer. E as mudanças de data e de comando por trás das câmeras mostram que o universo estendido da DC pode estar em apuros.

Fique claro, de forma alguma Batman vs Superman é um fracasso. Mesmo assim, a conjunção dos resultados financeiros nem tão fabulosos quanto se esperava com a recepção crítica atroz faz com que a pergunta de outro seja: o que está faltando para a Warner/DC?

Kevin Feige
Kevin Feige

A Marvel tem um líder, a DC ainda não…

Bom, como destacou recentemente um escritor da Variety, talvez o que falte é um Kevin Feige. Tenha seus defeitos ou não, o produtor e diretor da Marvel Studios fez um trabalho mais do que razoável em planejar e reunir essa quantidade imensa de produções, talentos e personalidades em um universo coeso, com filmes que nunca parecem “se estragar” para dar espaço ao desenvolvimento da franquia maior – na Marvel, porque Feige supervisiona tudo e entende os mecanismos de história da tradição dos quadrinhos e do cinema, essa conexão parece natural.

Por um tempo, a Warner/DC queria que Geoff Johns assumisse um papel semelhante no universo estendido da editora. Mas o diretor criativo da DC Comics está um pouco ocupado no momento, escrevendo o roteiro do próximo Batman junto a Ben Affleck, fazendo roteiros para vários personagens nos quadrinhos, e também trabalhando na equipe de roteiristas de The Flash, da CW – tudo isso além de controlar a própria DC, diga-se de passagem.

Outros candidatos surgem na forma de Greg Silverman, diretor de produção da Warner, e Diane Nelson, a chefona da DC Entertainment, que também supervisa o trabalho de Johns no setor de quadrinhos. No entanto, é complicado pedir para que essas pessoas, ou o produtor executivo John Berg, ou o diretor da Warner Jeff Bewkes, assumam um trabalho que, na Marvel, é provavelmente a única ocupação exercida por Feige. Isso porque fazer esses filmes, e planejá-los, e traçar suas histórias, e trabalhar com equipes de criação diferentes em cada um deles, é trabalho duro e exige cuidado.

Homem-Morcego e Zack Snyder
Homem-Morcego e Zack Snyder

Se não tem tu, vai tu, Zack Snyder

Pelo menos por enquanto, o homem por trás da maioria das decisões criativas dentro do universo cinematográfico da DC é Zack Snyder, especialmente como diretor dos dois primeiros filmes e das vindouras aventuras da Liga da Justiça, ele está reportadamente trabalhando com as equipes dos filmes da Mulher-Maravilha e do Aquaman para chegar a um tom coeso para o futuro da franquia. E o ponto não é que Snyder é um diretor pouco talentoso, o ponto é que essa não deveria ser sua função – como cineasta, ele é muito mais um iconoclasta habilidoso do que um contador de histórias, e isso é alarmante para alguém que está manejando uma trama que se estende por vários filmes e uma multidão de personagens.

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A solução ainda não chegou para a DC Entertainment, que deveria pensar em fundar seu próprio DC Studios e encontrar alguém para tocar o baco a frente com responsabilidade e o equilíbrio certo entre ambições comerciais e artísticas. Se o público vai se acostumar com o tom diferente dos filmes da editora não é a questão – a questão é que tom é esse, e quem está definindo-o.